quarta-feira, 30 set 2020
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Exclusivo: óbitos por Covid-19 no Brasil avançam rapidamente e já começam a superar os das doenças respiratórias mais fatais

Como já mostrado em nosso último texto, o número de óbitos no Brasil pela COVID-19 já se compara ao grupo das 17 doenças que mais matam no país. Comparamos as mortes de COVID-19 em apenas dois meses contra os casos acumulados anualmente das outras doenças; o que torna as coisas ainda mais dramáticas.

No texto de hoje, fizemos algumas comparações e análises que colocam o COVID-19 ao lado das tais 17 doenças. As análises que fazemos correspondem ao período entre 2015 e 2018 para os dados das demais doenças respiratórias. Esse é o período que temos trabalhado por ser o que está facilmente disponível para análise exploratória no Painel das Doenças Respiratórias. Destacamos que o ano de 2018 é o último disponível por ser o último período disponibilizado pelo sistema Datasus com dados de óbitos de todas as unidades federativas.

Nossa análise começa avaliando a Figura 1 que mostra quais são as doenças respiratórias mais fatais e o acumulado de óbitos entre 2014 e 2018 para cada uma dessas doenças.

Figura 1: Mortes acumuladas entre 2014 e 2018

Quando computadas a soma de óbitos da figura 1 e a soma das doenças respiratórias não incluídas na figura 1, temos o gráfico da Figura 2.

Figura 2: Comparação de óbitos entre dois grupos de doenças respiratórias

A Figura 2 mostra o impacto do grupo de doenças focadas nesse texto sobre a mortalidades das doenças respiratórias. O gráfico traduz visualmente a concentração que está associada ao fato de que aproximadamente 9% das doenças é responsável por 93% dos óbitos na período analisado.

Os dados de mortes acumuladas em cinco anos, apesar de impressionantes, não são parâmetros para fazer as comparações com o que está ocorrendo em relação à COVID-19 neste primeiro semestre de 2020. Fizemos então um desdobramento da Figura 1 para analisar a média anual dos óbitos para os cinco anos focados. Isso gera a Figura 3.

Figura 3: média anual de óbitos das doenças

Observe na Figura 3 que a doença que menos mata é a que é referenciada no Código Internacional de Doenças (CID) por J90. Trata-se de Derrame pleural NCOP. A média dos 5 anos marca um pouco mais de 1.000 mortes por ano. Já a doença mais mortal é a de CID 18.9 que se refere a Pneumonia não especificada, que alcança uma média de quase 50 mil mortes por ano. Os valores entre 1.000 e 50.000 passam a ser o nosso intervalo de comparação com os óbitos do COVID-19. Os próximos gráficos contam a história de como a curva fatal associada ao Corona Vírus avança dentro desse intervalo.

O dia nove de abril de 2020 foi o último em que o acumulado de óbitos por COVID-19 foi inferior a 1000, menor média das 17 doenças mais fatais. Veja a Figura 5 como se comparavam os números das doenças.

Figura 4: Posição da estatística de óbitos de COVID-19 para o dia 9/4/2020

A reta vermelha vertical da Figura 4 marca no eixo horizontal o número de óbitos acumulados pela COVID no dia 9/4/2020. Esse valor de acordo com o Ministério da Saúde era de 941 mortos. Observe que a reta chega quase a coincidir com o ponto que marca a média anual da doença J90.

A partir daí a aceleração mortal começa a deixar cada vez mais rastro nas estatísticas que acompanhamos aqui. Uma semana depois, no dia 16/04/2020 ,já haviam 1.924 mortos, mais que o dobro. Veja na Figura 5 o impacto sobre o acompanhamento das médias das outras doenças.

Figura 5: Posição da estatística de óbitos de COVID-19 para o dia 16/4/2020

Pela Figura 5 percebe-se que bastou uma semana para que a reta vermelha fizesse seu deslocamento à direita de forma a superar as marcas das cinco doenças menos fatais entre as que estamos considerando. A doença J45.9, o marco mais numeroso ultrapassado em 16/04/2020, foi responsável por uma média 1.881 mortos anuais.

Uma semana depois e mais uma foto do avanço acelerado da COVID-19. Veja a Figura 6.

Figura 6: Posição da estatística de óbitos de COVID-19 para o dia 23/4/2020

No dia 23/04/2020 os dados já apontam para 3.313 mortes. Já são nove marcos ultrapassados na figura 6. O de maior número, correspondente à doença J81, registrou uma média de 3.023 mortos.

Apenas quatro dias depois e a COVID-19 já está maior do que o último marco já superado até o momento em que escrevemos esse texto. Veja a figura 7.

Figura 7: Posição da estatística de óbitos de COVID-19 para o dia 27/4/2020

A Figura 7 mostra a doença J69.0 como o último marco alcançado. Isso no dia 27/04/2020. Nessa data a COVID-19 já tinha tirado 4.543 vidas em aproximadamente dois meses desde o primeiro caso de infecção. Para comparação, a média de mortes anuais da J69.0, a quinta doença respiratória que mais mata no Brasil, é de 4.326 casos.

E como está a foto mais atual? A estatística mais recente disponível neste momento é a do dia 5/5/2020. A Figura 8 revela o que os dados indicam.

Figura 8: Posição da estatística de óbitos de COVID-19 para o dia 4/5/2020

No dia 5/5/2020 os dados apontam para um número de 7.921 óbitos acumulados. Na Figura 8 vê-se claramente que isso significa que os números estão se aproximando da mortalidade da quinta doença mais mortal desta análise. Em pouco mais de uma semana foram 3.378 novos óbitos. Não é difícil supor que na próxima semana COVID-19 já ultrapasse a marca de 8719 referente à Pneumonia Bacteriana NE.

Para fechar podemos colocar toda a comparação entre óbitos por COVID-19 e as médias anuais de óbitos pelas 17 doenças. Fizemos essa animação indicada no figura 10 que traz todos os dados de óbitos acumulados desde o dia 30/01/2020.

Figura 9: animação com óbitos acumulados desde o dia 30/01/2020

Na animação da Figura 9 percebe-se que a barra vermelha demora a começar a se deslocar, mas em seguida sai da inércia e ganha aceleração. A aceleração do número de óbitos pode ser inferida pela distância entre uma reta vertical e outra. Quanto maior essa distância maior a aceleração. Observe que inicialmente há faixas de adensamentos das retas verticais até quando se atinge aproximadamente 5000 óbitos. Em seguida há um afastamento aumentando a cada dia, com alguns estreitamentos que marcam principalmente finais de semana ou feriado.

Ao que parece ainda estamos em momento de aceleração das mortes. As estatísticas impressionantes de velocidade de propagação e óbitos parecem que ainda vão dominar as análises sobre essa doença ainda por mais algum tempo.

Sobre os autores

Charles Novaes de Santana — Cientista da computação, mestre e doutor em mudanças climáticas, com experiência no uso de técnicas de inteligência artificial e de aprendizado estatístico para responder perguntas interdisciplinares. É cofundador de DataSCOUT, apaixonado por fractais, redes complexas e por identificar padrões escondidos em amontoados de dados.

Tarssio Barreto — Estudante de doutorado do Programa de Engenharia Industrial da Universidade Federal da Bahia. Dedica o seu tempo ao aprendizado de máquina com particular interesse na interpretabilidade de modelos black box e qualquer desafio que lhe tire o sono!

Fernando Barbalho — Doutor em Administração pela UnB (2014). Pesquisa e implementa produtos para transparência no setor público brasileiro. Usa R nos finais de semana para investigar perguntas que fogem às finanças públicas.

Leonardo F. Nascimento — Doutor em sociologia pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos — IESP/UERJ (2013). Pesquisa temas relacionados à sociologia digital e aos métodos digitais de pesquisa. Atualmente é professor do Instituto de Ciência, Tecnologia e Inovação da UFBA.

Henrique Gomide — Professor na Universidade Federal de Viçosa. Mestre e doutor em Psicologia. É consultor pela UFV em ciência de dados e aprendizagem de máquinas. Tem como principais interesses a aplicação de técnicas quantitativas e inovação nas áreas de saúde e educação.

Dadoscope
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Cientistas de dados que usam dados abertos, dashboards, machine learning e um pouco de criatividade para entender o mundo à nossa volta.