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No rastro do óleo do Nordeste
24 de julho de 2018, 20h31

Expectativas irreais sobre intervenções médica e uso excessivo dos serviços. Como podemos mudar?

Nossas expectativas sobre os benefícios e malefícios de testes e tratamentos podem contribuir para o jeito que usamos os serviços de saúde, e podem contribuir para o uso excessivo de serviços. A expectativa de que os médicos vão tomar alguma atitude ativa, e o excesso de confiança nos exames também são contribuidores da epidemia de sobrediagnóstico

Foto: Wikimedia Commons

Por Lucas Bastos Marcondes Machado*

Todos nós temos certas expectativas sobre serviços e cuidados de saúde. As expectativas são construídas por nossa experiência pessoal, pelo que nos falam parentes, amigos e pessoas próximas, pelo que é noticiado na mídia e visto em filmes e seriados.

Uma pessoa que já operou o joelho sabe como foi sua recuperação, já sabe um pouco o que esperar caso tenha de operar novamente: sabe sobre a imobilização logo após a cirurgia, o inchaço e dor após o procedimento, conhece as semanas de fisioterapia até retomar suas atividades habituais.

Nossas expectativas sobre os benefícios e malefícios de testes e tratamentos podem contribuir para o jeito que usamos os serviços de saúde, e podem contribuir para o uso excessivo de serviços. A expectativa de que os médicos vão tomar alguma atitude ativa, e o excesso de confiança nos exames também são contribuidores da epidemia de sobrediagnóstico.

Vamos pegar um exemplo simples: quanto tempo dura a tosse de um resfriado? No começo de um resfriado podemos ter febre, ficamos com coriza, o nariz entupido. Podemos ter dor de garganta e tosse. Mas alguns dias após o resfriado, já sem febre, sem secreção nasal… continua a tosse! Quando devemos nos preocupar e quanto podemos esperar esta tosse passar?

Em uma pesquisa por telefone no Canadá, a maioria das pessoas estimou a duração da tosse entre 6.5 e 9.2 dias. Porém, a duração dos episódios de tosse em estudos é de quase 18 dias! Algumas pessoas tiveram episódios ainda mais longos de tosse, sem nenhuma doença grave envolvida. A incompatibilidade entre a expectativa de duração da tosse (perto de uma semana) e a duração real (mais de duas semanas, às vezes três) pode gerar ansiedade, preocupação, consultas médicas, exames e prescrição de antibióticos.

Os próprios médicos não se saem muito melhor. Foi visto que a maioria subestima os males causados por remédios e cirurgias, enquanto superestima seus benefícios. Isso tem diversas explicações: dificuldade de se manter atualizado, os estudos são espalhados em dezenas de jornais o que dificulta achar a informação, problemas dos próprios estudos que reportam pouco os efeitos colaterais e algo chamado de ilusão terapêutica – um entusiasmo com o tratamento sem justificativa clara tanto pela parte do médico quanto do paciente.

  • Mais de 95% das pessoas com câncer de próstata localizado vivem mais de 10 anos após o diagnóstico, quase 98% não morrem por conta de câncer, porém apenas 25% dos pacientes esperavam viver mais de 10 anos. A cirurgia não muda a sobrevida em comparação com observação ativa.
  • 62% das pessoas subestimam o risco de câncer causado por radiação de tomografias.
  • efeito das medicações para osteoporose é superestimado por 82% das pessoas! 69% superestimam o benefício dos remédios para colesterol.

 

Os exemplos poderiam continuar, mas vimos que a desinformação e expectativas irreais na área de saúde são comuns, em geral as pessoas esperam muito dos tratamentos e exames. O que podemos fazer em relação a isso?

De um lado, a formação médica tem que melhorar no que tange conhecimento estatístico, busca das melhores evidências e comunicação dos riscos e benefícios para os pacientes. Temos que aprender a informar melhor sobre os prós e contras e não adotar apenas um papel paternalista.

Podemos também cobrar mais responsabilidade da mídia: Um estudo analisou como a ressuscitação cardiopulmonar, o procedimento usado para tentar ressucitar alguém com uma parada cardíaca (PCR), é apresentado nos seriados House e Grey’s Anatomy. A taxa de pacientes que saiam com vida do hospital após sofrer uma PCR nos seriados foi de quase 50%, enquanto os dados mostram que na realidade é de apenas 13,4 a 32,2%, praticamente a metade! Além disso, o seriado não representou as doenças e perfil dos pacientes com mais risco de sofrer uma PCR. Isso cria uma falsa expectativa sobre o benefício do procedimento.

Saindo da ficção, outra pesquisa analisou as recomendações de saúde em programas de variedades e talk-shows com foco na saúde nos Estados Unidos. Quase 50% das recomendações não eram baseadas em nenhum estudo científico. Além disso,existem contraindicações para cerca de 10% das recomendações feitas nestes programas de TV.

Os pacientes também podem cobrar de seus médicos informações sobre os riscos e benefícios de cada procedimento. É saudável perguntar para seu médico: o que acontece se eu não fizer nada? A quais riscos estou me submetendo?

Alguns recursos podem ajudar na transmissão de informação. Um exemplo disso são os fact-boxes, gráficos que tentam sintetizar os dados e apresentar de maneira transparente duas situações, uma com a intervenção e outra sem. Aqui um exemplo de factbox sobre o uso de remédios para colesterol e outro para rastreamento de câncer de próstata com o PSA. Outro exemplo são folhetos informativos que trazem também informações de modo mais imparcial, aqui temos um sobre câncer de mama.

Uma iniciativa digna de nota é a campanha Choosing Wisely, que lista recomendações do que não fazer. As redes sociais podem trazer recomendações úteis de forma sucinta, um exemplo é o instagram do ministério da saúde. Outra fonte confiável é o site do Instituto Nacional de Câncer (INCA) que traz informações sobre fatores de risco, prevenção e detecção de câncer.

É necessário realinhar nossas expectativas com o benefício real das intervenções. Isso vai demorar tempo e vai necessitar de muito trabalho, mas pode ser um passo importante para reduzir o excesso de intervenções médicas. Mais informação deve ser disponível em português, de preferência em forma de factbox, ou com algum recurso visual que mostre os benefícios e riscos de cada intervenção.

*Lucas Bastos Marcondes Machado é Médico de Família e Comunidade, atualmente preceptor da residência de Medicina de Família da USP. Gosta de ficção científica, quadrinhos, cerveja, pessoas e gatos. Paulistano e ateu, menos quando o São Paulo joga


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