quarta-feira, 30 set 2020
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Vão dizer que você é louca de querer ter filhos

Vão dizer que você é louca de querer ter filhos. Vão dizer que é cedo. Ou tarde demais. Vão dizer que um é pouco, dois tá bom, três você não dá conta e mais que isso você enlouqueceu.

Vão dizer que loucura, aliás, é você querer parir. Vão dizer que você não vai conseguir amamentar. Que seu leite é fraco. Pouco. Que seu bebê é magro e está com fome. Ou é gordo e você precisa parar com essa coisa de livre demanda.

Vão dizer que colo não é lugar de criança dormir, que pra isso existe berço. E que você está deixando essa criatura mal acostumada. Vão dizer que uma chupeta resolve esse choro em dois minutos. Que você “tá com uma cara de acabada”.

Vão dizer que pra cólica é só dar umas gotinhas de não sei o quê e que sling deixa o bebê todo apertado.

Vão dizer que está na hora dele começar a comer. Que já era hora de engatinhar. Que “como assim?” ainda não fala? E que é melhor ver com o médico por que não anda.

Vão dizer que você pôs na escola cedo (ou tarde) demais. Que autonomia é coisa de mãe bunda-mole. Que ouvir e explicar as coisas pra criança é desnecessário porque ela não entende. Vão dizer que um tapinha não dói.

Vão dizer que rotina salva. Ou que é bobagem. Vão dizer que, se seu filho não dá beijo quando chega, é mal educado.

Vão dizer que seu casamento vai acabar porque a cama foi compartilhada. Que é hora de desmamar.

Vão dizer que você é chata porque não deixa o açúcar correr solto. Nem a TV.

Vão dizer que é bobagem falar de sexualidade com crianças e adolescentes, já que “a vida ensina”. Que é paranoia sua querer saber o que eles veem na internet. Ou onde vão. Com quem.

Vão dizer que essa coisa de levar e buscar é coisa de filho mimado. Que eles já são grandes demais pra você cozinhar pra eles. Que eles abusam da sua boa vontade e, de tanto fazer as vontades deles, você não pensa em você.

Vão dizer que você tem “sorte” por ter filhos maravilhosos.

Vão dizer. Raros vão te ouvir. Mas o que importa, no fim, é aquela pausa pra ir até a janela. Sentir o vento frio no rosto. Respirar. Ouvir a batida do seu coração e a voz da intuição te dizendo: “vai, menina, é por aí”.

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Tati Fávaro
Tati Fávaro
Jornalista, doula, mãe e uma das idealizadoras da rede ativista de criação consciente Criar Filhos