Cinegnose

por Wilson Ferreira

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16 de dezembro de 2011, 10h29

Segundo Aniversário do Blog “Cinema Secreto: Cinegnose” – um resumo

Esse mês o blog “Cinema Secreto: Cinegnose” comemora o segundo aniversário. Desde o início seu desafio foi divulgar de forma concisa, didática e compreensível discussões do grupo de pesquisas CNPQ “Religião e Sagrado no Cinema e Audiovisual” e dar continuidade ao projeto de mestrado “Cinegnose” da Universidade Anhembi Morumbi (UAM-São Paulo). Encerramos esse ano atingindo um objetivo: trazer as discussões do Gnosticismo para o cotidiano: o fílmico, o político, o econômico e o cultural.


No dia 8 de dezembro de 2009 era publicado o primeiro post do blog “Cinema Secreto: Cinegnose”: “O Filme Gnóstico: uma Introdução”. O Blog é uma continuidade do projeto de mestrado desenvolvido na Universidade Anhembi Morumbi entre 2007 e 2009 “Cinegnose: a recorrência de elementos gnósticos na recente produção cinematográfica norte-americana (1995 a 2005)” sob a orientação do Prof. Dr. Luiz Antônio Vadico e do Grupo de Pesquisa CNPQ “Religião e Sagrado no Cinema e Audiovisual”.


A principal preocupação editorial do Blog nesse segundo ano foi a de trazer para a prática as reflexões da filosofia gnóstica. Depois do primeiro ano onde a preocupação inicial era amadurecer os principais pontos filosóficos, teológicos e cosmológicos do Gnosticismo, além de dar aos leitores a sua dimensão histórica (origem, evolução e, principalmente, o atual “revival” na indústria do entretenimento), nesse segundo ano procuramos dar uma linha menos “doutrinária”.

Percebíamos na oportunidade que o termo “gnosticismo” estava carregado de uma percepção religiosa, sectária ou doutrinária. A filosofia gnóstica pode ser tudo, menos isso: pelo contrário, ao sustentar posições heréticas e anti-religiosas por oferecer uma compreensão “invertida” e teologicamente “negativa”, o Gnosticismo se situa historicamente numa posição underground de rebelião.

Nesse segundo ano, portanto, o blog procurou seguir duas linhas editoriais: primeiro, uma massiva análise fílmica indo para além dos clássicos filmes gnósticos na área sci fi, fantástico etc. Procuramos demonstrar que as narrativas míticas e arquétipos gnósticos estão presentes em diversos gêneros, desde dramas ou animações hollywoodianos (“O Paraíso é logo Ali” ou “Kung Fu Panda”, filmes “trashs” e indepentes (“Ultrachrist” e “Rubber, o Pneu Assassino”) e produções audiovisuais (Mister Maker: o sabor gnóstico para crianças).

“Mister Maker”: arquétipos
gnósticos na produção
audiovisual

E segundo, acompanhar a cobertura midiática de fatos noticiosos de impacto sob o ponto de vista do gnosticismo (“A Barriga Jornalística do Cão Caramelo”, “Retrofascismo e a Bomba Tecnológica”, “Os Ciclistas Atropelados de Posto Alegre e a Bomba Tecnológica” etc.).


Em outras palavras, procuramos neste ano fazer tanto análises fílmicas como análises pontuais de fatos políticos ou econômicos de forma que os fundamentos mais doutrinários do gnosticismo se tonassem “invisíveis”. Procuramos seguir o modelo de crítica principalmente de Theodor Adorno e do francês Jean Baudrillard, cujas matrizes de pensamento sempre foram, secretamente, gnósticas. Só foram revelar isso no final das suas vidas (Adorno em seu último livro “Dialética Negativa” e Baudrillard em entrevistas nos seus últimos anos).

O Tempo e o Mal

Dois temas foram os mais abordados nesse ano no Blog: primeiro, as variações da percepção do tempo na pós-modernidade: a ausência do tempo ou o tempo como uma falha cósmica para o Gnosticismo (O Futuro como Profecia Auto-realizadora no filme “O Pagamento”), a necessidade da politização do tempo ou a denúncia da manipulação ideológica do tempo (“Mais um Ciclista Atropelado em São Paulo: Por uma politização do tempo”) e a trilogia do tempo onde analisamos e comparamos três visões cinematográficas sobre a percepção temporal (Filmes “O Feitiço do Tempo”, “Déjà Vu” e “Contra o Tempo”).

E a discussão sobre o Mal como um princípio ontológico, um dos mais importantes conceitos do Gnosticismo que o faz se distinguir dos sistemas religiosos: o Mal não como um princípio oposto da virtude (vício, pecado etc.), mas o Mal ontológico, isto é, como um princípio inscrito na Criação, tornando o cosmos físico corrompido e decadente.  Analisamos desde a forma como a mídia tenta encobrir essa natureza gnóstica do Mal na realidade (A “barriga” jornalística do cão Caramelo: uma lição sobre a racionalização do Mal na mídia e Mídia tenta racionalizar a presença do Mal no massacre em Realengo) até as formas cinematográficas conservadoras e críticas sobre o tema (O Inumano no filme “Centopéia Humana” e “A Transparência do Mal em “Saló ou os 120 Dias de Sodoma de Pasolini).

A Natureza Metafísica da Economia

Outro projeto, a ser aprofundado no ano que vem, é a discussão sobre a natureza “imaginária” ou “desmaterializada” da Economia. Essa discussão começa com a crítica ao documentário “Trabalho Interno” e se aprofundou no texto “O Fetichismo da Liquidez”. Vista como uma área “exata” ou, pelo menos, uma área científica com um concreto objeto de estudo (modelos sobre produção, distribuição e consumo que tem na Administração a sua aplicação), iniciamos uma discussão onde os fundamentos econômicos são “metafísicos”: fetichismo, ritual, fé. A financeirização das economias e a atual crise dos mercados internacionais tornariam mais evidente essa natureza “abstrata” do sistema econômico (mercadoria, dinheiro, valor, riqueza etc.).


As Origens do Blog “Cinema Secreto: Cinegnose”

O blog “Cinema Secreto: Cinegnose” foi um desdobramento da pesquisa de mestrado “Cinegnose: a recorrência de elementos gnósticos na recente produção cinematográfica norte-americana (1995 a 2005)”. O ponto de partida do projeto no mestrado estava em uma reflexão sobre o imaginário e ontologia das novas tecnologias de comunicação e informação empreendida por Martins (MARTINS, Hermínio. Hegel, Texas e Outros Ensaios de Teoria Social. Lisboa: Edições Século XXI, 1996), Davis (DAVIS, Erik. Techgnosis: myth, Magic and mysticism in the age of information. London: Serpents Tail, 2004), Ferkiss (FERKISS, Victor. Technology and Culture: gnosticism, naturalism and incarnational integration, Cross-currents, XXX, 1980) e Felinto (FELINTO, Erick. A Religião das Máquinas: ensaios sobre o imaginário da cibercultura. Porto Alegre: Editora Sulina, 2005) em torno do conceito de “gnosticismo tecnológico” ou “tecnognosticismo”. 

Conceito paradoxal, pois apontava para uma confluência entre o mítico e o místico com a racionalidade tecno-científica ocidental por trás das novas tecnologias computacionais. 

Na oportunidade o que entendíamos por “tecnognosticismo” seria um conjunto de tecnologias onde, devido a determinadas circunstâncias sociais e culturais do século XX, o Gnosticismo se tornou o imaginário ou o “drive” que redirecionou a história da tecnologia fazendo-a ingressar na etapa atual das próteses, simulações e virtualização da subjetividade. Os limites físicos e existenciais do corpo (finitude, limitação etc.) seriam transcendidos ao fundir o eu com o “divino reino da informação”. 

Dessa forma nossas pesquisas se direcionaram para a história do Gnosticismo (conjunto de seitas combinando ideias cristãs, neoplatonismo e religiões de mistérios pagãos surgido no início da Era Cristã) e os seus seguidos renascimentos na Literatura, Filosofia, até chegar ao campo científico: a princípio entre físicos, cosmólogos e biólogos para, em seguida, alastrar-se por outras áreas, principalmente através da Cibernética e Teoria da Informação. Por exemplo, Roszak (From Satori to Silicon Valley: San Francisco and the American Counterculture, Lagunitas: Lexikos Publishing, 1986) rastreia este mesmo movimento na formação do Vale do Silício na Califórnia e entre as comunidades de tecnófilos que participaram da revolução do computador pessoal e da Internet. Todos eles, com forte influência dos movimentos contra-culturais da Costa Oeste dos EUA, fortemente influenciados por utopias gnósticas que, mais tarde, tornaram-se Ciberutopias. 

Como um projeto dentro do programa de Mestrado em Comunicação Contemporânea dentro da linha de Análise de Produtos Visuais da Universidade Anhembi Morumbi (UAM), a pesquisa voltou-se, então, para as representações cinematográficas destas novas tecnologias tecnognósticas: se o filme pode ser considerado um repositório do imaginário social contemporâneo e se sabemos que este imaginário atual é fortemente marcado por um desenvolvimento tecnológico impulsionado por tecno-utopias de natureza gnóstica, certamente o cinema apresentará recorrências temáticas e simbólicas desse imaginário tecnológico. 

Com uma bibliografia inexistente no Brasil sobre esse tema, nos voltamos para a bibliografia norte-americana principalmente com Wilson (WILSON, Eric. Secret Cinema: Gnostic vision on film. Nova York: Continuum, 2006) e diversos artigos em sites da Internet como de Emick (EMICK, Jennifer, “Hollywood Goes Gnostic?” In: http://altreligion.about.com/library/weekly/aa072302a.htm) e Klock (KLOCK, Geoff. “X-Men, Emerson, Gnosticism” In: http://reconstruction.eserver.org/043/Klock/Klock.html). 

Gnosticismo: mitos ou arquétipos?

Pois bem, a princípio tinhamos um posicionamento de crítica desconfiança ao Gnosticismo e viamos esse ressurgimento no século XX dentro de uma perspectiva conspiratória. Para nossa surpresa, ao aprofundar na filosofia Gnóstica, descobrimos que muitos pesquisadores dentro da Filosofia e Teoria da Comunicação partiam de paradigmas gnósticos como Theodor Adorno e Jean Baudrillard. Ou seja, grande parte da chamada Teoria Crítica partia de princípios filosóficos do Gnosticismo, muitas vezes admitidos por eles próprios em entrevistas ou trechos mal compreendidos pelos leitores das suas obras.

De relatos mitológicos ou grandes analogias místicas, passamos a ver o Gnosticismo muito mais do que uma metáfora: a filosofia gnóstica lida com grandes arquétipos da humanidade. Sabemos que por trás dos relatos mitológicos ou imaginários dos arquétipos, há um núcleo de verdade. Se a pesquisadora Elaine Pagels (livro “Os Evangelhos Gnósticos”) estiver correta todo o ódio que o Gnosticismo nutre contra o cosmos físico como o resultado não da gênese divina, mas da obra corrompida de um Demiurgo que se passa por Deus, corresponde ao confronto histórico das seitas gnósticas contra a dominação sangrenta da Igreja. Se em nome de Deus a Igreja mata, destrói ou tolera países bélicos (como no caso do Nazismo e, atualmente, o imperialismo da globalização financeira), então parece confirmar a Cosmologia gnóstica de que vivemos em um universo onde o Mal já está inscrito desde a Criação, não trazido por uma serpente ou demônio, mas trazido pelo próprio Demiurgo ao elaborar um cosmos corrompido. 

Portanto, vemos no “revival” do Gnosticismo na produção cinematográfica, uma exploração comercial desse mal estar coletivo que sempre esteve presente nesse mundo, mas que, atualmente, se potencializa. A questão é: até que ponto esses conteúdos arquetípicos gnósticos presente em filmes com embalagem comercial podem criar espaço para reflexão e conscientização do público?

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