Cinegnose

por Wilson Ferreira

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06 de junho de 2010, 14h13

Série Lost, Última Temporada: Trapaça do Roteiro ou Mitologias Gnósticas?

Lost termina com seus fãs divididos: de um lado, aqueles que se sentiram traídos pelos roteiristas da série e, do outro, aqueles que não se incomodoram com enigmas não explicados pela série. Mas o interessante de Lost não está na ansiedade pelas soluções cartesianas que o roteiro poderia resolver ao final, mas nos grandes simbolismos ou mitologias que surgem justamente nessas lacunas da narrativa.

De todas as discussões em fóruns na Internet e em grupos de fãs da série televisiva norte-americana Lost, as opiniões se dividiram basicamente em duas tendências: a primeira que viu a série como uma grande trapaça dos roteiristas: ursos polares que aparecem em selvas tropicais, hieróglifos egípcios que aparecem em ruínas de uma civilização antiga na ilha, os “Outros” que falavam em latim, bases polares onde se fala em português etc, todos e outros numerosos enigmas ficaram soltos e sem explicação na trama. A solução final, aliás esperada, de que todos já estavam mortos (suspeita ampliada com os flashfowards da sexta temporada), pareceu um “Deus Ex-Machina” (termo para designar soluções arbitrárias, sem nexo ou plausibilidade na narrativa, para solucionar becos sem saída encontrados em roteiros mal conduzidos).

A segunda tendência defende que os mistérios devem permanecer, faziam parte do charme ou dos pressupostos da série Lost. Os mistérios deixados sem explicação só fizeram acentuar que o enigma da ilha é muito antigo, tão antigo quanto a própria espécie humana, portanto, impossível de serem explicados em seis temporadas em uma série televisiva. Na verdade, o desenlace final (ou a pergunta final de Jack: “Estamos indo para onde?) seria apenas a ponta do iceberg, o aspecto visível de uma trama cósmica que vai além da compreensão humana. Em síntese, o Mistério por trás daquela enigmática igreja onde os protagonistas da série se reúnem ao final, aparentemente católica, mas, pelos vitrais (com simbolismos de todas as principais correntes místico-religiosas – cristianismo, islamismo, judaísmo, taoísmo, budismo etc.), uma igreja especial, de caráter ecumênico (veja foto abaixo).


Vamos esquecer, portanto, todos os pequenos mistérios e enigmas lançados ao longo das temporadas da série (aliás, é disso que vive o roteirista). Vamos deixar de lado nossa tendência cartesiana de querer que um roteiro esgote todas as explicações e feche-se em si mesmo. Vamos nos concentrar nos grandes arquétipos ou simbolismos trabalhos pela série: personagens presos em uma ilha querendo escapar, cada um deles com um passado do qual queriam também escapar, esquecer. Todos sincronicamente reunidos num vôo que não terminará. Um acidente aéreo os fará cair numa ilha perdida em algum lugar no tempo e no espaço. Todos (a ilha e suas vidas) em estado de SUSPENSÃO.

Estamos lidando com um arquétipo gnóstico do VIAJANTE, estado alterado de consciência que possibilitará a gnose (iluminação) por meio do estado da suspensão (anulação do pensamento racional, algo próximo ao mantra ou meditação). Jacob, Desmond, Locke e, no final, Jack, foram crentes: renunciaram suas racionalidades para se dedicarem a mantras repetitivos para “salvar o mundo” (apertar botões, defender cavernas com luzes etc.).

No episódio 16 (em minha opinião o mais importante de toda a série pois sintetiza a gênese e a comogonia da Ilha), temos o forte simbolismo gnóstico da Luz e do cosmos que aprisiona a todos. Filhos de uma mãe assassinada pelo Demiurgo (uma mulher que guarda o segredo da Luz que mantém a existência da Ilha) estão presos na Ilha. Sua madrasta tenta mantê-los a todo custo na ilha dizendo que nada existe fora dela. Tal qual na mitologia gnóstica, o cosmos que nos aprisiona é um constructu constituído por formas vazia postas em movimento pelas partículas de Luz presentes em cada ser humano. Quando a madrasta apresenta o mistério da Ilha (a Luz confinada numa caverna que mantém a existência da Ilha) diz: “esta Luz também está no interior de cada um de nós”. Tudo que o irmão de Jacob quer é “voltar para casa”. Ele descobre que aquela ilha não é o seu lugar (assim como os humanos no cosmos físico) e se une a um grupo de “cientistas” (“homens que se preocupam em saber o funcionamento das coisas”) que querem roubar aquela Luz (abrir a “rolha” que confina a todos na ilha).

Aqui começa uma nova simbologia arquetípica explorada pela série: o gnosticismo alquímico versus gnosticsimo cabalístico. Como já discutimos em postagem anterior (ver abaixo links sobre postagens relacionadas), as narrativas gnósticas simbolizam esta ansiedade humana em transcender a própria carne e superar as limitações físicas e existenciais do espírito. Duas soluções são apresentadas: de um lado o atalho da tecnociência cabalística (a “tecnognose”) representada na série pelo manipulativo Projeto Dharma e a pretensão do irmão e antagonista de Jacob (a “fumaça preta”) de escapar da Ilha a partir do momento que consiga afundá-la (apagando a Luz do “coração da Ilha”). O passado tem que ser simplesmente descartado, esquecido. A carne, a existência física, deve ser simplesmente desprezada e eliminada, sem nada aprender da sua memória (dor, sofrimento etc.).

Do outro lado, a transcendência alquímica: Jack no final restabelece a Luz na Ilha, pouco antes da sua morte. Simultaneamente, no flashfoward, a revelado pelo seu pai a verdade: todos morreram (cada um no seu tempo) e se reuniram inconscientemente naquela espécie de existência paralela (ou um limbo). Cada um viveu o período mais importante da sua vida naquela ilha, todos junto. Portanto, como explicou o pais de Jack, todos estão ali juntos, vivendo naquele limbo, para relembrarem e, depois, esquecerem. Devem compreender o passado (perdoar uns aos outros, por exemplo, como o fez Hugo com Linus) para prosseguir em frente, superando e prosseguindo nas suas jornadas espirituais.

Tal como na Alquimia onde a matéria deve ser redimida e não simplesmente descartada, em Lost todos estão em estado de suspensão à espera do momento da iluminação (gnose) que, como vimos, surgiu em momentos intuitivos como flashs, deja-vus. A iluminação veio da redenção (compreensão do que se passou na Ilha). A simples destruição daquela ilha, como pretendia a “fumaça preta” não, propiciaria essa compreensão.

Em síntese: o penúltimo e último episódios da última temporada pelo menos conseguiram amarrar fragmentos de elementos gnósticos soltos ao longo da narrativa (multifacetamento da realidade, realidade vista como um constructu, suspensão, paranóia, confusão entre realidade e projeção psíquica etc.).

Por isso, o interessante de Lost não está na ansiedade pelas soluções cartesianas que o roteiro poderia resolver ao final, mas nos grandes simbolismos ou mitologias que surgem justamente nessas lacunas da narrativa.

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