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26 de agosto de 2019, 15h31

Eu já escuto os teus sinais: o que o Twitter já anunciava sobre o panelaço

Apesar de não ter tido os mesmos decibéis dos barulhos que começaram a ajudar a derrubar Dilma, o que ocorreu nas varandas no dia 23/08/2019 pode ser um sinal de que o governo terá que mudar de postura e que os segmentos sociais estão se fortalecendo

Anunciação de De Fray Angelico — Galeria online, Museo del Prado, Dominio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=45124868

*Título deliberadamente inspirado na música de Alceu Valença

E ocorreu o primeiro panelaço. Após pouco menos de oito meses de novo governo, eis que na penúltima sexta-feira do mês de agosto as varandas da classe média deram a primeira demonstração de perda de paciência com o Planalto. O motivo foram os incêndios na Amazônia e os sinais que isso estava perto de ocorrer estavam disponíveis no Twitter já há alguns intervalos de hashtags.

Munidos do nosso ferramental de análises, baixamos e analisamos tuítes que traziam sinalizações de que o público do Twitter estava atento aos debates sobre o meio ambiente. A análise poderia seguir vários roteiros. Desde o primeiro dia dos novos hóspedes do Planalto as controvérsias eram fartas e nós até já tratamos disso aqui no Dadoscope com o post sobre os novos agrotóxicos. Para sermos mais sintéticos, fizemos a opção de mostrar como as coisas escalaram nos últimos oito dias. Foi no dia 16/08 que a hashtag #PrayForRondonia apareceu nos trend topics do Twitter e de lá pra cá tudo foi tomando dimensões que incendiaram a imagem do Brasil.

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Reze por Rondônia

Dreamer é uma adolescente. Na sua bio constam 15 anos e sonhadora. Ao que parece entendeu bem que viver é melhor que sonhar, como cantava Belchior. Em 16/08/2019 ela pôs os dedos no teclado e gerou mais um entre os seus quase 14.000 tuítes. Numa referência a uma matéria da EBC ela explica porque o #PrayForRondonia estava nos TTs brasileiros naquele dia. Os números apenas desse tuíte já impressionam. São 9.700 curtidas e 5.300 compartilhamentos, para uma usuária que é seguida por apenas um pouco mais de 500 pessoas.

Figura 1: Dreamer explicando o que estava acontecendo em 16/08

Milhares de outros tuítes fizeram referência a #PrayForAmazon. No dia 24/08/2019, utilizamos a API do Twitter e pedimos todos os tuítes únicos, ou seja, excluídos os retuítes, associado à hashtag. O resultado pode ser sumarizado nas seguintes estatísticas:

.7.800 tuítes únicos

.5.846 usuários únicos

.1.737 posts com mídia (o levante ambiental será bem documentado)

.O tuíte mais curtido teve 29.866 marcações

.O tuíte mais curtido foi também o mais retuitado: 15.306 ocorrências

.O vídeo associado ao tuíte mais curtido foi visto mais de 20 milhões de vezes (o levante ambiental será bem documentado)

Veja na figura 2 o tuíte mais popular da hashtag.

Figura 2: O tuíte #PrayForRondonia mais curtido e mais retuitado

Pode-se observar na Figura 2 que a conta já estava sendo endereçada ao planalto. O incêndio na região Norte estava começando a espalhar sua fumaça política sobre Brasília.

A vida da hasthag esteve bem associada ao que ocorreu nesses últimos oito dias. A figura 3 mostra como foi a evolução quantitativa do debate desde o dia 16/08/2019.

Figura 3: Evolução da citação de #PrayForRondonia

Como pode ser visto, a hashtag atinge seu auge em 17/08/2019 com mais de 3.000 tuítes únicos, reduz bastante nos dois dias seguintes, é fortalecida nos dias 20 e 21 de agosto e a partir daí passa a não ter mais tanta relevância, provavelmente em decorrência dos outros acontecimentos também ligados ao meio ambiente e região amazônica. Outras hashtags com a mesma temática passam a ter mais protagonismo, mas o fato é que a força do movimento ambiental no Twitter está inicialmente relacionada ao debate sobre o que estava ocorrendo em Rondônia na primeira quinzena de agosto.

Aja pela Amazônia

Quatro dias após o #PrayForRondonia o debate toma conta do mundo. Eventos como escurecimento da maior metrópole brasileira no meio da tarde, post do presidente francês condenando o que estava acontecendo na floresta amazônica, ameaças de boicote às commodities brasileiras e o surgimento e fortalecimento da #ActForTheAmazon dominaram as linhas de tempo dos usuários do Twitter. A figura 4 mostra o impacto da postagem de Macron, já com #ActForTheAmazon.

Figura 4: Post de Macron com #ActForTheAmazon

Fabio Malini, pesquisador da UFES na área de redes sociais, foi conferir o que estava ocorrendo, fez suas análises e publicou o post destacado na Figura 5.

Figura 5: Post indicando o alcance dos tuítes sobre a Amazônia

Observe na figura 5 que o tema já estava espalhado no Twitter em nível mundial. As citações em inglês já eram aproximadamente 60% mais frequentes do que as em português. O nosso cientista de dados que mora na Suíça confirmou o burburinho em torno do tema nos corredores da instituição em que trabalha. No mesmo dia 22/08/2019, o nosso homem na Europa baixou os principais tuítes em inglês e português, seguindo em parte o mesmo roteiro feito por Malini. A partir daí tínhamos os dados para fazer as nossas próprias análises do que estava ocorrendo naquele dia e nos dias anteriores.

Nossa primeira análise é sobre os posts em inglês. O que se nota nas postagens no idioma de Shakespeare é a forte presença de influenciadores globais. Vemos Madonna, Greenwald e o próprio Twitter, mas o que chama mais atenção é um post de Bernie Sanders, pré-candidato à presidência dos EUA. No algoritmo da API do Twitter que define os posts mais importantes, ele é responsável pelo que foi mais curtido e também mais retuitado entre os textos em inglês que citam ao mesmo tempo Amazon e Bolsonaro. Veja o post na Figura 6.

Figura 6: post de Bernie Sanders

Pela figura 6 o post de Bernie Sanders já foi retuitado 4.400 vezes e curtido por 14.200 pessoas. Isso é bem menos do que o influenciador anônimo brasileiro indicado na figura 2. A diferença é que Sanders fala, só no seu Twitter, para 9,6 milhões de pessoas e é um dos principais competidores da disputa dos democratas. Ele tem chances reais de estar à frente do país mais poderoso do mundo a partir de 2021.

O post de Sanders direciona sem meias palavras à responsabilidade para Bolsonaro e seus amigos corporativos. O post dá a pista de sua preocupação com a mudança climática que é negada pelos principais atores do governo brasileiro atual. Essa ênfase é tão importante que está presente em seu post fixado, que aliás foi publicado nesse mesmo dia 22/08/2019, como pode ser visto na figura 7.

Figura 7: post fixado de Bernie Sanders e sua bandeira por um #GreenNewDeal

Se nos EUA as políticas ambientais brasileiras encontram um dos principais adversários num dos principais políticos do partido democrata, no Brasil os influenciadores passam por famosos, tais como Felipe Neto, políticos como Marina Silva e o senador Humberto Costa, órgãos de imprensa e o Greenpeace. O algoritmo do Twitter na opção de posts mais importantes traz 15 ocorrências em português para Bolsonaro e Amazônia. Com exceção de uma referência, as outras 14 são amplamente negativas a Bolsonaro. Os posts variam entre 822 e 34.912 curtidas e entre 228 e 11.516 retuítes, conforme os dados obtidos em 22/08/2019. A Figura 8 mostra uma tabela com todos esses principais posts.

Figura 8: Tabela com os principais tuítes em português

A Figura 8 não deixa dúvidas de que as palavras Amazônia e Bolsonaro quando estão juntas despertam sentimentos de oposição ao governo. Mesmo as mensagens mais neutras, como a do G1, que relata uma teoria de conspiração trazida por Bolsonaro que não encontra fundamentação em fatos reais, mas foi amplamente criticada em nível mundial.

Por fim, antes de partirmos para a última seção que trata dos movimentos do Twitter em torno do panelaço, vale aqui trazer mais um post do Malini que mostra o estado dos ânimos no Twitter na véspera da sexta-feira 23/08/2019.

Figura 9: o estado das coisas após 14 horas de coleta de dados no dia 22/08/2019

A imagem das redes conectadas é a pista final para o panelaço que seria convocado e aceito por parte das varandas brasileiras.

Convoque o panelaço e divulgue o resultado em vídeo

No início da manhã do dia 23/08/2019 o ambiente já estava quente no twitter. Não demoraria muito para que ocorressem chamados para as manifestações. Esse é o ambiente que faz surgir a hashtag #panelaço que passa a fazer parte dos TT durante aquele dia. Veja a figura 10 o comportamento dos tuítes únicos gerados.

Figura 10: Evolução das referências a #panelaço

Pela figura 10 percebe-se que houve alguma ocorrência de #panelaço no dia 16/08/2019, porém toda a organização no Twitter chamando para a manifestação de varanda ocorreu realmente no dia 23/08/2019. Nota-se ainda que apenas no final da tarde é que se começou a diversificar os tuítes. A cor vermelha do gráfico, que chama a atenção para a subida da temperatura nos incêndios da floresta e na política no planalto central do Brasil, revela que o pico ocorreu na faixa das 23h00, algumas horas mesmo após a manifestação ocorrer. Nesse caso, o que se estava querendo passar já era o resultado do panelaço. Novamente há espaço aqui para as mídias capturadas pelos próprios internautas. A figura 11 mostra a ênfase na difusão das mídias.

Figura 11: Difusão de mídias associadas ao panelaço

O formato do gráfico da Figura 11 praticamente repete o da Figura 10. Observa-se que o horário quente da difusão das mídias foi também na faixa das 23h00, atingindo aproximadamente 1.200 tuítes únicos com mídias associadas, o que representa aproximadamente 23% do total de tuítes diferentes naquele horário. Sem sombra de dúvidas, o levante ambiental vai ser documentado.

Conclusão

Os artistas medievais costumavam pintar a imagem da anunciação à virgem Maria. É essa a imagem que consta da capa deste texto: uma pintura de Fra Angélico que está exposta no museu do Prado em Madri. A tradição cristã indica que o anjo Gabriel anuncia à virgem Maria que ela dará à luz o salvador. No mundo moderno, as tecnologias de informação são o veículo das anunciações mundanas. Os sinais emitidos por camadas da sociedade podem de alguma forma ser lidos, mesmo em engenharia reversa como é o caso deste texto, através das mídias sociais.

A condução vacilante da pauta ambiental por Bolsonaro e seus ministros há muito já vinha sendo questionada. As queimadas do início de agosto, que estão fortemente associadas a manifestações de apoio de parte do setor agro à trajetória do governo, foram o estopim para que os diversos segmentos da sociedade civil se posicionassem. No princípio isso ocorreu de forma tímida e em seguida de maneira avassaladora, que resultou na primeira manifestação mais consistente e diversificada contra o presidente. Apesar de não ter tido os mesmos decibéis dos barulhos que começaram a ajudar a derrubar Dilma, o que ocorreu nas varandas no dia 23/08/2019 pode ser um sinal de que o governo terá que mudar de postura e que os segmentos sociais estão se fortalecendo. Pode ser a anunciação de novas e emblemáticas disputas no campo da defesa ambiental e bem provavelmente no campo das disputas políticas mais amplas.

Sobre os autores
Charles Novaes de Santana: Cientista da computação, mestre e doutor em mudanças climáticas, com experiência no uso de técnicas de inteligência artificial e de aprendizado estatístico para responder perguntas interdisciplinares. É co-fundador de DataSCOUT, apaixonado por fractais, redes complexas, e por identificar padrões escondidos em amontoados de dados.

Tarssio Barreto: Estudante de doutorado do Programa de Engenharia Industrial da Universidade Federal da Bahia. Dedica o seu tempo ao aprendizado de máquina com particular interesse na interpretabilidade de modelos black box e qualquer desafio que lhe tire o sono!

Fernando Barbalho — Doutor em Administração pela UnB (2014). É cientista de dados no Tesouro Nacional. Pesquisa e implementa produtos para transparência no setor público brasileiro. Usa R nos finais de semana para investigar perguntas que fogem às finanças públicas.

Leonardo F. Nascimento — Doutor em sociologia pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos — IESP/UERJ (2013). Pesquisa temas relacionados à sociologia digital e aos métodos digitais de pesquisa. Atualmente é professor do Instituto de Ciência, Tecnologia e Inovação da UFBA.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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