Cinegnose

por Wilson Ferreira

01 de julho de 2019, 06h41

Todos os afetos de um país cronicamente inviável no documentário “Democracia em Vertigem”

As imagens dos bastidores que levaram à derrocada de Dilma e a prisão de Lula são riquíssimas de simbolismos e interpretações

(Reprodução)

“Democracia em Vertigem” (2019, disponível na Netflix), dirigido por Petra Costa, não é um documentário comum. A cronologia dos fatos que levaram o País da ditadura militar aos governos de centro-esquerda de Lula e Dilma é apenas o cenário para outro tema mais profundo: por que a elite de repente se cansou da Democracia e do Estado de Direito e virou o tabuleiro, envenenando corações e mentes com ódio e polarização? A câmera de Petra Costa e sua melancólica narração buscam nas imagens oficiais e de bastidores aquilo que Roland Barthes chamava de “punctum”: detalhes que nos afetam, cortam e ferem. Pequenos detalhes em imagens (gestos, falas, atitudes, olhares etc.) que, em vários momentos do documentário, parecem expressar secretamente o que estava reservado para o futuro do País. “Democracia em Vertigem” lida principalmente com afetos em um país cronicamente inviável – sob a superfície mutante da política estão personagens que sempre estiveram lá, desde que um golpe militar instituiu a República: a elite financeira, midiática e empresarial. A democracia brasileira foi fundada no esquecimento.

O semiólogo Roland Barthes dizia que “o discurso está exausto de tanto produzir sentido”. Por isso, Barthes queria viver o saber com um outro jeito, que ele denominava como “saber com sabor”.

Mesmo que esse sabor seja amargo, como no documentário Democracia em Vertigem (2019), dirigido por Petra Costa, sobre como chegamos à atual crise política brasileira, narrando a ascensão e queda dos governos trabalhistas a partir da eleição de Lula em 2003.

Com estreia mundial no Festival de Cinema de Sundance deste ano e aclamado pelo New York Times como um dos melhores filmes do ano, esse não é um documentário comum. Seguramente, o documentário de Petra Costa está ao nível do histórico Corações e Mentes (Oscar de melhor documentário de 1975), lançado no momento em que os EUA se ressentiam da ferida aberta da Guerra do Vietnã.

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Democracia em Vertigem também é lançado no momento em que a dolorosa ferida da crise brasileira está aberta e exposta para todo o planeta. Porém, vai para além de um documentário político tradicional que busca repostas racionais para explicar processos. O documentário não se limita a fazer uma cronologia dos fatos do breve período de ascensão e queda da democracia brasileira pós-ditadura militar. Estes parecem ser apenas um pano de fundo para outra coisa que Petra Costa busca.

Ela quer expressar o sabor amargo, resultante do impacto do fim da breve experiência democrática brasileira, na sua própria vida familiar. E transformar essa experiência numa pequena amostragem da tragédia nacional.

A diretora não pretende ser uma mera editora de imagens e entrevistas com os personagens de uma tragédia política – Petra que imergir no próprio objeto que pretende filmar. Ser uma observadora participante que, assim como nós, sentiu nas próprias relações familiares e de amizades a polarização psíquica e ideológica que transformou a democracia brasileira num pequeno lapso em um país cronicamente inviável.

(Fotos: Divulgação)

O “punctum” nas imagens históricas

Não sei se a cineasta já leu o livro de Roland Barthes, “A Câmera Clara”, mas o seu documentário parece seguir o método do olhar crítico e semiológico do francês: Democracia em Vertigem evita ser apenas um documentário com imagens montadas para serem preenchidas com moralismo, sentimentalismo ou ideologia – isso seria nada mais do que aquilo que Barthes chamava de studium: imagens para serem sobrecodificadas e que apenas anestesiam o observador.

Pelo contrário, Petra Costa quer atingir o punctum das imagens dos eventos que reporta: aquilo que é pungente, que corta, fere, sensibiliza, alfineta. Em síntese, aquilo que é pungente. Mostrar todos os afetos da tragédia brasileira – no duplo sentido de “afeto”: tanto como “sentimento” como aquilo que nos afeta, atinge, a afecção.

Para tanto, a cineasta não podia ser apenas uma observadora imparcial que tudo apenas relata, monta e edita.

Petra tinha que também cair de cabeça no drama político. Principalmente porque ela e sua família são ao mesmo tempo sujeitos e objetos do que ela pretendia narrar: os pais, militantes de esquerda em uma família conservadora de Minas Gerais – filha de Marília de Andrade, herdeira da Construtora Andrade Gutierrez, cujos financiamentos de campanhas políticas foi o pretexto para a derrubada do PT, que conduziria ao impeachment de 2016 que abriria caminho para a chegada da extrema direita ao Poder.

O Documentário

Democracia em Vertigem abre e encerra a narrativa com o evento emblemático que selou o destino da democracia brasileira: cercado pela militância e populares no Sindicato dos Metalúrgicos em São Bernardo/SP, que não aceitavam a rendição de Lula e estavam dispostos a resistir até o fim, o líder petista se entregou à imolação pública ao vivo, em rede nacional, para ser levado ao cárcere da Polícia Federal em Curitiba. O “punctum” nas imagens históricas.

A questão é: por que tudo acabou ali, daquela maneira, como a fatalidade de algum tipo de destino manifesto brasileiro? Como dois presidentes, Lula que encerrou o mandato com 87% de aprovação e Dilma, que em poucos dias caiu de 57% para 30%, acabaram se tornando alvo de tanto ódio coletivo, fraturando politicamente o País?

Petra Costa começa fazendo uma cronologia de eventos, desde as mortes e torturas na ditadura militar, passando pelas grandes greves do ABC e o surgimento da liderança de Lula até chegar às Diretas Já e a redemocratização. Porém, a cineasta dispara: “a democracia brasileira foi fundada no esquecimento”.

No esquecimento de quê? De duas feridas que jamais foram cicatrizadas pela história política brasileira: a escravidão e os crimes praticados pelos militares – até aqui nunca foram punidos. Num país cuja República foi criada a partir de um golpe militar em 1889, jamais a nação teve forças para fazer um acerto de contas consigo mesma.

Por isso, a narrativa em voz over de Petra Costa tem um tom propositalmente triste, melancólico. E não poupa a si mesma: em vários momentos ela destaca que sua família também faz parte desta mesma elite que perpetua a tragédia. A história brasileira cruza com a história de sua própria família.

Constantemente os relatos históricos se interpenetram com os depoimentos da sua mãe, vídeos e fotos de família. Por exemplo, de como sua família conservadora se preparava para se mudar para os EUA assustada com as reformas de base propostas por João Goulart. Até sofrer o golpe militar em 1964, fazendo a família permanecer no país e lucrar muito, seja com as obras faraônicas daquele período, seja com a construção das arenas da Copa 2014.

Detalhes que anteviam o futuro

Obras públicas e corrupção sempre foram sinônimos em toda a história brasileira, destaca o documentário. Por isso, a fatalidade nacional manifesta tem que ser buscada no críptico diálogo que o documentário narra: certa vez no Palácio dos Bandeirantes um político vê surpreso um empresário. “Você, por aqui?”, disparou. “Eu sempre estive aqui, vocês políticos é que sempre se mudam”, respondeu o empresário.

Os banqueiros (os credores do Estado), as famílias proprietárias da grande mídia (os defensores do Estado) e as construtoras (responsáveis pelo aço e cimento da infraestrutura do Estado) são aqueles que sempre estiveram ali, bancando a democracia e a república. Mas, como destaca Petra Costa, “às vezes eles se cansam da democracia”. E o tabuleiro tem que ser virado para recolocar as peças nos lugares – os políticos.

As imagens dos bastidores que levaram à derrocada de Dilma e a prisão de Lula são riquíssimas de simbolismos e interpretações: vemos José Eduardo Cardozo, o advogado de Dilma no processo de impeachment, como alguém que parecia apenas querer salvar a própria biografia – tanto a sua defesa no Congresso quanto sua rápida entrevista ao lado de Dilma não passam paixão, envolvimento ou mesmo indignação. Sempre parece distante, apático.

Enquanto Dilma tenta manter o olhar altivo diante de verdadeiras hienas sedentas por carniça, no que se transformou o Congresso – a certa altura, vemos em contra luz deputados indo embora após a vitória, no estacionamento do Congresso, gritando, correndo e pulando, como crianças depois de zoar com a campainha do vizinho.

Acompanhamos funcionários do Palácio da Alvorada, nordestinos e negros, limpando o Palácio após o impeachment, com depoimentos em que descrevem o desencanto com a democracia. O mesmo Palácio no qual Temer não conseguiria passar uma semana: sem conseguir dormir, desistiu de morar ali durante o seu curto mandato – os fantasmas da consciência o atormentavam…

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*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

 


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