sábado, 24 out 2020
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Psicólogo lança livro durante pandemia e põe sentimentos para escreverem cartas

O medo, a raiva, a saudade e outras reações humanas vão conversar com os leitores de Cartas de um terapeuta para seus momentos de crise, novo livro de Alexandre Coimbra Amaral

TATIANA FÁVARO*

“Sou só um sertanejo (…) quase que nada não sei (…) mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende”. As frases do Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, pareciam piscar feito pop up enquanto, em uma entrevista virtual, o psicólogo e escritor Alexandre Coimbra Amaral contou à Revista Fórum sobre seu primeiro e recém-lançado livro, Cartas de um terapeuta para seus momentos de crise (Ed. Planeta).

Terapeuta familiar reconhecido nacional e internacionalmente por suas palestras, escritos (Revista Crescer e Portal Lunetas) e por integrar o time do programa Encontro, da apresentadora Fátima Bernardes, Alexandre não imaginava tamanha e tão rápida repercussão. Lançada em julho, em meio à pandemia, a obra já chegou às mãos de mestres como Gilberto Gil e emocionou o poeta cordelista Braulio Bessa, autor de três bestsellers. Em menos de dois meses as vendas ultrapassaram os 5 mil exemplares.

O livro é apresentado ao leitor no palatável formato de cartas. Assim como Guimarães Rosa faz do Grande sertão uma metáfora de travessia pela vida, Alexandre faz de suas cartas metáforas dos sentimentos humanos, que ganham sons, cheiros, cores, tamanhos, gostos e tantos outros sentidos, entre a voz e o silêncio que a leitura cadenciada proporciona.

Cartas de um terapeuta para seus momentos de crise é um dos primeiros livros brasileiros com o selo Paidós, criado em 1945 na Argentina e lançado este ano no Brasil para contemplar obras que olhem para questões humanas. Entre as cartas que o leitor recebe ao ler este livro, estão diálogos com o medo, com a tristeza, com a culpa, o ciúme, a raiva, a vergonha, o amor, a morte, a esperança, a saudade, o abraço – numa dança delicada entre a leveza e a profundidade.

Um lugar novo

Mineiro como Guimarães Rosa, o psicólogo diz que ainda está se familizarizando com todo o reconhecimento e que as origens sertanejas da família da mãe o abraçam nesse processo. “O sertanejo é um aprendiz. Estou construindo uma intimidade com essa condição de escritor que, pra mim, é um assombro, pois é um desejo muito antigo”, afirma lembrando o sonho adolescente, enquanto tenta assimilar a projeção de sua primeira obra.

O escritor – também referência no cenário de proteção ao parto e nascimento respeitosos no Brasil – conta que por um tempo esteve “grávido” de seu livro. Desejava pari-lo, mas não sabia como e nem quando. Até que recebeu o convite da Editora Planeta para transformar seu ofício de construtor de diálogos em uma obra escrita.

Foto: Divulgação

Guimarães Rosa dizia que “sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte do que o poder do lugar”. E assim, do sonho e da construção imagética da própria obra, nasceu o livro Cartas de um terapeuta para seus momentos de crise. “Eu vim nesse mundo para conversar, gosto de gente. E a ideia de cartas sempre existiu como premissa de um primeiro livro”, conta Alexandre. “Eu queria uma conexão que construísse diálogos. Não quero que minhas palavras sejam verdades definitivas, mas o início de um fluxo dialógico incerto. Vamos, aprendizes, sair engrandecidos nessa troca.”

Deu certo. Todos os dias quando abre suas redes sociais tem alguém em algum canto do mundo falando de seu livro. Provocando novos diálogos. “Eu fico chocado. Minha vida inteira foi regida por uma coisa que você chame como preferir: acaso, sincronicidade, Deus, Universo, o que você quiser”, diz um Alexandre conectado com a potência da natureza e grato por permitir o fluxo que o levou até sua companheira de vida, Daniela Leal, confirmou sua maior certeza biográfica com a paternidade do primeiro filho Luã, o levou a entender que o amor não tem limites com a chegada do segundo filho, Ravi, e o fez concluir que “família não é lugar de raiz, mas de se dar asa”, após se tornar pai de Gael.

Esse mesmo fluxo, narra o escritor, o levou na virada do milênio para sua especialização no Chile, na escola do neurobiólogo Humberto Maturana, e para os atendimentos das famílias dos desaparecidos do regime militar chileno. O conduziu à cadeira de professor de Terapia Familiar em uma universidade de Salvador, o catapultou de uma cidade de pouco mais de 3 mil habitantes no sul da Bahia para São Paulo há 3 anos e para a televisão em rede nacional, em 2018.

Um antídoto pra tanta dor

Alexandre é aquela mistura de abraço, gargalhadas e lágrimas. Um cara que, embora diga não acreditar no mundo como ele está, não desiste do ser humano e da possibilidade de sua mudança interior. “Minha existência se coloca a serviço dessa transformação”, diz ele nos remetendo à travessia do ex-jagunço Riobaldo na obra um dos maiores escritores da literatura brasileira.

Bom sertanejo que é, Alexandre Coimbra Amaral sabe que “sertão é dentro da gente”. E cada palavra, cada parágrafo, cada carta de seu livro leva o leitor a um mergulho interno para quebrar o silêncio das próprias emoções. “A palavra é a única salvação, é o antídoto pra tantas dores quanto as que estamos vivendo.”

Após seis meses de isolamento social, o convite dele é para que as pessoas leiam essas cartas de sentimentos que pedem licença para conversar. Escrevam cartas para quem amam. Para as crianças que já foram um dia. Leiam cartas do futuro para seus filhos.

Talvez Alexandre não compreenda a velocidade do efeito e a intensidade do afeto de seu livro em tantas vidas, em tão pouco tempo. Mas em sua vereda, Guimarães Rosa cantou a grandiosidade da alma sertaneja: “passarinho que debruça – o voo já está pronto”.

*Jornalista, doula e idealizadora da rede ativista de criação consciente Criar Filhos

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Rede ativista de criação consciente