quarta-feira, 30 set 2020
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A dor de uma mãe solo negra durante a pandemia, por Eliane Almeida

*Por Eliane Almeida

Cinco horas da manhã. A noite ainda se faz presente apesar de os passarinhos já cantarem na janela do quarto. Olho para o meu lado e lá está a aventura que mais gosto de ter. Minha Victoria, de 6 anos, esparramada no colchão de casal que toma conta do chão do quarto. Levanto pé ante pé para não acordá-la. Se ela abrir os olhos, acaba toda minha possibilidade de iniciar meu trabalho.

No chão da sala, sobre dois colchões de solteiro, dorme Isabella, minha filha mais velha, 25 anos. Ela cedeu seu quarto para nos abrigar nesses tempos de isolamento. Vim me abrigar na casa de minha mãe por medo de me contagiar com o Covid-19 ou talvez por premonição mesmo. Moro com meu irmão mais novo e ele trabalha como promotor de vendas em supermercados. Serviço essencial. E ele se contagiou. Positivou o exame. 14 dias em casa e apesar de sintomático, teve que voltar a trabalhar. O capitalismo não dá ao homem negro e pobre a possibilidade do restabelecimento, nem do isolamento.

Vou para a cozinha fazer meu café bem forte para acordar. O cheiro invade a cozinha e me dá a real sensação de que o dia está de fato em seu início. Leitura, preparação para o programa de jornalismo que estou amando fazer. Feliz até às nove e meia da manhã, quando o jornal acaba. E lá vem minha pequena perguntando: Como foi seu sono, mamãe? E o programa? E é o sorriso dela a luz que ilumina, de fato, o dia.

Além de mãe e jornalista, estou em fase final da escrita de minha tese de doutorado. E esse tem sido a mais árdua de minhas tarefas. O tempo rareou num momento em que teoricamente teríamos tempo de sobra.

Gostaria de saber quem, nesses tempos de pandemia, tem dado conta de tantas tarefas. Pelo menos o universo das mulheres, e especificamente das mulheres negras, de onde falo, o tempo tem sido escasso. Mãe solo de duas, me desdobro para buscar dar conta de todas as demandas. Não dou. E parei de sofrer com isso.

Dizem que mulheres negras são mais fortes. Não sou. Não quero ser forte. Quero colo. Estar todo o tempo em casa, nos exige demais. Casa, trabalho, pais idosos, criança em idade escolar e com aulas online, estudo. Mas também penso nas mães negras que como meu irmão não podem se dar ao luxo de ficar em casa durante a pandemia. Deixam seus filhos em casa sem saber se a violência, vírus social, vai atingi-lo. Ou os leva para o trabalho crendo no seu superpoder de mãe preta. E eles caem do nono andar.

Não há proteção possível… Certos vírus estarão sempre à espreita. A violência, a doença, a fome. Não há proteção nas paredes da casa. O ar pode te envenenar.

Criança em casa fazendo zuada, uma energia que não se acaba e que não se gasta. E as mães buscando formas de mantê-las felizes e sentindo-se amadas. Certa noite Victoria chorou. Chorou muito. Saudades do pai que mora no Caribe, do avô que morreu, dos amigos da escola, do cachorrinho que sonha ter. Ela chorou. Desaguou em sua dor infantil. E eu desaguei com ela, numa tentativa de ser colo mas também de buscar naquele abraço a força que preciso para continuar a caminhada.

*Eliane Almeida é jornalista, mãe solo de Victoria e Isabella e apresenta o Fórum Café

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