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01 de setembro de 2010, 00h45

TV aberta X TV paga – Histórico parte 2

No primeiro post (clique aqui para ler), vimos que a história da TV a cabo no Brasil teve um início muito parecido com os outros veículos de comunicação no país. Foi através do pioneirismo e da determinação de homens de visão. Durante a fase inicial, ações isoladas em locais onde a recepção da TV aberta era deficiente, motivaram empresários a entrar em um negócio ainda novo e muito arriscado. Ações até mesmo artesanais, como a da TV Filme em Brasília, onde seus proprietários se revezavam para trocar as fitas de filmes no aparelho de U-matic*.

Porém, esta fase passou e a indústria da TV paga começou a chamar a atenção das grandes empresas de comunicação no país. Mais precisamente da Rede Globo de Comunicações e do Grupo Abril, que juntas protagonizaram a segunda fase da história da TV paga no Brasil e em lados opostos, mas com uma mesma visão: optaram pelo sistema de DTH como forma de distribuição e não o cabo e direcionaram o negócio para a classe A e B. Houve tentativas para implantar a TV paga na classe C, mas o foco sempre foi nas classes mais economicamente ativas.

As primeiras licenças de operação para as DISTV não chamaram a atenção das duas empresas em um primeiro momento. Elas acabaram caindo nas mãos de muitos oportunistas que depois as negociavam com outros empresários. Em 1989, a RBS foi um dos poucos grupos de comunicação que adquiriram ao todo 16 licenças, para onde o grupo possuía empresas de televisão. Porém, levaria algum tempo para que essas licenças se tornassem efetivamente empresas de TV a cabo.

Nos anos seguintes, depois de uma cansativa e cara experiência da TV Globo na utilização da Banda C (antenas parabólicas) na tentativa de vender os recém criados canais do sistema Globosat para condomínios no Rio de Janeiro, a Globo percebeu que o modelo não daria certo. Era caro e dispendioso manter o negócio focado nos condomínios. Em 1992, a Globo decide dividir as atividades de produção, de programação e de distribuição e cria uma nova empresa: a Globocabo. Porém, como havia ficado de fora das primeiras licenças das DISTV sai a procura de empresas para comprar ou associar. Depois de negócios e parcerias com empresas de DISTV (RBS e EPTV foram a primeiras a se associarem) formou-se a InterNet. Que tempos depois viria a se tornar a NET, maior empresa de TV paga no país. Atualmente a participação da Globo na operadora é pequena. Outras empresas como a Multicanal também estavam no jogo correndo por fora.

O sistema de transmissão Banda Ku (antenas de 60 centímetros a um metro), movimentou o mercado de TV paga como nunca antes. Foi época de maior concorrência entre a TV Globo, que se aliou a Rupert Murdoch e a SKY, e o Grupo Abril, sócia da Direct TV (TVA). Durante vários anos as duas marcas competiram no Brasil até que Murdoch comprasse a Diretc TV fundindo as duas marcas. A desvalorização do Real no Governo FHC foi um duro golpe para as duas empresas. Do dia para a noite viram suas dividas em dólares quase triplicarem. O grupo Abril saia do mercado de TV paga para nunca mais voltar.

O mercado veio se estruturando e ficando claramente definido. A Globo e a Sky isoladas na modalidade de DTH e uma série de empresas atuando na modalidade a cabo. Por volta de 1993, uma onde de privatizações era comandada pelo Governo FHC e a privatização da Telebras era uma delas. Naquele tempo as Teles tinham autonomia estratégica em seus estados e algumas delas começaram a incomodar as empresas de TV a cabo quando tentaram entrar neste segmento. A Telemig foi a primeira das Teles a planejar a criação de uma rede de transmissão de dados, voz e vídeo. Isto ia de encontro aos interesses dos empresários e pela primeira vez, colocou a empresa pública em choque com as empresas de TV por assinatura. As Teles de São Paulo e Brasília apontavam nesta mesma direção. A pressão ao Governo foi tanta que o Ministério das Comunicações decidiu que as Teles só poderiam atuar desta forma com quem já possuísse as licenças para operação.

Naquela época, a Telebras já pensava em um plano de banda larga para interligar todo o país a RENAV – Rede Nacional de Alta Velocidade – em 1994, onde pretendia se conectar com as operadoras de TV por assinatura de menor capacidade. Alguns grupos chegaram a firmar contratos com a Telebrasília, um deles liderados por Daniel Dantas, o outro grupo chamado de multiponto, possuía entre seus quadros ex-diretores da Globosat. Mas, a Lei do Cabo de 1995 e posteriormente a privatização da Telebras frustrou a concretização da rede nacional de Banda Larga. Pelo menos naquela época, pois o Governo atual fez renascer o projeto.

Talvez tudo ficasse como antes, caso não surgisse uma nova tecnologia: a Internet. A internet fez com que as empresas de TV a cabo ganhassem uma grande importância comercial, pois sua infra-estrutura poderia ser utilizada para possibilitar acesso de internet de alta velocidade. Nos EUA foi um tempo conturbado de grandes fusões e aquisições que movimentou o mercado de TV paga e internet. E mais, atraiu o interesse das grandes empresas de Telecomunicações que estavam perdendo espaço para a internet na transmissão de voz.

Mas há um entrave legal. A Lei do Cabo de 1995 impede que empresas de telecomunicações entrem no mercado de TV por assinatura e também que sejam sócias ou proprietárias de empresas de TV a cabo. Por isso, a PLC 116 tem causado tantas discussões. Os radiodifusores, muitos ligados a empresas de TV a cabo, são contra a entrada das Telecom no jogo. Posição que ABTA tinha até certo tempo atrás, mas que hoje já vê como aceitável (veja aqui).

Com a entrada das Teles no mercado de TV paga um novo contexto será criado e novamente o mercado irá se movimentar, o que pode fazer o número e assinantes crescer a ponto de incomodar as emissoras de TV aberta. Prova disto foi o discurso de Roberto Irineu Marinho (Globo), um dos precursores da TV paga no Brasil, na abertura do Congresso da ABTA 2010.

Marinho afirmou:

No que toca à distribuição, há regras, absolutamente incongruentes. No cabo, a legislação parece ter buscado certa inspiração na Constituição, e limitou a propriedade estrangeira das empresas distribuidoras em 49%. Quando a distribuição por satélite se tornou viável, a legislação correspondente não impôs restrição alguma. Ou seja, o assinante é potencialmente o mesmo, mas, por cabo, só pode receber o sinal dos canais das mãos de empresas majoritariamente brasileiras e, por satélite, de qualquer empresa, nacional ou estrangeira.
No que toca à programação e à produção – aos canais propriamente ditos – nenhuma das restrições à propriedade estrangeira previstas na Constituição e que atingem as empresas brasileiras de mídia em geral foi levada em conta. Para muitos, esta foi uma omissão grave que levou a TV por assinatura a um quadro concorrencial potencialmente danoso aos interesses nacionais. Outra corrente, porém, afirma que não há desacordo com a Constituição: por ser um sistema fechado, com acesso mediante pagamento, o mercado de programadores e produtores de TV por assinatura não estaria alcançado pelas restrições que a Constituição impõe à radiodifusão, aqui entendida em sentido estrito, como o rádio e a televisão com acesso livre e gratuito.
De um jeito ou de outro, é fato que os produtores e programadores brasileiros que atuam na TV por assinatura concorrem com gigantes internacionais, com um poder de fogo muito superior ao nosso: custo de produção já amortizado pela exibição mundo afora, mínimas estruturas repetidoras no Brasil e um faturamento mundial muitas vezes mais alto.

Paralelamente às mudanças da TV por assinatura vem sendo implantada no Brasil a TV Digital aberta e interativa. O palco está montado, Uma guerra anunciada?

Próximo post: https://revistaforum.com.br/convergenciamidiatica/2010/09/05/tv-aberta-x-tv-paga-conclusao/

Fonte:

* TV por Assinatura: 20 anos de evolução. Samuel Possebon. Editora: Save Produções Editoriais, 2009.


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