Cinegnose

por Wilson Ferreira

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03 de outubro de 2019, 23h57

Seminário internacional “Democracia em Colapso?” ignora Ciência da Comunicação

É impossível, na atualidade, discutir a dinâmica de conjunturas políticas sem ter as mídias como uma espécie de horizonte de eventos que circunscreve e dá sentido aos movimentos políticos

Fotos: Reprodução

Ativistas, sociólogos, filósofos, cientistas políticos e psicanalistas participam do Seminário Internacional “Democracia em Colapso?”, que ocorrerá em outubro no Sesc Pinheiros, em São Paulo. Discutirá as perspectivas históricas e políticas da democracia atual. A oportunidade do seminário é obviamente o cenário atual da ascensão da chamada “direita alternativa” – Brexit, Trump, Bolsonaro etc. Mas há um sintoma nesse evento: a ausência de pesquisadores da área da Ciência da Comunicação. Se a questão da Comunicação está no centro das crises das democracias atuais (a forma como, através da manipulação das novas mídias, plataformas e dispositivos de convergência de maneira relacional e fática, pegou de surpresa todo o espectro político), causa espanto a ausência da pesquisa em Comunicação no evento. Certamente a Comunicação entrará nos debates. Porém, será sempre uma “sociologia da comunicação”, “filosofia da comunicação” ou uma “psicanálise da comunicação”. A Comunicação analisada “a posteriori”, sem entender o fenômeno como evento autônomo e silencioso. Que passa à margem da representação. É o sintoma de que a esquerda ainda não entendeu a centralidade dos fenômenos comunicacionais na atualidade. 

Permita-me leitor, mais uma vez, narrar um fato histórico que para esse humilde blogueiro é o marco inicial (quase a “cena primitiva” da qual falava Freud) da relação problemática da esquerda com a Comunicação.

Certa vez em 1933, no Palácio dos Esportes em Berlim, um pouco antes da vitória de Hitler, dois propagandistas, um comunista e outro nazista, discursaram. O aparentemente gentil nazista insistiu que o comunista tomasse primeiro a palavra. O que o comunista sentiu como uma distinção, e começou a falar: aí veio um discurso recheado com as partes mais complicadas de O Capital sobre “contradição principal”, “taxa de lucro média” e cada vez mais cifras. O público nada entendia e assistia entediado. No final, aplausos entre regular e fraco.

Então, aparece o nazista. E foi fulminante: “Quando vocês trabalham no escritório o que os srs. e sras. fazem o dia inteiro? Escrevem números, somam, subtraem! E o que os srs. ouviram do sr. orador que me antecedeu? Números e mais números. De tal forma que a frase do nosso Führer encontrou uma confirmação inesperada: comunismo e capitalismo são os dois lados de uma mesma moeda”. Então, fez uma pausa bem estudada e emendou: “Eu, porém, falo a você de uma incumbência mais alta…!”.

Oitenta anos depois ainda há atualidade nessa armadilha no qual o ingênuo propagandista comunista caiu – o ardil nazista permanece: a forma como a práxis da extrema direita está não só atenta à comunicação, mas, principalmente, à sua evolução tecnológica. Lá no passado, o rádio e o cinema. Depois, a teledifusão. E, hoje, redes sociais, big data, criação de climas de opinião e espiral do silêncio.

Enquanto isso, mal e mal a esquerda começa a compreender qual foi a dinâmica, através da qual o rádio e o cinema conquistaram corações e mentes há quase cem anos.

Ciência política, Sociologia, Filosofia (e algumas vezes a “heresia” do marxismo não ortodoxo da linha freudomarxista – que a extrema direita chama de “marxismo cultural”) são os campos para onde a esquerda preferencialmente recorre para buscar suas ferramentas de análise de cenários e conjunturas. E orientar sua práxis política.

Cadê a Ciência da Comunicação?

Por isso é sintomático que o “Seminário Internacional Democracia em Colapso?” (composto por curso e ciclo de debates sobre “possibilidades e limites do conceito de democracia na atualidade”), e que acontecerá no Sesc Pinheiros/SP, em outubro (clique aqui), tenha como grandes estrelas convidadas ativistas, sociólogos, filósofos, cientistas políticos e psicanalistas: Angela Davis, Silvia Federeci, Michael Löwy, Patrícia Hill, Marilena Chauí, Maria Rita Kehl, entre outros autores e pesquisadores.

O sintomático é que não há nenhum pesquisador da área da Ciência da Comunicação.

Está claro que a oportunidade de um ciclo de debates que venha discutir o possível colapso do conceito de democracia venha da atual escalada da chamada “direita-alternativa” (“alt-right”) e a onda neoconservadora que varre as democracias ocidentais.

Por isso, de início, o seminário parece se ressentir de um problema epistemológico e metodológico: para além dos vetores sócio-econômico-psíquicos, que configuraram o cenário que o seminário discutirá (o possível colapso do conceito de democracia), é inegável que o fator que catalisou  ou que deu uma tradução política a esse cenário foi a Comunicação – seja no aspecto retórico ou discursivo ou na nova função assumida pela propaganda nas mídia de massas num cenário das mídias de convergência e dispositivos móveis.

Da guerra híbrida da geopolítica norte-americana nesse século, que acendeu o rastilho das primaveras e revoluções coloridas em todo o planeta (e que ainda não terminaram), aos algoritmos da Cambridge Analytica, passando pelo gênio computacional de Robert Mecer e também pela psicometria e mineração de Big Data de Michal Kosinski (Universidade de Cambridge), além da coordenação do estrategista Steve Bannon (ex-produtor de Hollywood) e Dominic Cummings (coordenador da campanha do “Vote Leave” no Reino Unido), estiveram onipresentes as novas estratégias de comunicação da “direita alternativa”.

Com essas ferramentas, conseguiram explorar as fraquezas e os flancos das atuais sociedades democráticas.

Por isso, causa espanto para este humilde blogueiro um seminário dessa natureza, que parece passar longe da questão da comunicação na política. Apesar de todas as pesquisas e bibliografia recentes (sem falar na filmografia, como Brexit: The Uncivil War ou a série Black Mirror), que alertam para as transformações estruturais da Política e da esfera de opinião pública provocadas pelas transformações tecnológicas e midiáticas.

Comunicação a posteriori

É impossível, na atualidade, discutir a dinâmica de conjunturas políticas sem ter as mídias como uma espécie de horizonte de eventos que circunscreve e dá sentido aos movimentos políticos. Porém, como apontado, há uma questão metodológica ou epistemológica que, certamente, limitará um evento que não conta com sequer um único pesquisador na área da Comunicação.

Eventualmente, os debates dos sociólogos, filósofos e cientistas políticos convidados abordarão o tema da Comunicação. Certamente serão tratados os episódios recentes e mais conhecidos que ameaçam a lisura de qualquer processo democrático, como a viralização das fake news, o monopólio midiático, manipulação das notícias, deep fakes, o fenômeno das bolhas virtuais, polarização etc.

Mas, o que é epistemologicamente decisivo, serão sempre análises a posteriori. Farão sociologia da comunicação, psicologia ou psicanálise da comunicação, filosofia ou análises políticas da comunicação. Mas nunca Ciência da Comunicação.

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*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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