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O que o brasileiro pensa?
11 de julho de 2020, 19h48

Ministro da Educação defende punição física às crianças

Pregar uma criação que usa força bruta é ajudar a formar adultos submissos, um cenário que interessa aos líderes autoritários para manter a estrutura social conservadora e retrógrada

“Essa ideia que muitos têm de que a criança é inocente é relativa” (…) “Castiga o teu filho enquanto há esperança, mas não te excedas a ponto de matá-lo” (…) “Deve haver rigor, desculpe, severidade. E vou dar um passo a mais, talvez algumas mães até fiquem com raiva de mim: (as crianças) devem sentir dor”.

Pare. Pense no seu filho, na sua filha, no seu sobrinho ou sobrinha. No seu neto, neta. Pense na criança que é sua vizinha. No seu aluno. Pense naquela criança que tem você como referência. E desliza aí na sua linha do tempo e vai lá pra sua infância: pensa na criança que você foi. Leia de novo essa frase e perceba que sensações percorrem seu corpo quando você toma contato com essas palavras.

Isso está ecoando aqui desde que, nesta sexta (10), Milton Ribeiro foi nomeado ministro da Educação deste país. As falas do pastor em um templo presbiteriano defendendo o castigo e a punição física às crianças – baseadas em passagens bíblicas – rasgaram as telas, entraram nas casas e – pra nossa tristeza mas pouca surpresa – levou pra fora da alcovas gente que em pleno 2020 defende a violência contra as crianças.

Começamos esse texto várias vezes. Desistirmos, tamanha desesperança. Achamos que devíamos voltar e escrever. Sentimos raiva e escrevemos um “F* Ribeiro que nós vamos seguir na luta. Sabe o que cê faz com a ‘vara da disciplina’?…” Apagamos – porque temos estudado pra romper com a violência transgeracional e aprendido, pra poder ajudar nossas crianças, a nos afastarmos quando sentimos raiva e voltarmos quando formos capazes de dissociar emocionalmente da situação.

Quem se beneficia da educação violenta?

Dissociamos. Voltamos. Pra convidar a você a pensar junto. Nossos filhos vão sentir dores e não poderemos evitar. Mas pregar que a gente os puna, castigue, seja violento com eles é uma narrativa com propósito. Quem vai se beneficiar dessa narrativa?

Dizer que um bom resultado com as crianças “não vai ser obtido por meios justos” e a “pregação” de uma educação castradora, arcaica e VIOLENTA leva a discussão sobre a nomeação de Ribeiro a um outro patamar. O patamar do DISCURSO. Da DOUTRINAÇÃO. Da manutenção da ESTRUTURA social retrógrada em que vivemos.

Defender uma educação autoritária, punitiva, que usa castigos e força bruta, sem escuta, coercitiva pode ajudar a criar crianças obedientes, boazinhas e comportadas. E sabe o que essas crianças serão logo ali, no futuro? Adultos submissos, sem poder de argumentação, medrosos, covardes, facilmente manipuláveis, que não questionam – exatamente como adultos que têm medo de serem questionados gostam. Como líderes autoritários precisam pra se manterem no poder.

Ô Ribeiro, agora que conseguimos administrar a raiva aqui, voltamos com uma notícia pra você: vamos seguir firmes na luta por uma educação não-violenta, pela LIBERDADE das nossas crianças, pelo respeito a eles como indivíduos, pelo amor por eles como eles são (e não como miniprojeções do nosso ego ou de nossas idealizações), para levar informação ao maior número de adultos possível e o convite para a tomada de consciência sobre NOSSAS dores. Afinal, quando não cuidamos delas, é normal querer fazer doer no outro, achando que vai passar.


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