Clara Averbuck

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24 de janeiro de 2020, 21h17

Podemos, por favor, voltar ao século 21?

Está complicado discutir abstinência sexual, criacionismo e esse delírio obscurantista. O que nós vamos fazer? Sério: o QUE nós vamos fazer?

Sabíamos que seria difícil, complicado, insalubre, cheio de notícias falsas e delírios, taokei? Além, é claro, dos ataques à imprensa, xingamentos, perseguicinhas, perseguições, possivelmente censura, mas alguém achou que estaríamos discutindo abstinência sexual como forma de evitar a gravidez de adolescentes e alguém defendendo criacionismo nas escolas?

Eu não.

Até hoje não vi e nem li o Conto da Aia, de Margaret Atwood, porque pensei: de bad, basta a realidade. Prefiro ver umas coisas absurdas, umas séries leves ou nem tanto, mas nada que remeta a essa realidade bizarra que estamos vivendo. Podemos, por favor, voltar ao século 21?

Passei a infância vendo De Volta para o Futuro. Em 2018 os carros voavam e os processos não precisavam de advogados. Um dos filmes preferidos dos meus pais, assistido à exaustão, era Blade Runner, que se passava em 2019. Os carros também voavam, os replicantes eram como pessoas e alguns até desenvolviam sentimentos. O mundo era caótico, mas não tinha robô de Twitter e nem liberal burro pra dar chilique.

Estamos em 2020, minha gente, Brasil 2020 é algo que nem nos mais selvagens sonhos eu imaginei. Tendo eu crescido no teatro, com a nudez sendo algo natural, tendo eu pais artistas, tendo eu crescido num Rio Grande do Sul petista raiz com prefeituras maravilhosas, sendo eu uma mulher livre, uma pessoa com ideais progressistas desde pequena, isso tudo me deixa incrédula.

Tenho uma filha de 16 anos que revira os olhos quando vou tentar falar de sexo, porque ela JÁ SABE. Sabe porque nunca foi tabu, assim como jamais nosso lar foi heteronormativo, jamais os papéis de gênero nos limitaram, ou ao menos me esforcei pra isso. Em casa, é claro, pois eu não controlo o mundo. Já entrei feito furacão em escola com discurso democrático mas que permitia que misoginia e machismo e transfobia corressem soltos, já encontrei respaldo político para conversar sobre isso. E agora? Agora querem sugerir abstinência aos adolescentes. No carnaval. Claro que pessoas de 10 anos não tem que transar, mas a sexualidade humana não começa quando começam as espinhas. É um longo processo de amadurecimento que não pode e nem deve ser inibido.

Ontem entrevistei um psicólogo maravilhoso. Era pra pegar aspas apenas, mas ele era tão incrível e estava tão puto com obscurantismo desses nossos tempos, desse nosso governo horroroso, que acabou virando uma entrevista.

Não se fala sobre ética com o corpo do outro, algo fundamental quando se trata da cultura do estupro ou da ideia de que as mulheres com útero são fábricas de bebês, elevadores da humanidade, como cunhou a escritora Rebecca Solnit, por onde sobem homens e descem bebês. Se fala em abstinência! Pra que? Evitar gravidez e… abusos. Ora, pra evitar abuso tem que ensinar a NÃO ABUSAR, o que as vítimas têm a ver com isso? Além de controlar nossa sexualidade e nossos corpos, a responsabilidade acaba, de novo, ficando para os mais vulneráveis. Quando se coloca as coisas dessa forma, quem transou que se foda. “Nós avisamos”, imagino Damares em trajes escuros e um capuz dizendo: mas tudo bem, o bebê não tem culpa! Não aborte, ame!

Que pesadelo fundamentalista.

Eu sei que a piada e o meme são os alívios cômicos que permitem algum respiro, mas, às vezes, acabamos apenas reforçando a ideia que eles querem passar. Sim, eles. Eles lá, eles, que estão dominando a narrativa e ganhando de lavada porque não têm a menor vergonha de mentir e distorcer, de editar a realidade sem vergonha alguma.

Durmo e acordo pensando: o que nós vamos fazer? Como?

Teve propaganda nazista, gente. Regina Duarte, noiva do Brasil, devendo na Ruanê, criacionista no CAPES, analfabeto imbecil no MEC, NENHUM MINC.

Qualquer dia vamos acordar num filme bíblico da Record.

Alguém duvida?


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