sábado, 24 out 2020
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Crianças usam TikTok para relatar violência dos pais na pandemia: “A cinta é mais forte”

"Elas acabam se tornando a válvula de escape dos pais. Acreditam que a criança está transformando a vida deles em um inferno e os filhos acabam punidos por isso", diz a psicóloga Nanda Perim

“Queria tanto mostrar todo seu perfil para os meus pais, mas a cinta é mais forte (eu tenho uma irmã bebezinha e meus pais não deixam ela chorar)”. Esse é apenas um das dezenas de relatos – que ela classifica como gritos de socorro – que a psicóloga Nanda Perim, do PsiMama, tem recebido pelo seu perfil no TikTok durante a pandemia do coronavírus, onde divulga conteúdo para os pais sobre uma relação mais respeitosa, mais amorosa e mais democrática com os filhos.

“Algumas crianças me chamaram no inbox dizendo ‘poxa vida eu acho que estou com depressão’, ‘eu acho que estou com ansiedade’. A maior parte do que essas crianças trazem pra mim são coisas que eles vivem no dia a dia deles, dentro de casa. Principalmente, pais e mães. São crianças que apanham muito, com os mais diversos objetos. E muitas denúncias no sentido mais emocional também: meus pais não me deixam chorar, acham que chorar é besteira, me trancam no quarto e eu fico com medo. Violências mais invisíveis, que são aceitas na sociedade e vistas como educação e na verdade são violências”, diz Nanda, que distribui informações nas redes pelo perfil PsiMama, ao Criar Filhos.

Segundo ela, casos de depressão – que aumentaram 18,4% no mundo nos últimos 10 anos, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), atingindo 322 milhões de pessoas, ou 4,4% da população do planeta – atingem as crianças cada vez mais cedo e aumentaram cerca de 80% durante a pandemia, segundo estudo da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

“As crianças estão vivendo isso no universo delas e muitas vezes sofrem com os pais vivendo isso. Elas acabam se tornando a válvula de escape dos pais. E se eles não tem um autoconhecimento, um autocontrole, acreditam que o problema é a criança. Acreditam que a criança está transformando vida deles em um inferno e os filhos acabam punidos por isso quando, na verdade, está todo mundo estressado, tendo dificuldades de lidar com esses acúmulos de cortisol, adrenalina. Então, a criança acaba sendo responsabilizada por todo um contexto social mundial”, diz Nanda.

Para Nanda, o Brasil – onde 5,8% da população sofre com a depressão – vive ainda um agravante que é o desprezo por representantes do governo e pelo presidente, Jair Bolsonaro, em buscar informações mais conscientes na relação com as crianças, ecoando uma cultura patriarcalista e de adultização das crianças que se vê em discursos como o do atual ministro da Educação, Milton Ribeiro, que defendeu no púlpito da igreja onde era pastor, antes de assumir a pasta, a punição física aos filhos.

“Uma das coisas que seria importante era ter pessoas mais atualizadas, mais progressistas, mais conscientes, em cargos de poder, como ministro da Educação, da Saúde, o próprio presidente. Nós temos um presidente que está falando para as pessoas enfrentarem o coronavírus como macho. E aí a gente tem essa postura do presidente naturalizando essa forma de enxergar não só essa toxicidade de ser ‘macho’, de enfrentar como “macho”, que acaba levando essa violência para dentro de casa. Seja porque essa criança não se encaixa nesse padrão, seja porque essa criança é cobrada a ter uma postura adulta muito cedo”, afirma Nanda.

Segundo ela, esse processo de adultização das crianças pôde ser visto, por exemplo, na tentativa de grupos ligados à ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, em tentar impedir o aborto autorizado pela Justiça da menina de 10 anos que engravidou após ser estuprada por quatro anos pelo tio no Espírito Santo.

“Quando essas pessoas acham que essa criança não tem o direito de estar no hospital para fazer um aborto, elas também estão enxergando essa criança como um adulto. A adultização também está tendo consequências naquele momento. Como tivemos muitas pessoas, inclusive padres, dizendo que aquela criança estava naquela situação porque estava gostando”.

Enquanto grupos ultraconservadores buscam impor suas crenças punitivas, as crianças pedem socorro pelo TikTok para que possam ser defendidas dos próprios pais em uma cultura que, segundo Nanda, naturaliza a violência.

“Acredito que em nossa cultura, não só a brasileira, mas mundial, está havendo de forma muito piorada a adultização dessa infância. Você encontra no tik tok, em agências profissionais, crianças de 15 anos dançando de biquini de forma extremamente sensualizada. Então, a gente cria uma adultização e uma erotização de corpos infantis que é muito forte e a nossa cultura é uma cultura patriarcal, que enxerga a criança, como a mulher, de forma objetificada, do pai, do homem que paga as contas da casa. É uma cultura de que aquela criança deve alguma coisa àquele adulto. Essa cultura naturaliza a violência”, diz.

Plinio Teodoro
Plinio Teodoro
Plínio Teodoro Jornalista, editor de Política da Fórum, especialista em comunicação e relações humanas.