Cinegnose

por Wilson Ferreira

#Fórumcast, o podcast da Fórum
24 de outubro de 2019, 00h03

Show midiático criptografado continua: óleo no Nordeste e reality show da crise do PSL

A chamada crise de Bolsonaro com o PSL ocupa a pauta midiática junto com a catástrofe ambiental do derramamento de óleo cru na costa do Nordeste, coincidentemente a poucos dias do megaleilão da cessão onerosa do gigantesco Pré-sal

“A situação é teratológica. Fico com a sensação que é tudo combinado”, tuitou a conhecida “musa do impeachment”, a jurista Janaina Paschoal, deputada estadual pelo PSL. As palavras da indefectível jurista talvez expressem muito mais do que espanto diante da suposta crise do partido. A chamada crise de Bolsonaro com o PSL ocupa a pauta midiática junto com a catástrofe ambiental do derramamento de óleo cru na costa do Nordeste, coincidentemente a poucos dias do megaleilão da cessão onerosa do gigantesco Pré-sal. A “situação teratológica” é a guerra semiótica criptografada, a ópera bufa para entreter o respeitável público – de um lado, uma crise fabricada com mentidos e desmentidos para ocupar a pauta de analistas e colunistas; do outro, colocar a culpa na Venezuela pelas manchas de óleo depois de um silêncio obsequioso da mídia por um mês. Tática diversionista para blindar o megaleilão do Pré-sal e toda a agenda neoliberal com muito thriller político e reality show. Afinal, para quê valeu todo o esforço organizacional da guerra híbrida brasileira cujo ápice foi o impeachment? 

Quem não se lembra da professora e jurista Janaina Paschoal e sua performance ensandecida em um discurso de apoio ao impeachment da presidenta Dilma na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco em São Paulo – descabelada, rodando a bandeira nacional numa performance que lembrava alguma coisa entre o Death Metal e a atriz Linda Blair em O Exorcista. Um discurso que emulava um bispo neopentecostal fora do controle – o que prenunciava a futura e sombria aliança entre religião/milícias/extrema-dreita.

Pois até ela, agora deputada estadual (após a grande mídia tê-la buscado no Brasil Profundo para dar a “massa crítica” necessária para desferir o impeachment em 2016), percebe algo estranho na “crise” entre o presidente Bolsonaro e o seu partido, o PSL. Em sua conta no Twitter, a jurista apontou que “a situação é tão teratológica, que fico com a sensação de que tudo é combinado. Tanta loucura parece impossível”.

A guerra entre Bolsonaro com a própria legenda em tudo lembra uma ópera bufa pelas inda e vindas com muita canastrice e galhofas – sobre a canastrice como fator político clique aqui.

“Eu tô meio bonito…”

Emulando um jogador de futebol em crise com seu clube, Bolsonaro disse sorridente que recebeu “vários convites” de outras legendas, mas não revelou quais: “eu tô meio bonito, sabe disso, né?… então eu tenho vários convites”, fez troça o sorridente presidente.

Simultaneamente, “vaza” o áudio do líder do PSL na Câmara, Delegado Waldir (PSL-GO) xingando o presidente e ameaçando “implodi-lo”. Mais tarde contemporizou dizendo que tudo foi “um momento de sentimentos”, “fala de emoção” e que “isso já passou”, além de soltar uma indefectível pérola misógina: “somos que nem mulher traída, apanha, mas volta para o aconchego…”.

Joice vira “mulher-bomba”…

E tome o longo espaço ocupado pelas análises políticas sobre um suposto “auto-impeachment de Bolsonaro. Ou o início de algum golpe bonapartista para o presidente governar sozinho, sem o Congresso e com apoio das Forças Armadas. De repente, até o Delegado Waldir ganhou destaque na chamada blogosfera progressista – o PFL seria na verdade formado por uma gangue de “homens-bomba” impulsivos, e Bolsonaro um inepto político.

E depois veio a “mulher-bomba”: a notícia de que Joice Hasselman falaria no programa “Roda Viva” da TV Cultura – prometeu contar tudo! Suspense… quando chegou o momento do programa ao vivo, Joice não contou nada que prometeu. Show de papo furado, elogios ao chefe tentando emplacar que Bolsonaro é diferente dos filhos, frases dúbias, recuos calculados e assim por diante.

Ah! Mas ela falou que os filhos do Bolsonaro mantêm páginas falsas na Internet para disseminar fake news. Segredo de polichinelo: ela e a torcida do Flamengo sabem disso. Mais uma bomba do “reality show” – sintomaticamente, assim definem muitos analistas políticos a crise do PSL…

Óleo no Nordeste: mesmo modus operandi

Ao mesmo tempo também ganha espaço nas mídias a catástrofe ambiental do derramamento de petróleo cru que contamina a costa do Nordeste do País, chegando a incluir praias turísticas populares – talvez seja por isso que a notícia ganhou repentinamente espaço, depois de mais de um mês de silêncio do Governo e da imprensa corporativa.

O mesmo modus operandi: Bolsonaro provoca dizendo que o petróleo era da Venezuela. Jogo de cena facilmente desmentido, apesar da grande mídia de maneira acrítica comprar a versão no primeiro instante. Enquanto o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, passa o tempo fazendo provocações políticas, acusando os governadores do nordeste de não estarem fazendo sua parte na amenização dos efeitos do desastre.

Sem conseguir mais sustentar o fator Venezuela, a grande mídia partiu para a estratégia de normalização do desastre: “É bonito de ser ver!”, exclama uma repórter local da Rede Globo ao mostrar mutirões de moradores e turistas limpando uma praia em Alagoas. Ou então as notícias sobre o avanço das manchas de petróleo serem sucedidas nos telejornais pelo bloco da previsão do tempo – velha tática de contaminação metonímica para classificar a tragédia ambiental na ordem dos fenômenos naturais.

O show continua: é a tática de guerra criptografada colocada em ação desde o primeiro dia do atual governo – a estratégia de ocupar a pauta midiática com eventos produzidos por uma verdadeira usina de “crises”. A promoção diária de fofocas, conflitos, boatos, “caneladas”, “fogo amigo”, provocações – principalmente contra a esquerda que, como um cão de Pavlov, diligentemente responde). Para criar a interpretação diversionista de que o governo está naufragando na crise, se esfacelando, à beira do descontrole total cujo líder é um presidente tosco e burro.

Assustando até a musa do impeachment, Janaina Paschoal, que acha tudo “teratológico” ou “loucura impossível”. Militando dentro do PSL, Janaina tem a sensação de ser “tudo combinado” de tão inverossímil que parecem as jogadas típicas de uma guerra criptografada.

Mesmo ela, aquela que acreditava que o Brasil era a “República da Cobra” e um “cativeiro de almas e mentes”, consegue perceber o ardil e artifício desse jogo de cena criado para embaralhar e entreter a patuleia.

Menos para a grande mídia e para própria mídia progressista – levando à sério essas aparências para alimentar seu incorrigível wishiful thinking, a zona de conforto do discurso da “luta e resistência”.

Blindar megaleilão do Pré-sal

Tanto a suposta crise do PSL e o desastre ambiental nas costas do Nordeste “coincidentemente” (ou sincronicamente?) acontecem na proximidade do megaleilão da cessão onerosa dos gigantescos recursos do Pré-sal – até aqui, o ponto mais alto da privataria que assalta a soberania brasileira.

Afinal, para quê valeu todo o esforço organizacional da guerra híbrida brasileira, impeachment, sustentação a todo custo de Temer no Governo e a aposta no “não tem-tu-vai-tu mesmo” Bolsonaro? Esse megaleilão do Pré-sal é a concretização do escopo da geopolítica energética norte-americana.

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