Cinegnose

por Wilson Ferreira

13 de novembro de 2015, 16h00

A psicanálise de um fantasma em “I Am a Ghost”

Talvez o mais difícil não seja morrer, mas despertar do outro lado e ter de se dar conta de que já está morto. Ultrapassar a fronteira entre a vida e a morte pode ser algo tão imperceptível que continuamos do lado de lá a conviver com os antigos traumas e fantasmas que nos atormentaram quando quando éramos vivos. O horror independente “I Am a Ghost (2012)” mostra alguém que ainda não se deu conta de que está preso em algum lugar entre a vida e a morte, e continua repetindo seus antigos hábitos como nada tivesse acontecido. Uma voz tenta despertá-la, fazendo do filme um surpreendente encontro entre Espiritismo e Psicanálise. 

“Ninguém precisa de um quarto para ser assombrado. Não precisa ser uma casa. O cérebro tem corredores suficientes que ultrapassam a matéria”. Essa epígrafe de um poema de Emily Dickinson abre I Am a Ghost e dá o tom de um filme que pode ser inicialmente descrito como o cruzamento entre o argumento de Os Outros com Nicole Kidman com o tema e a atmosfera visual de O Iluminado de Kubrick.

Com um baixíssimo orçamento de 10 mil dólares, esse filme independente de H.P. Mendoza segue a tradição de filmes como A Passagem (Stay, 2005) e O Terceiro Olho (The Eye Inside, 2004) onde põe em questão aquela expressão que dizemos quando recebemos a notícia da morte de alguém: “partiu dessa para a melhor!”.

Enquanto em Os Outros, A Passagem O Terceiro Olho mostram a experiência pós-morte com uma fotografia estilizada com caprichados planos de câmera, I Am a Ghost é duro e cru como um soco no estômago: talvez a morte não seja uma libertação, mas a continuação de todas as mazelas que experimentamos em vida.

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A morte não é apenas uma fenômeno físico, morreu e acabou. Você está livre! I Am a Ghost nos lembra que o morrer pode ser muito mais complicado: a dor e os fantasmas interiores podem continuar nos perseguindo, criando uma sobrevida tão prisioneira quanto a nossa, a dos vivos.

O horror “slow burn”

I Am a Ghost é a melhor definição do atual subgênero de horror “slow burn”: numa casa estilo vitoriano acompanhamos as tarefas tediosas diárias de Emily. Nos primeiros quinze minutos acompanhamos rituais diários que vão se acumulando, repetindo-se e se interpenetrando em cenas aleatórias e sutis. Tudo parece normal, mas percebemos que há algo errado e que algo assustador poderá irromper a qualquer momento – a atmosfera gótica de corredores estilo kubrickiano de O Iluminado reforçam ainda mais essa sensação. 

Essa lenta construção compensa quando vemos repentinamente o filme transformar-se em horror inquietante e caótico: “Estou morta!… agora, repita comigo: Eu sou um fantasma! Eu sou um fantasma!”, ouve-se uma voz de procedência misteriosa. Acredite, leitor: isso não é um spoiler, é o início do argumento que atualiza a tradição dos filmes acima citados – dessa vez o protagonista que descobre-se morto terá que enfrentar suas memórias, fantasmas e monstros interiores.

O problema é que nos mundos etéreos como aqueles nos quais entraremos após a morte, essas forças psíquicas ganham força e materializam-se dentro de um ambiente sutil e plástico. Viram entidades que nos perseguem e criam ilusões que nos aprisionam, impedindo que, de fato, morramos. 

Dessa maneira H.P. Mendoza faz um surpreendente cruzamento entre Espiritismo e Psicanálise da maneira mais assustadora possível. Em outras palavras, I Am a Ghost pode ser descrito como uma sessão mediúnica e psicanalítica com um fantasma prisioneiro de si mesmo em um plano etéreo contiguo a esse mundo. 

O Filme

I Am a Ghost é um filme inteiro a partir da perspectiva de um fantasma. A incômoda calma da rotina diária dos quinze minutos iniciais é quebrada quando Emily entra no quarto de sua mãe e ouve a voz desencarnada de uma mulher chamada Sylvia – uma clarividente contratada pela família dos moradores que vivem atualmente naquela casa. Nunca vemos esses personagens, já que o ponto de vista da narrativa é o do mundo etérico. Mas sabemos que a rotina de Emily no outro mundo resulta em involuntários reflexos no mundo dos vivos como portas batendo, sons de passos e coisas caindo.

Percebemos que Emily vive numa espécie de purgatório pós-morte: uma eterna repetição dos afazeres domésticos e o tabu de não pisar no tapete do quarto de sua mãe sobre o qual supostamente teria se matado. Esse eterno loop só é quebrado quando Emily entra no quarto da sua mãe e ouve a voz da clarividente – Emily volta a si como se despertasse de um sonho, reconhece ser um fantasma e procura atender as instruções da médium que pretende guia-la “para a luz”.

Mas algo está dando errado. Por algum motivo no meio processo de diálogo espiritual Emily corre amedrontada, sai do quarto e volta ao seu estado de torpor e à repetição incessante dos rituais diários, tornando-se alheia a sua condição. 

Para a médium Sylvia, somente o reconhecimento da própria entidade assumir-se como um fantasma de alguém que já morreu já seria o suficiente para a libertação daquele purgatório. Mas com Emily tudo é diferente. Por que?

A banalidade da morte

Uma das coisas incomodas em I Am a Ghost é a depressiva banalidade da vida “do outro lado” – tudo parece ser uma mera perpetuação dos problemas da vida encarnada a tal ponto que não sabemos se de fato estamos “vivos” ou “mortos”.

Aqui começa o interessante encontro que o filme promove entre Espiritismo e Psicanálise. Emily é prisioneira dos rastros de suas próprias memórias deixados pelos cômodos da casa. Essa é uma conhecida tese da Parapsicologia sobre a possibilidade de superfícies de objetos ou paredes serem impregnados com energias psíquicas de episódios de alto teor emocional envolvendo traumas, dor, alegria, intenso prazer ou tristeza etc.

 

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