Cinegnose

por Wilson Ferreira

O que o brasileiro pensa?
07 de julho de 2020, 23h06

Um fantasma ronda a pandemia Covid-19: o Necrocomunismo

Leia no blog Cinegnose: É sintomático que o negacionismo diante da urgência da pandemia ocorra nos países onde o abismo da desigualdade é mais largo e profundo: nas sociedades mais desiguais é onde essa inesperada consciência da igualdade diante da morte mais assusta

Fotos: Reprodução

Um fantasma ronda a pandemia da Covid-19, principalmente em sociedades como a brasileira, marcada pela larga e abissal desigualdade: o fantasma do Necrocomunismo. Um fantasma que precisa ser expiado, por ex., no inacreditável “drive in thru” de um shopping em Botucatu/SP, no sci-fi “túnel de ozônio” de um shopping AA de São Paulo ou no liberou-geral na noite no bairro nobre do Leblon/RJ. É sintomático que o negacionismo diante da urgência da pandemia ocorra nos países com maior desigualdade social. São nessas sociedades que a inesperada consciência da igualdade diante da morte mais assusta. Não é a morte em si que amedronta, mas o fato de que o morrer nos torna iguais. “Lockdown” e quarentena nos colocam numa insuportável condição de igualdade. Mas a morte como pressuposto universal da condição humana deve sofrer uma discriminação: a discriminação social dos mortos ou a “morte classista”.

Have a wonderful day in our one-way world

One way, one day

One-way man

One-way mind

Get along with mankind

(“A Wonderful Day in a One-Way World”, Peter Gabriel)

“Logo tudo passará”, “Depois de tudo isso nos tornaremos pessoas melhores”, “Vai ficar tudo bem”, “Fique tranquilo”, dizem as campanhas motivacionais na TV que se proliferam tão rápidas quanto a Covid-19. 

Mas, por outro lado, há um viés propagandístico mais sombrio, embora se disfarce com pessoas sorridentes e imagens fotogênicas: “reinvente-se”, “vamos nos acostumar com o novo normal” e assim por diante. Descontando-se as pessoas sorridentes com olhares esperançosos, há um evidente subtexto que assim pode ser resumido: “acostuma que dói menos!”. 

Algo assim como nos anos 1990, nos quais a chegada do Windows 95 e a “estrada para o futuro” apontada por Bill Gates era acompanhada pelo alerta: “Adapt or you’re toast!”, para reforçar a necessidade compulsiva das pessoas se adaptarem a qualquer custo às novas realidade tecnológicas e econômicas.

O fato é que esse humilde blogueiro desconfia desse espírito “kumbayá” de que a crise da pandemia e a exigência do isolamento social despertará “o melhor de nós”: criatividade, ajudar a conectar com nós mesmos e coisas assim.

Pelo contrário, o que acompanhamos é a exacerbação diária dos rituais simbólicos de distinção de classes – a necessidade compulsiva de ter que demarcar o seu lugar na sociedade, a sua superioridade social.

Por quê? Porque a urgência sanitária de uma pandemia revela a insuportável realidade da igualdade social diante da morte: a insuportável consciência de que todos, não importa a classes social, riqueza, poder aquisitivo ou político, todos caminhamos inexoravelmente para a morte.

O insuportável comunismo da morte

Claro que não há igualdade antes da morte – no seio da sociedade de classes a morte não é democrática. Somente quando se está morto, quando se opõe cadáveres de diferentes procedências de classes, todos corpos inertes e sem vida, é que se revelam totalmente iguais entre si.

Essa consciência é progressivamente insuportável quanto maior for abismo entre as classes sociais. Ao exigir que todos, não importando a diferença de classes, façam quarentena, usem máscaras, isolem-se socialmente ou se submetam à urgência sanitária de um lockdown, p. ex., mais perigosamente pode aflorar a horrível consciência da igualdade diante da morte.

Flagrantes da luta de classes contra o Necrocomunismo: “drive in thru” e aglomeração nobre no Leblon

Se na normalidade cotidiana fazemos de tudo para marcar a diferença e a mobilidade social usando ferramentas e dispositivos que a sociedade de consumo nos oferece (ostentação das marcas, o desfile pelos paraísos seguros dos shopping centers, o isolamento em carros nos “drive thrus” etc.), imagine numa situação de crise sanitária na qual repentinamente somos colocados dentro de um mesmo barco, e é exigido de todos empatia e a preocupação com o próximo. Porque supostamente a morte espreitaria a todos igualmente.

Senão, como interpretar bizarrices como a liberação no estado de São Paulo de “minilockdowns” (ampliar o horário de funcionamento do comércio e shoppings para serviços “considerados essenciais” – categoria cada vez mais subjetiva, de acordo com o gosto da elite de cada cidade), o “liberou-geral” no bairro nobre do Leblon, Rio de Janeiro, com a inacreditável aglomeração na liberação de bares com jovens de classe média alta sem máscaras.

Ou outra invenção brasileira: o inacreditável “drive in thru” – carros andando dentro dos corredores de um shopping em Botucatu/SP permitindo aos clientes fazer compras ou buscar mercadorias compradas pela Internet. No interior da “segurança” do carro, considerado agora a extensão do isolamento social de cada um.

Não importa se, além da exposição dos funcionários ao risco sanitário do transporte público, irão aspirar o monóxido de carbono das 11h às 20h – claro, “com todas as normas de segurança”, como cinicamente informa o release do shopping para a imprensa… 

É sintomático que o negacionismo diante da urgência da pandemia ocorra nos países onde o abismo da desigualdade é mais largo e profundo: nas sociedades mais desiguais é onde essa inesperada consciência da igualdade diante da morte mais assusta. Não é a morte em si que amedronta, mas o fato de que o morrer nos torna iguais.

Jean Ziegler

O Vivos e a Morte

O sociólogo suíço Jean Ziegler no livro “Los Vivos y La Muerte” (“Les Vivants et La Mort”, Siglo XXI, 1976) descreve essa negação simbólica das sociedades de classes contra o, por assim dizer, “necrocomunismo” – diante da morte somos todos iguais. Mas ela não pode ser repartida equitativamente. A morte como pressuposto universal da condição humana deve sofrer uma discriminação: a discriminação social dos mortos.

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*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum


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