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24 de julho de 2019, 12h54

O Nordeste responde a Bolsonaro no Twitter

Na última semana, antes de entrevista a ser concedida a um grupo de jornalistas, Bolsonaro foi flagrado falando de maneira discriminatória sobre os nordestinos, ao se referir aos governadores da região Nordeste como “governadores de paraíba”

A bandeira da Paraíba

Não é de hoje que o agora presidente Jair Bolsonaro causa polêmica com suas frases. Nos tempos de deputado ele se destacava por, publicamente, defender a tortura, a ditadura, se comportar de forma machista, racista, homofóbica. Depois de eleito, o festival de atitudes e falas controversas continua, agora com a visibilidade que o cargo mais importante da República lhe concede.

Na última semana, antes de entrevista a ser concedida a um grupo de jornalistas, Bolsonaro foi flagrado falando de maneira discriminatória sobre os nordestinos, ao se referir aos governadores da região Nordeste como “governadores de paraíba”. Desculpas não faltaram para tentar justificar a frase, mas o termo “paraíba”, assim como “baiano”, já é bastante conhecido como uma forma pejorativa que pessoas preconceituosas, geralmente no Sudeste do país, se referem a pessoas do Nordeste.

Como era de se esperar, várias personalidades da política se manifestaram publicamente repudiando o presidente da República. Flávio Dino e Rui Costa, governadores do Maranhão e da Bahia, se destacaram nessa reação. Mas as pessoas comuns também se manifestaram a respeito da frase de Jair Bolsonaro. E se manifestaram no “mural público” preferido da internet: no Twitter. Nós, como de costume, ficamos de olho no que dizia o povo.

Utilizando a API livre do Twitter, baixamos aproximadamente 5 mil tuítes contendo o termo Bolsonaro, originados em estados da região Nordeste, publicados nos dias 21, 22, e 23 de Julho. Todos os dados e código fonte utilizados estão livremente disponíveis aqui.

A figura 1 mostra o mapa da região Nordeste em que as cores de cada estado estão associadas ao número de tuítes partindo daquele estado, contendo o termo ‘Bolsonaro’. Em vermelho estão os estados com menos tuítes, em cores mais próximas ao ciano estão os que com mais tuítes. A figura mostra que o estado da região Nordeste de onde mais pessoas tuitaram sobre Bolsonaro nesse período foi Pernambuco, seguido da Bahia e do Ceará, cada um deles com aproximadamente 1000 tuítes sobre Bolsonaro.

Figura 1. Número de tuítes contendo o termo ‘Bolsonaro’ em cada estado da região Nordeste

Para saber sobre o que estes tuítes falavam, decidimos avaliar a frequência das principais hashtags mencionadas nos tuítes. A figura 2 mostra a distribuição das hashtags mais mencionadas nos tuítes contendo o termo ‘Bolsonaro’ em todo o Nordeste e fica clara a reação dos nordestinos à fala de Bolsonaro. No eixo vertical aparecem as 20 hashtags mais citadas, e no eixo horizontal é representado o número de citações de cada uma dessas hashtags. A grande maioria das hashtags associadas a Bolsonaro falava da #VazaJato, mas também enaltecia o orgulho de ser nordestino com termos como #OrgulhoDoNordeste. Também Há hashtags que parecem lamentar o momento político do país, como a #SanatórioGeral. Mas também não faltaram hashtags em apoio ao presidente (não se sabe bem apoio a “que”) como #BolsonaroPresidenteAte2026 e #NordesteComBolsonaro.

Figura 2. Distribuição da frequência de uso de diferentes hashtags em tuítes contendo o termo ‘Bolsonaro’ na região Nordeste

Porém, as hashtags mais usadas em cada estado variaram bastante, como mostra a figura 3. A principal hashtag usada em Pernambuco foi a #OrgulhoDoNordeste. O único estado em que a hashtag mais comentada foi favorável a Bolsonaro foi o Rio Grande do Norte, onde prevaleceu a #NordesteComBolsonaro. Em todos os demais estados, as hashtags mais citadas traziam críticas a Bolsonaro, menções à Vaza Jato, ou enalteciam o orgulho nordestino.

Já na Bahia, a principal hashtag usada foi a #SanatórioGeral. Talvez a hashtag preferida dos baianos tenha a ver com o dia caótico vivido pela política baiana. O Governo do Estado da Bahia tinha agendado a inauguração do aeroporto de Vitória da Conquista para a terça-feira, 23/07, e convidou o governo federal para se fazer presente. Após várias exigências do presidente Bolsonaro e sua comitiva (entre elas, a proibição de que a aeronave do governador da Bahia, pousasse no aeroporto de Conquista), o governador Rui Costa e seus aliados decidiram não comparecer à inauguração do aeroporto que eles construíram. Uma situação digna da hashtag #SanatórioGeral.

Figura 3. Hashtags mais citadas em tuítes na região Nordeste contendo o termo ‘Bolsonaro’

A população nordestina parece ter sentido a ofensa do presidente Jair Bolsonaro. E essa reação da população nas redes sociais pode ter estimulado até políticos que tradicionalmente se colocam em campo político mais neutro a se manifestarem. O senador baiano do PSD, Otto Alencar, afirmou que indicará à bancada baiana do PSD que vote contra a reforma da Previdência no segundo turno da votação da Câmara, em repúdio à atitude discriminatória de Jair Bolsonaro. A figura 4, abaixo, mostra um mapa com a proporção dos deputados de cada estado que votaram a favor da reforma no primeiro turno. À exceção do Ceará, a maioria de todas as bancadas de estados do Nordeste na Câmara votou a favor da reforma no primeiro turno. Quantos desses votos na reforma o governo pode perder por causa das polêmicas ditas pelo presidente? A resposta pode vir no próximo dia 6 de Agosto, data prevista para o segundo turno da votação da reforma da Previdência. Se outros políticos nordestinos agirem como Otto Alencar, pode ser que a resposta às ofensas de Jair Bolsonaro renda muito mais que hashtags no Twitter.

Figura 4. Proporção de deputados de cada estado da região Nordeste que votaram a favor da Reforma da Previdência no primeiro turno.

Sobre os autores

Charles Novaes de Santana: Cientista da computação, mestre e doutor em mudanças climáticas, com experiência no uso de técnicas de inteligência artificial e de aprendizado estatístico para responder perguntas interdisciplinares. É co-fundador de DataSCOUT, apaixonado por fractais, redes complexas, e por identificar padrões escondidos em amontoados de dados.

Tarssio Barreto: Estudante de doutorado do Programa de Engenharia Industrial da Universidade Federal da Bahia. Dedica o seu tempo ao aprendizado de máquina com particular interesse na interpretabilidade de modelos black box e qualquer desafio que lhe tire o sono!

Fernando Barbalho — Doutor em Administração pela UnB (2014). É cientista de dados no Tesouro Nacional. Pesquisa e implementa produtos para transparência no setor público brasileiro. Usa R nos finais de semana para investigar perguntas que fogem às finanças públicas.

Tomás Barcellos — Economista formado na UFSC (2014). Trabalha no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento desde 2015, atuando hoje como Coordenador de Inovação. É mestrando do Programa de Pós-Graduação em Estudos Latino-Americanos da UnB.

Leonardo F. Nascimento — Doutor em sociologia pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos — IESP/UERJ (2013). Pesquisa temas relacionados à sociologia digital e aos métodos digitais de pesquisa. Atualmente é professor do Instituto de Ciência, Tecnologia e Inovação da UFBA.

 

 


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