Cinegnose

por Wilson Ferreira

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11 de setembro de 2010, 10h11

Sophia Prisioneira das Neurociências na HQ On Line de “O Prisioneiro”

Após os seis episódios, o canal de TV norte-americano AMC dá continuidade ao remake da série “O Prisioneiro”, agora através de uma HQ on line no site da própria emissora. Nessa continuação é explicitado o papel das neurociências na radical terapia psicológica criada pela corporação Summakor e aprofundado ainda mais o simbolismo gnóstico de Sophia (na tradição gnóstica o aspecto feminino de Deus e a fagulha de Luz espiritual presente na alma humana).

O canal de TV norte-americano AMC lançou no final do ano passado uma continuação da série “O Prisioneiro” (remake da cultuada série dos anos 60). A novidade é que a continuação foi através de uma história em quadrinhos on line, apresentada no site da emissora e dividida em 10 capítulos (clique aqui para acompanhar os capítulos da HQ de “O Prisioneiro”).

Nessa continuação vemos uma nova personagem, Rebeca Meadows, que busca pela sua irmã desaparecida e com sérios distúrbios comportamentais agravados por uma crescente esquizofrenia. Ao saber que em Nova York uma empresa chamada Summakor desenvolvia uma inédita e radical técnica de tratamento para distúrbios psicológicos, Rebeca leva sua irmã para lá. Com o tratamento em andamento, ela torna-se cada vez mais distante da família até desaparecer. Rebeca parte, então, para a investigação que a levará para dentro da Vila – espécie de alucinação consensual produzida pela mente de seus habitantes, criada pelos cientistas da Summakor como técnica de tratamento de paciente que sofrem severos distúrbios psicológicos.

Se na série original da TV britânica dos anos 60, o propósito dessa Vila é ambíguo, aqui na adaptação da AMC tudo é explícito. A Vila é uma cidade misteriosa onde as pessoas têm números ao invés de nomes, sob a liderança de um homem conhecido apenas como Dois. Os habitantes levam uma vida idílica norteada por valores positivos e motivacionais, equanto permanecem inconscientes do mundo exterior. Os cientistas da corporação Summakor pensaram que poderiam curar pessoas transpondo seus inconscientes em um ambiente virtual positivo.

Se na adaptação levada ao ar pelo canal AMC fica confusa a relação entre os habitantes da Vila e o mundo real, na HQ tudo é colocado de forma didática no início: a Vila foi criada realmente a partir do inconsciente dos seus habitantes. Todos levam uma vida dupla: enquanto seus “eus” conscientes habitam o mundo real, simultaneamente seus “eus” inconscientes vivem o cotidiano bucólico da Vila. Enquanto as pessoas habitam o mundo real, seus “eus” inconscientes estão sendo “consertados” na Vila através de uma agenda de valores “positivos” levada a cabo pelo líder Dois.

Nas últimas postagens nesse blog temos insistidos nessa mutação do argumento dos filmes gnósticos nesse início de novo século. Se no final do século XX, filmes como Matrix e Show de Truman levam o argumento gnóstico (mundos artificiais criado por um Demiurgo para aprisionar o homem) para ambientes tecnologicamente criados (ciberespaço, estúdios de TV etc.), nesses últimos anos esses mundos são introjetados para o interior da mente humana. O protagonista se descobre aprisionado em seu próprio ambiente onírico, manipulado por um Demiurgo (corporações ou cientistas free-lancers). Isso fica claro na sequência de filmes que se iniciam com Vanilla Sky, passando por “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças” e “A Passagem” e terminando no recente “A Origem”.

Isso corresponde a uma agenda tecnognóstica que subjaz todo o desenvolvimento das neurociências (Programação Neurolinguística, Memética, Psiquiatria, Engenharia do Cérebro, Cibernética) e dos seus subprodutos (literatura de auto-ajuda e auto-conhecimento, Cientologia, Neuromarketing e toda uma gama de técnicas motivacionais). O propósito mais profundo de todas essas disciplinas não é mais apenas comportamental ou subliminar. É ir além: fazer uma cartografia e topografia da mente humana para, através de um mapeamento extensivo, exercer o controle social. É a “engenharia social” sugerida pela corporação Summakor em “O Prisioneiro”.

Tal como na mitologia gnóstica, toda essa engenharia social induz o indivíduo ao “sono do esquecimento”: na Vila o Eu inconsciente desperta sem lembranças, passado ou problemas. Página em branco, pronto para ser reescrito. O inconsciente freudiano cheio de culpas e traumas é substituído por outro: infantil, idílico, puro e imaculado, tal como um disco rígido de computador reformatado. Deletar e Re-iniciar! É o lema das neurociências tecnognósticas desse início de século. Eliminar todo o entulho mental que dificulta a eficácia e retidão que a engenharia social (por meio das mídias, religião, ciência e governo) planifica para esse século.

O simbolismo de Sophia

Tanto na série televisiva quando na HQ on line o que chama a atenção é a explícita utilização do simbolismo gnóstico de Sophia.

Na mitologia gnóstica, Sophia (na tradição gnóstica simboliza simultaneamente o aspecto feminino de Deus e a alma humana) foi um “aeon” que foi a responsável pela transição do imaterial para o material, do numenal ao sensível, causado por uma falha – uma paixão que produziu um filho ( o Demiurgo, Yaldabaoth, o “filho do caos”). Sophia decai no mundo material conseguindo infundir alguma fagulha espiritual no cosmos físico produzido pelo Demiurgo. Inconsciente da existência de Sophia, o Demiurgo acredita ser a única divindade existente e que o mundo físico existe apenas pela sua vontade. Porém, sua criação não passa de formas etérias vazias. O dinamismo, vitalidade e sentido é dado pela luz espiritual infundida por Sophia nesse cosmos.

Sophia consegue ascender de volta ao Pleroma. Porém, observa os homens (inconscientemente portadores dessa fagulha de Luz) e deseja que eles alcancem a gnose, se libertem do mundo físico e alcancem o mundo espiritual.

Em “O Prisioneiro” a existência da alucinação consensual da Vila somente é possível com a “Sonhadora”, chamada de M2, esposa de Dois. Por meio de um coquetel de drogas, ela é induzida ao sonho que cria a estrutura onírica da Vila. O paralelismo com a mitologia gnóstica é evidente: as drogas aprisionam Sophia aos desígnios do Demiurgo/Dois/Summakor.

Na HQ on line o simbolismo de Sophia ganha uma nova dimensão, aproximando o paralelismo com o Gnosticismo: Rebeca Meadow vai à Nova York/Summakor/Vila (o cosmos físico) em busca de sua irmã (a humanidade) que cai sob o sono do esquecimento do mundo físico (A Vila) ao qual todos estão condenados, esquecendo da fagulha espiritual (a memória deletada do inconsciente).

E para reforçar ainda mais o simbolismo gnóstico, a irmã desaparecida de Rebeca sofre de esquizofrenia. Para filósofos gnósticos como Mani (viveu no Irã no século III DC), a paranóia (o outro lado da cisão esquizofrênica) é um estado alterado de consciência que criaria condições para a gnose.

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