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01 de março de 2011, 19h07

As ‘fazendas de conteúdos’ e a polêmica sobre o lixo informativo na internet

Texto publicado em: FNDC

27/02/2011 |
Carlos Castilho
Observatório da Imprensa

A mais recente praga informativa na internet tem um nome curioso: “fazenda de conteúdos”, tradução literal do inglês content farm. O nome foi escolhido porque na verdade trata-se de páginas web com grande quantidade de artigos, geralmente maquiados de outras fontes, que por seu conteúdo popularesco atraem muitos leitores e por conseqüência também a publicidade.

O fenômeno cresceu tanto que o sistema de buscas Google resolveu alterar o seu mecanismo de classificação de páginas indexadas, atendendo às reclamações de milhares de internautas contrariados com a alta incidência de lixo informativo no topo da lista de resultados.

Também chamadas de “jornalismo McDonald´s”, as “fazendas” publicam artigos de jornalistas free lancers sem prestar muita atenção ao conteúdo e sim ao índice de visitação de internautas. Quanto mais visitas, maior o pagamento, que na esmagadora maioria dos casos não passa dos 30 ou 40 dólares por artigo. Um mesmo autor chega a produzir até 20 textos por dia. Os temas são menos importantes que a sua capacidade de atrair leitores.

A mais famosa “fazenda de conteúdos” é o site Demand Media, especializado em artigos curtos tipo “faça você mesmo” ou “como as coisas funcionam”. Outros sites muito visitados são o High Gear Media, especializado em temas automobilísticos e o Bleacher Report, só de esportes. Todos eles com audiências acima de 50 milhões de visitas mensais, cada.

A receita para tanta procura é simples. Todos os textos são formatados de maneira a ocupar os primeiros lugares nas listas de sites produzidas pelo Google, sempre que o usuário faz uma busca na internet.

Os sites, também apelidados de jornalismo fast food, conseguem identificar quais os critérios usados pelo mecanismo de buscas para classificar resultados e com isto produzem textos sob medida, que sempre aparecem no topo das listas de sites relacionados aos temas procurados.

Eles têm também uma lista de colaboradores cadastrados, e sempre que identificam um tema popular encomendam textos para vários autores. O que chegar primeiro é publicado, salvo nos casos em que o free lancer já conseguiu algum status por conta de preferências demonstradas pelo público em textos anteriores.

No início o sistema contou com a cumplicidade do Google porque este era indiretamente beneficiado; mas depois, com o acúmulo do lixo informativo nas listas de resultados, os interessados em buscas na web começaram a ficar cada vez mais irritados com a avalancha do que que foi classificado como “pseudo-jornalismo”. No fim de fevereiro, a empresa Google resolveu mudar o seu sistema de classificação, cedendo à pressão de seus usuários.

O modelo das “fazendas de conteúdos” não é novo. Na verdade ele foi copiado de revistas populares impressas, de programas de rádio e de televisão, geralmente em auditórios. A receita é a mesma: identificar o que o leitor gosta, identificar quem pode atender esta demanda, contratá-lo, buscar patrocinadores e oferecer o serviço para consumo do público.

A novidade da versão online é que o sistema está sendo apontado por alguns pesquisadores da imprensa — como o jornalista e escritor norte-americano James Fallows — como um estudo de caso para a sobrevivência do jornalismo na internet. Fallows, autor do famoso artigo How to Save the News, não defende as “fazendas de conteúdos” como a fórmula ideal, mas acha que no sucesso de sites como o Demand Media, existem elementos que podem ser usados para desenvolver um novo modelo de negócios para a imprensa no meio virtual.

O problema, no entanto, não parece estar tanto na fórmula, mas principalmente na maneira como os profissionais do jornalismo se relacionam com o público virtual. Não se trata mais de descobrir uma fórmula mágica, mas de criar interatividade com o internauta. Uma interatividade que contemple tanto as audiências de massa como os nichos de interesse jornalístico, já que é cada vez mais evidente que não haverá apenas um modelo de negócios para o jornalismo na web.


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