Cinegnose

por Wilson Ferreira

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15 de dezembro de 2009, 09h33

Viajantes, Detetives e Estrangeiros: protagonistas dos Filmes Gnósticos (Parte 1)

Nos fundamentos da mitologia pop encontramos personagens que anseiam pela gnose.

Dois livros essenciais para a discussão das bases da mitologia e dos arquétipos da cultura pop do século XX: Victória Nelson em seu livro “The Secret Life os Puppets” e Nelson Brissac Peixoto em “Cenários em Ruínas”.
Nelson defende que o imaginário popular do século XX (contos, histórias e quadrinhos e filmes góticos) é o resultado da confluência de expressões marginais e religião oculta no subterrâneo da cultura ocidental desde o século XV. Nelson descreve esta história subterrânea a partir da reapropriação das idéias de Platão que acabou influenciando profundamente crenças religiosas e científicas. Nelson exemplifica isso com obras literárias de Coleridge, Kafka e Poe para demonstrar como a alegoria da caverna passa a significar “o meio caminho entre a parte superior do mundo e a grande e mais misteriosa região abaixo”Para ela, das figuras literárias do século XX é interessante e válida a conexão do escritor Philip K. Dick (autodenominado escritor gnóstico de livros de ficção científica, muitos adaptados ao cinema como Blade Runner: O Caçador de Andróides – Blade Runner, 1982 – e Cidade das Sombras – Dark City, 1997) com figuras como Giordano Bruno e as arcanas tradições da Cabala e Alquimia.

Brissac Peixoto faz um verdadeiro inventário da imagerie arquetípica cinematográfica de filmes derivados de antigas novelas policias, filme noir, western e literatura de best-seller. Seu objetivo é o de descrever “os três modos de constituição da subjetividade e do mundo na cultura contemporânea” a partir das estórias míticas dos três tipos de protagonistas: o Detetive, o Viajante e o Estrangeiro.
É interessante que nos dois autores o protagonista da modernidade é encarado como um prisioneiro dentro de um cosmos hostil, um estrangeiro dentro do seu próprio país, o mal estar que perpassa toda a experiência humana como uma estranha sensação de deslocamento, de não fazer parte de uma totalidade, pressentida como corrompida e inautêntica. Victoria Nelson demonstrou como na cultura popular do século XX temos um aumento do fascínio por autômatos e bonecos com o surgimento do conceito marionete-mestre (humana ou divina) inserida dentro de uma cosmologia gnóstica das relações entre homem/autômato e homem/deus. Esse fascínio por autômatos ou marionetes dentro desse gnóstico esquema simbolizaria a maneira pela qual podemos avaliar a própria experiência humana, ou seja, como nos vemos como prisioneiros dentro de um cosmos hostil.
Anseio pela Gnose
As descrições que os dois autores fazem do protagonista da Modernidade mostram-se em grande parte análogas aos personagens iniciáticos que anseiam pela gnose tal qual descrito pelos três maiores pensadores do Gnosticismo Histórico: Basilides Valentim e Mani: como um iniciado pode escapar do ilusório mundo da matéria se toda a sua experiência provém deste mundo material? Se, em toda a sua vida, apenas habitou a aparente solidez das aparências como poderá distinguir algo que não seja mera aparência?
Os pensadores gnósticos ofereceram três soluções para esse enigma: suspensão, paranóia e melancolia. Três estados alterados de consciência que permitiriam ao iniciado alcançar a gnose e furar o véu da ilusão da realidade. Podemos aproximar cada um desses estados aos três tipos de protagonistas básicos dos filmes gnósticos, tal como descritos por Brissac Peixoto: O Viajante, o Detetive e o Estrangeiro.
O Viajante e o Estado de Suspensão
A teoria de Basilides sobre o verdadeiro Deus, tal qual descrita por Hipólito, pode ser resumida na idéia da Grande Negação: se a verdade sobre Deus está além do conhecimento humano, a negação do conhecimento é o sagrado caminho. O homem acolhe os objetos do saber e as palavras como fossem veículos do conhecimento na esperança de que possam revelar a verdade das coisas. Em um mundo de ilusões o conhecimento dele só poderá ser também ilusão. Por isso Basilides recomenda ao iniciado aos mistérios o silêncio. Ou seja, incapaz de discernir a diferença entre aparência e realidade Basilides sugere a suspensão, um estado de silêncio melancólico (os alunos que decidiam seguir a escola de Basilides eram obrigados a observar um silêncio de cinco anos com o propósito de criar condições para o cultivo da gnose sem dissipar suas intenções em conversas).
. A linguagem induz ao erro porque Deus é o Nada, está além daquilo que é possível ser nomeado. As coisas devem ser apreendidas sem a linguagem (arretos). Mais adiante, veremos como esta mitologia gnóstica marcará um conjunto de ícones e símbolos do cinema gnóstico. Chamaremos o personagem fílmico que vive neste estado de suspensão basilidiana como o Viajante.

A Paranóia do Detetive

Ao contrário dessa espécie de suspensão de Basilides, Valentim sugere uma espécie de “passividade ativa”, um agressivo questionamento do status quo a partir da radical suspeita sobre a realidade reinante: a paranóia. Para ele, as qualidades falhas do mundo material (ignorância, erro e mal) conduzem o homem a um erro mental. Como um ser que habita o tempo e o espaço, o homem é incapaz de, através do conhecimento, contemplar o plano atemporal e sem limites de Deus. Tal erro teria iniciado ainda no Pleroma quando as emanações, após surgirem do vazio e lançadas para a existência, passaram a buscar, em vão, as suas origens. Isso acabou criando um erro cósmico. Tal busca acabou sendo mal sucedida, pois estas emanações não se atentaram ao fato de que o Pai é incognoscível. Estava fundada a noção de Conhecimento, a crença de que todo conhecimento pode ter um objeto. Mas o objeto é inacessível ao conhecimento. Conhecimento do fenômeno é ignorância por reduzir a mente à rigidez. Este erro eterno causa o crescimento do desejo e do medo – desejo de querer controlar um objeto que lhe é externo e medo de não conseguir conhecer e controlar esse objeto – criando uma armadilha no interior de um miasma de objetos externos à mente. Porém, a matéria não é constituída por uma substância permanente, mas é um estado mental. Todos os seres nascidos nesse universo re-encenam este erro ao confundir ignorância com conhecimento.
Se o iniciado começa a suspeitar de que os objetos ao redor são ilusórios, como, então, poderá discernir entre a sanidade das suas percepções e a insanidade que o mundo pretende rotulá-lo? Como separar o desejo do medo? Através da paranóia. Diferente da estrita concepção narcísica de paranóia – a idéia de que o sujeito tem de que o mundo está focado em uma perseguição contra si próprio – a concepção valentiniana está no limite entre a sanidade e a loucura, através de uma desconfiança radical em relação ao mundo ao redor que está dado. Vivendo nesta espécie de limbo, corre o risco de cair para um lado ou para o outro: tornar-se irremediavelmente insano ou preparar-se para ocultar-se em uma lúcida loucura habitando um espaço entre a claridade e a instabilidade emocional. Veremos que esse é um tema predileto nos filmes gnósticos. Permeia argumentos, construções de personagens e o próprio ambiente iconográfico talvez da maioria dos filmes analisados. Se, por definição, o gnosticismo nega a realidade material como uma ilusão fabricada por propósitos desconhecidos, a paranóia é o caminho através do qual as personagens buscarão a iluminação. Chamaremos o protagonista que surge nesses filmes como o Detetive.
A Melancolia do Estrangeiro
Finalmente, temos a melancolia como solução da escola gnóstica maniqueísta. Mani sustenta que o cosmos é dividido em dois poderes opostos: Bem e Mal, Luzes e Trevas, Espírito e Matéria. Influenciado pelo dualismo de Zoroastro, Mani cria uma visão de alta intensidade dramática. No início o universo foi dividido entre deidades das Trevas (habitando os círculos materiais) e da Luz. A certa altura o mundo material atacou as regiões espirituais. Para contra-atacar, Deus criou um ser humano primordial (anthropos, uma figura cósmica não ligada a Adão ou a outros seres humanos, a não ser de forma indireta) para descer ao mundo material e combater as forças das Trevas armado com cinco elementos (fogo, vento, água, luz e éter). Mas foi ostensivamente derrotado e aprisionado. O Rei da Luz enviou, então, um espírito para trazer esse anthropos de volta para casa. Porém, apenas a sua forma conseguiu retornar, deixando para trás os cinco elementos que compunham a sua alma. Para libertar essas partículas, Deus criou o cosmos com Adão e seus filhos. A cada momento, a criatura humana, um anthropos decadente, ouve o chamado da luz para que, ao cultivar o espírito, emancipe partes da alma até que todas as almas sejam libertadas e a matéria seja aniquilada. É claro que as forças das Trevas procuram impedir esse intento por meio de uma dramática luta cósmica.
A chave para libertar-se da conspiração das forças do mal é a melancolia. A partir dessa “falha da racionalidade”, o homem recusa os códigos de uma sociedade inautêntica por meio do desdém, depressão e tristeza
Diferente da paranóia valentiniana, onde o homem não conhece plenamente a natureza da atmosfera que conspira e tenta juntar os pedaços de um quebra-cabeça em busca de algum sentido, na melancolia maniqueísta o homem já sabe que foi abandonado no mundo do Mal. A única esperança para escapar do destino é cultivando um desdém em relação a tudo ao redor e fugir das tentações consoladoras do Cristianismo e do Hedonismo.
A suspensão de Basilides parece ser muito próxima da melancolia de Mani. A diferença é que aqui experimentamos uma melancolia agressiva. Enquanto a suspensão melancólica de Basilides induz ao silêncio e a renúncia a qualquer instrumento da linguagem como fonte de erro, a melancolia agressiva de Mani sugere a exposição da ferida aberta do espírito ao negar os consolos do mundo material até alcançar a insanidade febril. Veremos mais adiante que filmes como Show de Truman desenvolvem essa dramática narrativa dualista. À personagem que vai incorporar esta filosofia maniqueísta daremos o nome de o Estrangeiro.
Esses são os três estados alterados de consciência que criam condições para a irrupção da gnose, um conhecimento que brota do coração de forma misteriosa e intuitiva. Dentro do filme gnóstico, estes três estados vão orientar os protagonistas na busca pela Verdade. São verdadeiras transformações íntimas, salvações individuais.
É importante salientar que as provações que os protagonistas vão enfrentar não são decorrentes de pecados, erros ou transgressões. Ou seja, a jornada de sofrimentos e dificuldades não se constitui em castigo. É aqui que temos uma diferença fundamental entre o filme gnóstico dos outros tipos de filme: o protagonista não passa por uma expiação, mas está em busca da salvação através do conhecimento espiritual.
A maioria dos sistemas religiosos reconhece, de alguma forma, que o mundo é imperfeito. A humanidade é o principal vilão. A corrente judaico-cristã, por exemplo, sustenta que a transgressão do primeiro casal humano precipitou a queda não somente da raça humana, mas de toda a criação. Ao contrário, o gnosticismo acredita que se o mundo é falho é porque foi criado de maneira falha. O mundo não caiu, foi imperfeito desde o começo. Foi obra de uma divindade imperfeita, o Demiurgo, uma forma híbrida de consciência emanada de um plano transcendente e harmônico (a Pleroma) a partir do Deus original e perfeito. Ele fez a forma, mas não a vida interior do mundo. Inebriado com o poder e por acreditar ser o único deus do universo, aprisiona o homem e a sabedoria (Sophia) no interior da criação, aprisionando-os.
Portanto, toda a jornada de provas, dificuldades e sofrimentos pela qual o protagonista terá que passar é resultado de um mundo corrompido e falho na sua essência e não por culpa dele.
Caracterizando a gnose como o oposto da episteme (do conhecimento científico), jamais o protagonista vai buscar fora dele um instrumento que o ajude a realizar a reforma íntima (livro, religião, terapia etc.). Como acredita o Gnosticismo, tudo do que necessitamos já está dentro de nós.

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