Cinegnose

por Wilson Ferreira

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17 de fevereiro de 2011, 15h29

WALL-E e EVA: Disney faz Releitura do Gênesis Gnóstico

Em postagem anterior discutíamos o chamado “paradigma Disney” e nos perguntávamos como é possível animações voltadas para o público infantil tratar de temas tristes e até cruéis de uma forma lúdica e divertida. 

A animação “WALL-E” (2008) é um desses exemplos: uma fábula dark, cínica, sobre um planeta Terra devastado e tomado por lixo e escombros pacientemente compactados e empilhados por um robô, enquanto o que restou da humanidade se exilou numa gigantesca nave mais parecida com um shopping center onde o consumismo, ociosidade e conveniência são tão excessivos que acabaram produzindo seres que, de tão obesos, não conseguem mais manter-se em pé.

Nessa animação talvez encontremos a resposta para esse nossa indagação: o filme explora intensamente simbologias e arquétipos da interpretação gnóstica do gênesis bíblico. Afinal, a busca pela pureza, inocência e simplicidade do protagonista WALL-E é a busca pela transcendência, o retorno ao Paraíso perdido, a busca pela inocência infantil, aquela nostalgia que toda criança sente por uma unidade que foi perdida com a entrada forçada no mundo simbólico adulto (a escola, estudos, deveres etc.). E toda essa busca possibilitada pelo auxílio do robô high tech chamado de EVA, nome altamente simbólico para essa narrativa.



Ao fazer a releitura do Gênesis pelo ponto de vista gnóstico, WALL-E emociona tanto crianças quanto adultos ao expressar na narrativa essa aspiração espiritual por inocência e pureza (representada na animação pela sabedoria ecológica). Porém, como veremos, associa essa aspiração com a ideologia tecnognóstica.

A interpretação gnóstica do Paraíso

Antes de prosseguirmos, vamos nos deter um pouco sobre a releitura gnóstica do gênesis bíblico, em particular o drama que se desenrolou no Paraíso. Para o Evangelho Apócrifo de João o Paraíso foi uma construção deliberada por Yaldabaoth (o Demiurgo) e levada a cabo pelos seus regentes (os Arcontes). Criaram um jardim aparentemente cheio de belezas e delícias e colocaram Adão no meio dele como um prisioneiro. Isso foi uma resposta contra o espírito de Sophia que entrara no falso homem criado pelo Demiurgo (uma cópia imperfeita de Anthropos, o arquétipo do homem celestial) e deu a ele a verdadeira humanidade e vida. Colocou-se em pé e passou a caminhar circundado por uma luz não terrestre.

Em represália os arcontes enganaram Adão, colocando-o no Paraíso, seduzido pelos aparentes prazeres do jardim terrestre. Na verdade, os frutos eram amargos e a sua beleza perversão. Também colocaram uma árvore no centro desse jardim, contendo a vida deles, e proibiram de comer o seu fruto: disseram a Adão que a árvore haveria surgido das trevas e seu fruto seria venenoso. Dessa forma, impediram Adão de conhecer a Verdade.

Mais uma vez Sophia veio em socorro do homem. Em colaboração com os poderes mais altos da Plenitude, enviou para Adão um auxiliar, uma mulher conhecida por Eva. Na verdade, essa “mulher” seria uma forma espiritual (em forma de serpente) que penetrou em Adão e se manteve escondida sem que os Arcontes percebessem sua presença.

Dessa forma, instruiu Adão a comer o fruto da árvore proibida.

A continuação dessa narrativa do gênesis é bem diferente do relato canônico bíblico. Descoberta, Eva é “criada a partir da costela de Adão” (na verdade ela foi retirada de dentro de Adão pelos raivosos arcontes quando descobriram que foram enganados) para ser aprisionada e violentada pelos regentes. Desse ato surgem os filhos Caim e Abel. Ao descobrir o que se sucedera, Adão gera um filho com o nome de Seth com inclinação para o espírito, tornando-se, ao longo da história, o símbolo para aqueles que buscam a Gnose.

WALL-E: a interpretação Tecnognóstica do Paraíso

A animação “WALL-E” segue as linhas gerais dessa narrativa descrita pelo Apócrifo de João, somente que com uma diferença: a gnose, simbolizada no filme pela sabedoria ecológica, é promovida pela alta tecnologia computacional. Se não, vejamos.

O planeta Terra e a nave/shopping Center Axiom são dois níveis de abstração de uma mesma realidade: personagens aprisionados em seus Paraísos, numa existência autista e repetitiva, gozando das delícias oferecidas sem pressentirem a Verdade.

Na Terra o robô WALL-E tem uma existência autista, isolado, com uma rotina repetitiva de compactação e empilhamento do lixo e escombros, sempre assistindo ao mesmo filme (“Hello, Dolly” de 1969). Assim ele foi programado e concebe sua existência: selecionar no lixo os objetos mais interessantes, transformando o pequeno depósito onde mora numa espécie de museu do que foi o planeta antes do colapso ecológico. Mas em seu interior ele aspira a algo a mais. Para WALL-E as imagens de casais dando as mãos e dançando no filme lhe sensibilizam. Há algo mais além (amor, sentimentos e Luz) no interior dos algoritmos da sua programação que não consegue se expressar dentro da rotina no qual é prisioneiro.

A chegada do robô EVA faz WALL-E perder a “inocência” da sua rotina programada, o desestabiliza, trazendo à tona aquilo que estava contido dentro de seus mecanismos. Tudo o que ele fazia parece estúpido diante de uma verdade maior finalmente revelada.

Ao contrário de WALL-E (um robô com um design mecânico e ultrapassado) EVA tem um design orgânico, como um Mac, denotando uma condição superior (espiritual).

EVA guarda a planta encontrada na Terra (prova do início da recuperação ecológica do planeta) no interior do seu peito (mais uma simbologia espiritual representada pelo chacra cardíaco, o centro da expressão da Luz, da consciência e do amor do Criador). Tal como a visão de Eva do Apócrifo de João, em “WALL-E” EVA será o instrumento da Sabedoria a se confrontar com o Demiurgo que controla a nave Axiom: o Piloto Automático.

Levando em seu peito a prova de que a Terra estaria se recuperando, EVA automaticamente reverteria os comandos da nave do exílio humano, retornando imediatamente à Terra para o recomeço da civilização. Mas o Demiurgo/Piloto Automático fará de tudo para conspirar contra EVA e manter os humanos prisioneiros em um Paraíso de consumismo e ócio vazio. O Demiurgo/Piloto Automático captura EVA, prende-a num centro de diagnóstico (uma espécie de hospício para robôs) com o objetivo cruel de reprogramá-la e deletar da sua memória a Verdade. Afinal, tal como na interpretação gnóstica do Gênesis, EVA recolheu o fruto proibido da árvore da Vida, e descobriu a natureza corrompida do Paraíso.

As imagens nos créditos finais revelam a ideologia
tecnognóstica oculta em WALL-E
Com a ajuda de WALL-E a conspiração é desmontada e a Axiom retorna à Terra para um novo recomeço. 

Os créditos finais da animação são reveladores por nos dar um guia para desconstruir o significado tecnognóstico oculto nesse filme. São mostradas, como desenhos rupestres vistos por nós num futuro, as etapas do recomeço de uma nova civilização, desta vez harmonizando natureza e a alta tecnologia. Nos desenhos são mostrados os robôs, junto com os humanos, reconstruindo as cidades e reflorestando o planeta. Portanto, em “WALL-E” a iluminação espiritual é expressa pela consciência ecológicacomo uma espécie de retorno à inocência, ao “sal da terra”, aos valores comunais e simples da vida.

Máquinas da Graça Amorosa

Como o pesquisador Theodore Roszak já apontou, esse ideário é a manifestação de uma estranha utopia, uma motivação mística que impulsiona as novas tecnologias computacionais (a ideologia californiana do Vale do Silício): a terra prometida onde teríamos uma estranha mistura da alta tecnologia com a vida rústica, alta tecnologia industrial com “democracia tribal com cidadão vestidos de camurça indo para a colheita” (ROSZAK, Theodor. “From Satori to Sillicon Valley”).

É a tecnognose: uma utopia mística tecnológica onde as tecnologias computacionais são os instrumentos pelos quais alcançaremos a iluminação espiritual e a imortalidade. Máquinas da “Graça Amorosa”, divino canal pelo qual o homem entraria em contato com a espiritualidade. A ironia dessa tecno-utopia vem do seu alto grau de despolitização ou ingenuidade. O hardware para toda essa revolução software (a criação de uma espécie de Woodstock cibernética) seria bancado pelos terminais de vídeo IBM, pelas linhas telefônicas da AT&T, pelos lançamentos espaciais do Pentágono e pelos satélites de comunicações da Westinghouse (um dos maiores fabricantes de armamentos).

A animação “WALL-E” é um emblemático exemplo de como o chamado “Paradigma Disney” vem explorando elementos místicos, esotéricos e, particularmente nesse filme, gnósticos. Elementos arquetípicos que tocam, sensibilizam por expressar aspirações espirituais da espécie, porém presos numa ideologia ou tecno-utopia que justifica toda a indústria das altas tecnologias computacionais.

Ficha Técnica

  • Título: WALL-E
  • Direção: Andrew Stanton
  • Roteiro: Peter Docter e Andrew Stanton
  • Elenco: Bem Burtt, Elissa Knight, Jeff Garlin, Fred Willard
  • Produção: Pixar Animation Studios, Walt Disney Pictures
  • Distribuição: Buena Vista International
  • Ano: 2008
  • País: EUA

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