Cinegnose

por Wilson Ferreira

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27 de dezembro de 2016, 20h54

Tautismo da Globo ainda não engoliu vitória de Trump

A vitória de Donald Trump pegou de surpresa a mídia internacional. Mas para jornalistas, comentaristas e colunistas da Globo foi devastador. Colocou em xeque o tautismo (autismo + tautologia) da emissora – a maneira pela qual a Globo interpreta a realidade que está além dos seus muros a partir da descrição que ela faz de si mesma. O triunfo de Trump parece que desmentiu o que a emissora entende como o seu destino manifesto: cobrir como a História cria fatos exclusivamente para a Globo transmitir. Mas o que acontece quando a História contraria as apostas da emissora? Tenta encaixar aquilo que é dissonante no seu roteiro, projetando nos outros países as mazelas brasileiras que a própria Globo ajuda a criar. Torce para que o roteiro pré-fabricado pela emissora também dê certo nos outros países. Um roteiro dividido em três atos: o “clima de incertezas”; o “caos”; e a “virada de mesa”. Com direito a um ato adicional: a vidente que disse que Trump “será o fim”.

A TV Globo é tautista. Isso quer dizer, entre outras coisas (metalinguagem, auto-referência etc.), que a Globo interpreta a realidade exterior de acordo com a descrição que a emissora faz de si mesma – sobre o conceito de “tautismo” clique aqui. E como a Globo descreve a si mesma? Com uma espécie de destino manifesto no qual os fatos Históricos acontecem apenas para que a emissora possa transmiti-los.

Era a secreta convicção do falecido proprietário do Grupo Globo, Roberto Marinho. O que lembrava a resposta dada por Napoleão ao seu general que insistia em alertar sobre as circunstâncias desfavoráveis para uma campanha determinada: “Bah! Eu faço as circunstâncias”.

Marinho sempre teve o timing correto para apostar no cavalo certo e criar as próprias circunstâncias mediante a chantagem midiática. Isso acabou contaminando os seus jornalistas, comentaristas e colunistas que sempre (excetuando-se a saia justa do desembarque tardio da ditadura militar e do governo Collor) viveram situações confortáveis de apenas justificar ou racionalizar aquilo que o seu patrão já havia anteriormente decidido e jogado no xadrez da política.

Assim como, com o cast de atores, artistas e jornalistas que a Globo possui, facilita o trabalho da produção de arrumar todo dia convidados para os programas matinais de entretenimento.

Mas o que acontece quando os fatos históricos teimam em contrariar uma aposta feita anteriormente? É nesses momentos que os atos falhos tautistas afloram ao vivo e em cores.

Roberto Marinho sempre apostou no cavalo certo?

Rostos perplexos e lívidos

Como ocorre nesse momento com o episódio da vitória “inesperada” do empresário midiático Donald Trump nas eleições presidenciais dos EUA.

Os rostos “passados” e perplexos dos correspondentes da Globo News nos EUA foram merecedores, no mínimo, de uma curiosidade antropológica – principalmente a lívida Carolina Cimenti (aquela que nas convenções do Partido Democrata mais parecia uma turista na Disneylândia sem conseguir fazer uma consideração mais objetiva sobre o evento), ao saber os resultados das eleições norte-americanas.

As primeiras reações foram acachapantes, entre pânico e preocupação, mostrando o modus operandi de uma emissora acostumada à criação napoleônica das próprias circunstâncias: “mercados pegos de surpresa” (sim! Sempre o mercado, esta entidade senciente com humores imprevisíveis) e “dólar sobe em consequência da vitória de Trump”. 

Após retomarem o fôlego e se recomporem, a Globo pôs em ação um roteiro bem conhecido entre nós aqui no Brasil: primeiro ato: o “clima de incertezas”; segundo ato: caos! As ruas são tomadas por ondas de protestos que começam pacíficos e depois viram quebradeira; terceiro ato: denúncias de interferências externas e especulações em torno de possível virada de mesa através de alguma brecha, sempre “constitucional”.

Previsível reação tautista: embora a realidade externa ao sistema seja mutante, qualquer dissonância será sempre encaixada dentro de um modelo padrão de input, que, afinal, torna o sistema coeso e fechado em si mesmo.

Porém, essa vitória parece ter sido tão acintosa à auto imagem que a Globo criou atos adicionais para criar mais impacto, chegando às raias da paranormalidade e esoterismo, como veremos adiante. 

Fátima Bernardes: “É um pesadelo… o mundo está com dois pés atrás”

Pauta da geopolítica antiterror

O jornalismo internacional da Globo sempre foi fiel às pautas das agências internacionais. Mas, principalmente após os atentados do 11/09, alinhou-se cegamente à geopolítica antiterror imposta pelo governos norte-americanos, reproduzindo acriticamente as versões oficiais e torcendo pela captura e morte dos terroristas islâmicos feios, sujos e malvados. Algo parecido quando Hilary Clinton e Obama assistiram ansiosos, através de um telão numa sala de guerra, as imagens do estouro de um esconderijo de terroristas no Paquistão e a suposta morte de Osama Bin Laden em um quarto escuro e imundo, em 2011.

Por exemplo, poucos dias após os atentados de 2001 nos EUA, a Globo já fazia matérias “investigativas” sobre células terroristas na Tríplice Fronteira – Brasil, Argentina e Paraguai. Supostamente, as mesmas que mais tarde ameaçariam a vida de todos nas Olimpíadas Rio/2016, segundo o ministro da Justiça Alexandre de Moraes. Prontamente repercutido pelo jornalismo Global.

Mas o tautismo faz da Globo mais realista do que o próprio rei, no caso atual da vitória de Donald Trump. Vamos detalhar o roteiro tautista que a emissora quer projetar para o mundo. Afinal, se esse roteiro foi tão bem sucedido na política brasileira, pode se tornar um ótimo filtro para traduzir qualquer realidade que a desafie.

(a) Primeiro ato: clima de incertezas

A política norte americana é previsível, binária. Criou um sistema eleitoral complexo, indireto, sólido e incompreensível para nós brasileiros – e principalmente para o tautismo da Globo. Um sistema de alternância entre Republicanos e Democratas (em média, a cada dois mandatos de um, entra o outro), apesar da existências de outros partidos que concorrem às eleições como o Partido Verde, o Partido Libertário, Partido da Constituição, entre inúmeros.

Como o Cinegnose vem apontando desde o ano passado, o momento atual é de desvalorização dos político e da política e o crescimento de candidatos supostamente apolíticos e midiatizados, com o discurso da gestão e meritocracia. As bravatas de Trump na campanha eleitoral foram marqueteiras e previsíveis, assim como seus muxoxos na TV no reality O Aprendiz

Levaram tão à sério da ideia da construção de um muro entre EUA e México que provavelmente devem esperar até hoje a realização das profecias de Nostradamus. Não sabem brincar…

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