Cinegnose

por Wilson Ferreira

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07 de fevereiro de 2011, 15h31

Sinais do nosso tempo no filme “Enterrado Vivo”: a vítima de uma sociedade terceirizada




Todo produto cinematográfico é histórico na medida em que é produto do seu tempo. Por isso carrega consigo, de forma indireta, inconsciente e subreptícia, as mentalidades ou as sensibilidades de cada época. Em “Enterrado Vivo” (Buried, 2010) o medo ou a fobia de ser enterrado vivo (tão presentes em obras literárias e cinematográficas) transforma-se em uma metáfora da amoralidade pós-moderna em uma sociedade dominada pela terceirização de empresas e serviços.


Assistir ao filme “Enterrado Vivo” (Buried, 2010) fez-me lembrar de outras obras (literárias e cinematográfica) que abordam esse medo que, de tão recorrente na História, transformou-se numa fobia (tafofobia). Cada uma dessas obras ofereceu uma abordagem sobre o medo de ser enterrado vivo em sintonia com a sensibilidade do seu tempo.

O medo e a fobia podem ser os mesmos, mas a sensibilidade em relação a tais muda. O terror metafísico e mórbido de Edarg Allan Poe em “O Enterro Prematuro” (1850), a brilhante adaptação desse conto pelo diretor Roger Corman em 1962 (o terceiro de uma série de filmes baseados na obra de Poe) e o atual “Enterrado Vivo” de Rodrigo Cortês, são três momentos em que esse mórbido tema é abordado, marcando a mentalidade de cada época: o horror metafísico de Poe, o enterro vivo como produto da morbidez da natureza humana em Corman e como o resultado da amoralidade pós-moderna em Rodrigo Cortês.


“Enterrado Vivo” de Cortês consegue fazer uma cativante narrativa de uma hora e meia somente com um personagem dentro de um caixão. Sem flash backs que reconstituam o porquê do protagonista estar ali enterrado vivo, o espectador vai aos pouco montando o fio narrativo a partir de fragmentos das situações e das truncadas tentativas de comunicação ao telefone celular.

O motorista de caminhão Paul Conroy (Ryan Reynolds), prestador de serviços de uma empresa terceirizada do governo norte-americano, foi aprisionado depois que o seu comboio foi interceptado por terroristas no Iraque. Tudo do que se lembra é que seus amigos foram atingidos por tiros e mortos um pouco antes dele desmaiar, acordando depois ali amarrado e amordaçado, enterrado vivo em um caixão em lugar qualquer no fim do mundo. Tudo o que ele dispõe é de um isqueiro e um telefone celular. Com maestria o roteiro cria uma série de situações, diálogos tensos entrecortados, a contagem regressiva do ar que está acabando e da bateria do celular (o único forma de contato com o mundo exterior e esperança de saída) que está rapidamente enfraquecendo.

Após encontrar o celular tenta entrar em contato com sua esposa e seus patrões (a empresa em que trabalhava lhe dera um número de segurança para uma possível situação como aquela), mas tudo o que consegue é deixar recados em secretárias eletrônicas. Desesperado, Paul começa o calvário de uma série de ligações para o FBI e Departamento de Estado onde, em situações “kafiquianas”, tenta provar a veracidade da sua identidade e de tudo o que está ocorrendo.

Quando finalmente o Departamento de Estado toma ciência da situação de Paul e do grupo de caminhoneiros atacado por insurgentes iraquianos, sua ligação é, então, repassada para um departamento especialmente criado em 2004 para resgatar de vítimas de sequestros em situações militares. Os sequestradores exigem cinco milhões de dólares para liberá-lo vivo e querem que ele faça um vídeo com câmera do celular explicando as condições do resgate.

Aos poucos as esperanças de Paul vão desaparecendo e passa a ter certeza de que tudo só dependerá dele: seus empregadores, FBI, Departamento de Estado Americano, tudo não passa de estruturas burocráticas com subdepartamentos terceirizados onde as ligações são repassadas para diferentes pessoas que não se responsabilizam por nada.

Em muitos momentos Paul se vê ao celular em situações parecidas com a de um consumidor esperando soluções de um Call Center ou SAC de alguma empresa qualquer. Com o passar do tempo, de tanto ouvir as vozes monocórdicas, Paul passa a ter a impressão de que todos estão seguindo um protocolo de atendimento, frio e linear. Ninguém dá a mínima para a sua vida: é mais um funcionário de uma empresa terceirizada que presta serviço ao Governo americano, enterrado em algum fim do mundo do Iraque.

No filme “Enterrado Vivo” duas coisas chamam a atenção: primeiro, as consequências de uma guerra terceirizada onde o Estado contrata mercenários e empresas prestadoras de serviços como se o conflito bélico se banalizasse ao ponto de ser encarado como mais um setor dentro das atividades econômicas. Nem o Estado se responsabiliza mais pelos soldados mortos em defesa da pátria e, muito menos, as empresas que lavam as mãos ao menor problema, protegidas que estão por um emaranhado de cláusulas contratuais.

E segundo, a consequência desse quadro: a amoralidade pós-moderna. O filme impressiona pela forma como ninguém se responsabiliza por nada do que está ocorrendo. A começar por Paul, que não entende o interesse de um terrorista iraquiano pela sua vida: “sou apenas um motorista de caminhão. Nada tenho a ver com essa guerra!”, diz Paul aos terroristas pelo celular. Nem os terroristas, que se dizem vítimas de uma guerra injusta e alguém tem que pagar. FBI, Departamento de Estado, todos estão apenas “cumprindo ordens”. Nada fazem a não ser pedir desculpas: “estamos fazendo o melhor”, se desculpam com Paul.

Depois que as guerras deixam de serem negócios de Estado para se tornarem negócios de grandes corporações que privatizam os conflitos, a guerra deixa o campo da imoralidade e obscenidade para se inserir no fenômeno da amoralidade.

Numa guerra com altas tecnologias de comunicação disponíveis (impressiona a tática viral dos terroristas ao utilizar o Youtube como forma de pressão ao publicar o vídeo com as imagens de Paul dentro do caixão comunicando as condições para o resgate) parece que toda a responsabilidade é diluída ao longo da cadeia hierárquica. O conhecido sociólogo Max Weber já havia detectado esse caráter da racionalidade burocrática em delegar funções e diluir responsabilidades.

Após a II Guerra Mundial (a primeira guerra com alta tecnologia e grau de profissionalização), os nazistas falavam no Tribunal de Nuremberg que apenas “cumpriam ordens” em campos de concentrações onde os números do extermínio eram apenas dados de uma contabilização científica.

O enterro vivo de Poe e Corman

Reflexos da sensibilidade de suas épocas, Poe e Corman nos apresentaram abordagens diferentes para o mesmo tema. Em 1850, Edgar Allan Poe relata o temor e a experiência de ser enterrado vivo pelo horror metafísico:

“Ser enterrado vivo é, fora de qualquer dúvida, o mais terrífico daqueles extremos que já couberam por sorte aos simples mortais. Que isso haja acontecido freqüentemente, e bem freqüentemente, mal pode ser negado por aqueles que pensam. Os limites que separam a Vida da Morte são, quando muito, sombrios e vagos. Quem poderá dizer onde uma acaba e a outra começa? (…)Podemos asseverar, sem hesitação, que nenhum acontecimento é tão horrivelmente capaz de inspirar o supremo desespero do corpo e do espírito como ser enterrado vivo. A insuportável opressão dos pulmões, os vapores sufocantes da terra úmida, o contato dos ornamentos fúnebres, o rígido aperto das tábuas do caixão, o negror da noite absoluta, o silêncio como um ar que nos afoga, a invisível, porém sensível, presença do Verme Conquistador (…)” POE, Edgar Allan. “O Sepultamento Prematuro”.

Num século XIX dominado pelo positivismo científico e a glorificação da Razão, Poe confronta as Luzes do racionalismo com o horror metafísico: o momento em que toda a ciência e controle cessam diante do irredutível, do inefável destino, da fronteira cinza entre vida e morte, corpo e espírito.

“Premature Burial” (1962) de Roger Corman:
a adaptação”noir” do horror metafísico de Poe
Ao adaptar em 1962 esse conto ao cinema, Roger Corman vai expressar o espírito de época do pós-guerra: cinismo e desconfiança expressos na estética do filme noir aplicada a um conto de terror. A tafofobia do protagonista interpretado por Ray Millan é alimentada como estratégia de um golpe idealizado pela sua esposa: matar o seu marido para ficar com sua fortuna. Golpe perfeito se o marido não voltasse da profunda noite da morte para a vingança. Se em Poe temos a Razão e a Ciência derrotados pela natureza (catalepsia e morte), em Corman o homem enfrenta uma outra natureza: a humana, capaz de colocar em ação planos tão mórbidos por cobiça.

Como reflexo do seu tempo “Enterrado Vivo” retrata o homem não mais em confronto com a natureza (humana ou natural) ou diante do horror metafísico em face dos umbrais do sobrenatural. Agora o confronto é contra uma “segunda natureza”: a das engenharias administrativas e de comunicações que jogam o protagonista em uma situação “non sense”. Assim como o consumidor vê-se num emaranhado de uma estrutura terceirizada em vão buscando ajuda pelos SACs telefônicos e Internet, Paul Conroy vê-se literalmente soterrado pela indiferença dos protocolos de uma estrutura terceirizada de prestadores de serviços que transformaram a guerra em mais um negócio globalizado.

Ficha Técnica:
  • Título: Enterrado Vido (Buried)
  • Diretor: Rodrigo Cortés
  • Roteiro: Chris Sparling
  • Elenco: Ryan Reynolds, Robert Peterson (voz), José Luiz Garcia Pérez (voz)
  • Produção: Kinology, Instituto de Crédito Oficial (ICO), Versus Entertainment
  • Distribuição: Icon Film e Lionsgate
  • Países: Espanha, EUA e França
  • Ano: 2010


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