Comunicação Comparada

Reproduzo aqui os comentários de Alberto Dines, sobre a cobertura dos três maiores jornais do País, do Congresso que lançou Dilma Rousseff como candidata à Presidência.  As manchetes unânimes 22/02/2010 | Alberto Dines* Observatório da Imprensa O governo, ao que parece, pretende converter a escolha do sucessor do presidente Lula num plebiscito, por isso aposta […]

Reproduzo aqui os comentários de Alberto Dines, sobre a cobertura dos três maiores jornais do País, do Congresso que lançou Dilma Rousseff como candidata à Presidência. 

As manchetes unânimes

22/02/2010 |
Alberto Dines*
Observatório da Imprensa

O governo, ao que parece, pretende converter a escolha do sucessor do presidente Lula num plebiscito, por isso aposta numa intensa comparação entre os seus dois mandatos com os dois mandatos do antecessor, o presidente FHC.
Todas as eleições são plebiscitárias, sem exceção, e todas costumam ser muito disputadas. Mas por conta de um confronto que ainda não aconteceu, a imprensa antecipou-se e aproveitou o 4º Congresso Nacional do PT para acirrar os ânimos.
Exemplo disso foram as manchetes dos três jornalões (Folha de S.Paulo, Estado de S.Paulo e Globo) no sábado (20/2), a propósito da apresentação das diretrizes do programa de governo da candidata Dilma Rousseff. Idênticas no fraseado e no espírito, as manchetes não parecem ter saído em veículos concorrentes (os grifos são nossos):

** O Estadão declarou: “Petistas decidem radicalizar projeto de governo de Dilma”
** Na Folha: “PT apresenta programa mais radical para Dilma”
** No Globo: “PT aprova programa radical para a campanha de Dilma” 

Revolucionária, subversiva

Em que consiste esta radicalização? Criação do imposto sobre fortunas, combate ao monopólio da comunicação, jornada de trabalho de 40 horas semanais, fim da criminalização das invasões de propriedades rurais e adoção do 3º Programa Nacional de Direitos Humanos.
Ora, a taxação de heranças e fortunas é uma antiga aspiração da social-democracia européia, foi falada ao longo do governo FHC, depois engavetada, porém jamais classificada como radical – no máximo, inoportuna.
O combate aos monopólios de comunicação existe nos Estados Unidos desde os anos 1930, hoje é rotina na União Européia.
A diminuição da jornada semanal de trabalho está sendo prometida pelo deputado federal Michel Temer do PMDB paulista, que não chega a ser um radical de esquerda, ao contrário, está no pólo oposto.
A criminalização ou descriminalização das invasões de propriedades depende do Judiciário.
O Programa Nacional de Direitos Humanos também começou no governo FHC e nada tem de radical: é apenas abrangente como recomendam os organismos internacionais.
Compreende-se o fervor das manchetes, sobretudo no finalzinho do carnaval. Afinal, eleição vende jornal, aumenta a circulação, traz prestígio e poder. Prematuro, provocador, é falar em radicalização antes mesmo que haja sinais dela.
O discurso da candidata no dia seguinte (publicado nas edições de domingo, 21/2) nada tinha de extremado: sua proposta de um Estado “forte”, isto é, regulador e executor, nada tem de revolucionária ou subversiva. Se adotada antes da débâcle financeira global teria salvo o capitalismo do naufrágio. Apenas a Folha e o Estadão agarraram-se ao discurso da pré-candidata; o Globo deixou-o em segundo plano.

*Sobre comentário para o programa radiofônico do OI, 22/2/2010.

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Francisco Machado Filho

Francisco Filho é professor Dr. da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho - UNESP - Campus de Bauru-SP no curso de Jornalismo. Possui graduação em Radio e TV pela FAESA/ES, Mestrado em Mida e Cultura pela UNIMAR/SP e Doutorado em Comunicação Social pela UMESP/SP. Tem experiência na área de Comunicação, com ênfase em Televisão digital, atuando principalmente nos seguintes temas: TV Digital, Mídias Digitais e internet e modelo de negócios para TV aberta.

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