Clara Averbuck

O que o brasileiro pensa?
08 de março de 2020, 18h22

Guerreira por falta de opção

A militante adoraria seguir o meme e descansar, mas não dá

Foto: Franklin de Freitas/ Bem Paraná

Todo dia da mulher é a mesma coisa.

Melhorou um pouco, não vou mentir. Antes era a pataquada do parabéns pelo seu dia mulher dedicada mãe blablabla faz tudo sem descer do salto, em umas ideias muito nada a ver de feminilidade.

Agora tem aquela outra coisa: parabéns, guerreira! Parabéns, mulher forte!

Poxa, cara. Sim, somos guerreiras. Sim, muitas de nós carregam sozinhas o fardo da casa, da maternidade, do trabalho, do serviço doméstico. Tem outra opção? Se estão em guerra contra nós, temos que ser guerreiras.

Aposto que todas as “guerreiras” gostariam de um dia de descanso. De paz. Sair na rua sem medo de ser violada. Ir trabalhar sem a possibilidade de ser silenciada, diminuída, humilhada. Chegar em casa e não ter que lidar com dupla e tripla jornada. Dois trabalhos. Mil trabalhos.

A militante adoraria seguir o meme e descansar, mas não dá. Não dá porque todo dia acontece algo, se não comigo, com alguém que me procura. Assédio. Estupro. Relacionamento abusivo. Uma menina de 17 anos com um filho pequeno me escreveu perguntando se era errado ela aguentar um namorado de 21 esculachando ela. Ele dizia que ela era feia e ninguém mais ia querer, que ela tinha que aguentar, que ninguém gosta de mulher com estria. 17 anos. Todo dia recebo um relato, um pedido de socorro. Às vezes não sei o que fazer. Encaminho com dor no coração. Não é fácil lidar com as próprias dores e as dores alheias.

Estamos em guerra, sim. Sempre estivemos, mas agora está pior. Porque o chefe máximo do Estado liberou a misoginia. Empurrou deputada, filha mulher é fraquejada, mulher feia não “merece” ser estuprada. O controle da sexualidade é tanto que chegam a sugerir celibato! E isso é direcionado às meninas. Aos homens dizem o que? Ensinam alguma coisa? Mulher é jóia e flor, menos, claro, as em posição subalterna, que não tem jóia e nem flor e nem direitos.

Cansada, cansadíssima da romantização da dificuldade. Guerreira! Isso pra você é vitamina!

Não, não é. A luta cansa. Lutar nos dá forças, sim, mas cansa.


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