O que é Televisão hoje em dia?

Durante boa parte de sua história a Televisão reinou sozinha na entrega de conteúdo audiovisual para grandes audiências, mesmo se comparado ao cinema. A Televisão mundial demorou apenas 13 anos para atingir a marca de 50 milhões de usuários em 1975. Mas então veio o computador pessoal, que levou 16 anos para atingir a mesma […]

Durante boa parte de sua história a Televisão reinou sozinha na entrega de conteúdo audiovisual para grandes audiências, mesmo se comparado ao cinema. A Televisão mundial demorou apenas 13 anos para atingir a marca de 50 milhões de usuários em 1975.

Mas então veio o computador pessoal, que levou 16 anos para atingir a mesma marca. Já a internet, apenas quatro anos, e o tablete, apenas dois anos. Estas inovações permitiram surgir uma série de serviços de entrega de conteúdo audiovisual além da TV paga. Eis que surgiram serviços como o Netlfix, Google TV, Apple TV, Youtube, Hulu e tantos outros, mais flexíveis e determinados a tomar o lugar da Televisão como líderes na distribuição de conteúdo. Estes players, como são chamados, estão desafiando tanto o modelo de negócios da TV tradicional, bem como a própria definição do que é televisão hoje em dia. Netflix é Televisão?

Não, não é. Partamos da seguinte premissa: televisão é uma indústria que entrega conteúdo para milhões de pessoas simultaneamente. Só ela faz isso até hoje.

Quando a Televisão surgiu em 1930 não havia dispositivos de gravação. Tudo era feito ao vivo e essa indústria se comportava como um olhar além do alcance de cada indivíduo. Por ela vimos o homem chegar à Lua. Por isso o nome Tele(Visão). A partir da inovação do Vídeo-Tape, este conceito acabou e outro surgiu para definir o que é uma emissora de televisão: o conceito da transmissão Broadcasting.

Broadcast é um termo da língua inglesa formado por duas palavras distintas, “broad” (largo, ou em larga escala) e “cast” (enviar, projetar, transmitir). Em outras palavras: é a transmissão de conteúdo audiovisual para milhões de pessoas, que assistem a um mesmo conteúdo simultaneamente, ou seja, ao mesmo tempo. Estes serviços de entrega pela internet não o fazem para uma audiência simultânea. O Netflix é uma locadora de vídeos, o que ele substituiu foi a ida a pé ou de carro a sua locadora de preferência.

O caro leitor pode me interromper e dizer: mas hoje a internet também faz isso, permite a transmissão de conteúdo ao vivo para muitos e também simultaneamente. Sim, permite, mas há um limite para o número de pessoas que podem acessar este conteúdo ao mesmo tempo, depende sempre da infraestrutura da empresa. Com isso a internet não atinge os mesmos números que a TV.

Na entrega do conteúdo pelo ar, não há limites, pode-se ligar quantos aparelhos forem possíveis e a qualidade da entrega será sempre a mesma. Além disso, se a programação televisiva migrasse totalmente para a internet, nossa estrutura de rede deveria ser 14 vezes maior para acomodar a mesma audiência que a televisão tem hoje. E mais, não seria de graça para o espectador como é a televisão aberta.

Esta configuração da indústria televisiva é que determina o seu modelo de negócios, ou seja, a forma como ela ganha dinheiro para se manter e dar lucro. Ela pode ser gratuita exatamente por atingir milhões de pessoas ao mesmo tempo, pois desta forma as emissoras comercializam o intervalo entre a programação para empresas anunciarem seus produtos e serviços. Se a audiência é menor, o valor deste intervalo também é menor. Mas, no Brasil, a audiência da televisão ainda é de massa e supera em muito a destes serviços baseados na transmissão pela internet. Isto explica porque aqui a Televisão recebe 62,9% de toda a verba publicitária.

Contudo, muitos estão acreditando que a Televisão está fadada ao fracasso devido a estas novas possibilidades de entrega de conteúdo audiovisual. Até posso acreditar nessa ideia, mas apenas quando a internet for tão acessível como é a Televisão atualmente. E sabemos que isso irá demorar muito, até mesmo por razões físicas. Há locais remotos e geográficos que não justificam o investimento necessário para se ter acesso à internet. Então é provável que a Televisão ainda perdure por um bom e longo período de tempo em nossas vidas.

Por isso, é importante democratizar este meio tão significativo e representativo para nossa sociedade. Ao mesmo tempo, é de vital importância proteger a sociedade das investidas dos grandes conglomerados de comunicação estrangeiros ou das empresas de telecomunicações, pois para estes, a Televisão privada nada mais é que um negócio, mas ela é muito mais do isso. A televisão é um sistema de representação de nossa sociedade, é por ela que podemos enxergar como lidamos com os sistemas que estruturam nosso regime democrático, para o bem ou para o mal. Prefiro uma Televisão ruim, mas brasileira, a uma boa Televisão, porém estrangeira, como principal veículo de informação em nosso país.

O momento é preocupante, pois sempre as inovações são tidas como “melhoria” do sistema anterior. Além disso, temos uma forte conotação político-ideológica no olhar sobre este sistema de comunicação, o que simplifica e generaliza o problema.

Se quisermos mudar nossa televisão, basta mudar nossa sociedade, pois como diz Arlindo Machado: “a Televisão é e será aquilo que fizermos dela”.

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Francisco Machado Filho

Francisco Filho é professor Dr. da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho - UNESP - Campus de Bauru-SP no curso de Jornalismo. Possui graduação em Radio e TV pela FAESA/ES, Mestrado em Mida e Cultura pela UNIMAR/SP e Doutorado em Comunicação Social pela UMESP/SP. Tem experiência na área de Comunicação, com ênfase em Televisão digital, atuando principalmente nos seguintes temas: TV Digital, Mídias Digitais e internet e modelo de negócios para TV aberta.

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