Cinegnose

por Wilson Ferreira

21 de junho de 2017, 22h16

Réquiem ao Jornalismo na redação-cenário do “novo” Jornal Nacional

Todos os jornalistas da Globo de pé assistindo ao discurso do patrão, Roberto Irineu Marinho, na redação-cenário da “nova casa” do Jornal Nacional inaugurada com toda pompa e circunstância. Todos atentos como se ouvissem a convocação do seu general arregimentado a tropa para uma nova guerra. Um discurso que revela o conflito de interesses da Globo entre manter a “saúde da empresa” e a missão de buscar um “jornalismo independente”. Esse foi o constrangedor réquiem ao jornalismo em um visual que superou a tradicional “space opera” de Hans Donner para ingressar na estética holográfica do filme “Tron: O Legado”. O JN lança seu novo cenário high tech e robótico como mais uma resposta tautista à crise de credibilidade e do negócio da TV aberta – vender espaço comercial em troca de entretenimento. A inauguração da “nova casa” do JN com todo estardalhaço metalinguístico é mais uma reação da emissora ao seu declínio. Agora o JN apresenta cenários com superfícies transparentes e translúcidas para esconder a opacidade do próprio jornalismo.  

Era uma vez o Brasil que vivia a ditadura militar na qual, graças à rígida formação intelectual dentro do Positivismo de Augusto Comte, os militares de alta patente de plantão no poder acreditavam na tecnocracia – somente uma elite de técnicos (distantes da Política e do Povo) poderia liderar o milagre econômico e o desenvolvimento nacional. Era a utopia do “Brasil Grande”.

A Globo, junto com o designer gráfico austríaco Hans Donner, compreenderam muito bem o zeitgeist desses anos 1970: o futurismo das primeiras vinhetas animadas em computador com esferas, pirâmides e cones se movimentando em fundos infinitos era a moldura high tech dessa utopia autoritária. 

E a bancada do Jornal Nacional, à semelhança de uma nave espacial, era a apoteose, em cores e ao vivo, para milhões de brasileiros que viam um país que supostamente avançava para o futuro, enquanto lá fora o mundo era mostrado em crise e à beira de uma guerra nuclear. 

Mas tudo isso acabou: a hiperinflação e a proletarização da classe média pôs fim ao milagre econômico. Mas os sólidos geométricos platônicos de Donner continuaram voando nas vinhetas da Globo, ao lado das beldades platinadas do Fantástico.

Mas hoje, além de mais uma crise econômica nacional, a Globo vive sua própria crise: de audiência, credibilidade e de um modelo industrial que desaparece – a venda de espaço comercial em troca de entretenimento na TV aberta.

 

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Depois de levar a reboque a oposição política e liderar (ao lado do Judiciário) o movimento de impeachment, hoje vive acuada por críticas de todo o espectro político-ideológico.

Até conservadores e a direita atacam a Globo de supostamente tentar agora proteger Lula em um grande acordão pós queda do desinterino Michel Temer – principalmente depois publicação na revista Época da entrevista com Joesley: nas redes sociais leitores furiosos acusaram a revista de “armação da Globo para proteger Lula” – clique aqui.

Reações tautistas da Globo

Em crise de audiência e credibilidade a Globo reagiu, como sempre, de forma tautista: primeiro, na comemoração dos seus 50 anos, passou mais tempo se defendendo das críticas históricas do que celebrando conquistas (clique aqui). 

Segundo, em 2014 repaginou o visual do Fantástico abandonando a estética Hans Donner space opera – tornou-se mais “orgânico”, metalinguístico (com reuniões de pauta ao vivo) para criar a percepção de “transparência” e “credibilidade” jornalística (clique aqui).

Terceiro, partiu para uma estratégia orwelliana (“quem controla o passado, controla o presente”): com um oportuno timing, em momento de guerra aberta da emissora contra o desinterino Temer, a Globo lançou a série Os Dias Eram Assim.

Mas em dias bem atuais quando começam a crescer nas ruas o grito “Diretas Já!”, a Globo se apressa em misturar realidade e ficção para reconstruir seu passado na série como se, desde 1984, fosse sempre à favor das eleições diretas (clique aqui).

E, nessa última segunda-feira, o quarto movimento para tentar se blindar: o “novo” cenário do Jornal Nacional – na verdade, uma versão ampliada e high tech do Rede TV!News e alusão ao visual da BBC News, Al Jazeera e a espanhola Antena 3.

 

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Jornal Nacional e a estética holográfica

Com a matiz azul dominante, superfícies translúcidas, telões de LED, câmeras com braços robóticos e uma bancada em cores neon, supera a estética Hans Donner: abandona a space opera para ingressar na estética holográfica do filme Tron. Mais especificamente de Tron: O Legado.

Mas o efeito ideológico continua o mesmo: lá nos anos 1970 e assim como em 2017, o foco é em high tech, telões (lá nos 70’s o mote era “transmissão via satélite”), transparências e platinados, para criar toda uma mitologia em torno da “transparência” e “objetividade” como se o telejornal fosse uma máquina de notícias. E, portanto, como veículo tecnocrático, crível e confiável por ser “maquinal”, “tecnológico”, sem intervenção humana. 

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