sábado, 19 set 2020
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fé, menina.

Monica-Bellucci-como-Maria-Madalena-no-film e-A-Paixão-de-Cristo_Cintia-Kanesguigue_Vivendo-a-Ultima-Hora

 

era Maria Madalena a prostituta que Jesus salvou do apedrejamento, perguntou-me uma jovem na fila do pão.

eu disse: “não”.

de onde você tirou isso, minha jovem? nem era Madalena, nem era prostitua, João nem cita o nome da infeliz; mas sabemos o crime que ela cometera: adultério. e a lei é clara, as adúlteras serão apedrejadas.

e os adúlteros, perguntou a senhorinha de cabelo acaju com uma cestinha de pães e queijos nas mãos?

bem, minha senhora, foi exatamente com essa questão feminista que Cristo dissuadiu os bárbaros barbudos: quem não tiver pecado, atire.

por que vocês acham que podem e ela não pode, parecia perguntar o Galileu. tá no Levítico 20:10, adúlteros devem ser apedrejados, sejam eles homens ou mulheres.

mas os homens só levarão pedradas se traírem “sua” mulher com uma mulher que já tenha “dono”.

Jesus já compreendera que a religião de seus contemporâneos tratava as mulheres como seres de segunda, como objetos.

a mãe dele mesmo nem foi uma mãe, foi uma mala na qual Jesus foi trazido a este mundo, como o quis Pessoa.

ela não beijou, não amou nem foi amada, não sentiu o prazer orgástico de produzir o filho.

Maria sofreu um estupro simbólico.

ao ouvir a menção ao estupro simbólico da Mãe de Deus, fez-se um enorme silêncio na padaria.

até as abelhas que lambiam os donuts congelaram o voo e pararam de zumbizar.

eu aproveitei o silêncio e falei ainda mais alto: um anjo chegou à casa da infante Maria, na calada da noite, invadiu o seu quarto, debruçou-se sobre o seu leito e sentenciou: terás um filho de Fulano.

repare que o anjo safado, um chato de um querubim, não chegou na sutileza, mostrou uma foto do interessado, perguntou se a adolescente tinha interesse, nada.

não lhe pediu consentimento.

abra as pernas e terás um filho, ordenou. mas ele não será teu – disse ainda o infame bípede emplumado – será só do Pai, e o Pai o entregará à morte, mas antes teu filho a negará como mãe.

serás chamada A Virgem, assim apagamos as marcas do estupro e o seu marido, veja o lado bom da coisa, não se sentirá traído. por esse subterfúgio linguístico tu escaparás de ser apedrejada com um Deus no ventre. disse isso, bateu as asas e se foi.

e assim foi.

Madalena era uma figura chave na formatação do cristianismo, as mulheres tiveram papel central na construção da cristandade em Roma, mas elas foram obliteradas pela cultura do patriarcado.

o monoteísmo foi crucial para a construção dessa cultura. Deus é o pai.

na Bíblia os homens são poligâmicos, e é com esses safadinhos que Deus conversa, e é somente com eles que o pai faz aliança.

a mulher já chega no Livro atrasada.

frágil e sujeita à tentação do diabo, ela sucumbe, excitada, à cantada barata de uma cobra sedutora que fala, fuma e masca chiclete.

tá no Livro.

Dalila surge neste mesmo Livro, veja que coincidência, igualmente retratada com o diabo no corpo, lasciva, a seduzir e trair o poderoso Sansão, cortando-lhe os cachos e roubando-lhe as forças, entregando-o ao inimigo.

ah, não se esqueça, eu disse à mocinha da primeira pergunta, já toda arrepiada, a imagem da Madalena como prostituta é igual àquela do neandertal arrastando uma mulher à caverna escura pelos cabelos, ela é uma fraude histórica.

é um discurso que foi implantado na sua mente.

isso não está escrito na Bíblia, ela é uma construção tardia, de um papa aloprado, machista e que pretendia diminuir a importância da mulher de Magdala, aquela que viu o Cristo nu.

como nu, perguntou espantada uma senhoria de cabelo acaju logo atrás de mim na fila.

sim, minha senhora, pelado. sabia não? nu como veio ao mundo, deste mundo Cristo se foi.

ora, meu senhor, contestou a garota do caixa, não há na Bíblia nenhuma citação a Jesus nu, o senhor também está a enxertar ideias no Livro sagrado.

a conversa contagiou toda a padaria. tive que me defender, assim respondi à moça do caixa: lembra-te da morte de Bin Laden, os estadunidenses relataram o espetaculoso funeral, fizeram como manda o figurino: desnuda-se o defunto, lava-se o corpo e, nu, o envolve em uma manta, um sudário. tá pronto pra descer à cova cavada.

assim foi com o Mestre, qual a novidade?

quando Madalena chegou à tumba de Jesus, cedida por Arimateia, o que ela encontrou lá dentro?

somente o sudário, respondeu o rasta loiro e de olhos azuis numa cadeira de rodas, adiantando-se para pegar o lugar preferencial na fila.

ouviram o que disse aí o nosso Dread Pitt? Madalena não encontrou Cristo, encontrou o manto, isso evidencia que o cabra saiu por aí peladão.

aquele vestidão que ele aparece nas gravuras, ressuscitado, é fuleiragem, ele nem tinha grana pra comprar vestido, tava zerado, nu com a mão no bolso.

mas isso já foi há muito tempo, meu filho. redarguiu a senhorinha do acaju, hoje a igreja não trata as mulheres com indiferença, a não ser a igreja de Maomé.

disseste mais uma fuleiragem, minha senhora, eu respondi. é claro que a senhora está a falar das mulheres usando burqa, chador, hijab ou niqab no oriente médio.

a imagem das orientais é reproduzida acriticamente em nossa mídia para dar a falsa ideia de que aqui as mulheres são livres.

mas a senhora sabe muito bem que foi a igreja que botou roupa nas índias, para lhes ocultar as “vergonhas”.

e não se esqueça, minha senhora, esse ódio seletivo contra os homens religiosos que obrigam as mulheres do islã a cobrir a cabeça, algumas a cobrir o corpo, é só mais uma imagem que implantaram na sua mente.

se a senhora olhar bem ao lado, verás que uma freira se veste como uma afegã e a senhora não vê na freira uma submissão absurda.

a igreja católica camufla o seu machismo direcionando-o a outras paisagens: cadê as bispas, onde estão as madres rezando missas, quêde as papisas?

a igreja continua queimando bruxas, negando o aborto, o contraceptivo, o sexo anal… segue apedrejando as adúlteras…

aí não, man. revoltou-se o rastafraude da cadeira de rodas, aí você se contradiz, quando Cristo livrou uma mulher das pedradas ele livrou todas, tanto é que a lei segue escrita, mas ninguém mais a pratica.

e lembre-se, continuou o galãzinho equilibrando os pães no colo, toda a cristandade reprovou o apedrejamento da Sakineh, aquela iraniana.

toda a padaria agora passou para o lado do rasta: “isso mesmo, é isso aí, essa é da boa, o maluco tem razão…”

você não podia estar mais enganado, meu caro Bob Marley albino. estivemos do lado de Sakineh Ashtiani somente porque a mídia estava contra Ahmadinejad, de quem os Esteites tinham ojeriza.

aquilo foi apenas uma campanha de difamação do islã, em geral, e do Irã em particular.

os cristãos seguem a apedrejar mulheres, ofendendo-as com cantadas baratas, chamando-as de puta nas ruas, difamando-as nas redes sociais, pagando a elas baixos salários, silenciando suas vozes, arrancando-as pelos cabelos da presidência da república.

a cada onze minutos, que tem ouvidos para ouvir que ouça, uma mulher e estuprada no Brasil.

as adúlteras são espancadas ou mortas pelas mãos de “seus proprietários” obsessivos, que as apedrejam com murros, pernadas, pauladas, estrangulamentos, afogamentos, facadas e tiros.

o silêncio voltou à padoca, moscas e abelhas estatuaram-se em um voo congelado. a fila parada, o balconista com a mão esticada a oferecer o pão a um cliente, ele igualmente estátua com a mão estendida.

silêncio sepulcral.

até que entrou um maluco com oclinhos à lá John Lennon, que não tinha ouvido uma linha da discussão e, indiferente ao silêncio da multidão, debruçou-se sobre o balcão e fez o pedido em alto e bom som: um sonho por favor, com recheio de doce de leite.

ao que a moça do balcão lhe respondeu: desculpe meu senhor, mas o sonho acabou.

palavra da salvação.

Lelê Teles
Lelê Teles
Formado pela Universidade de Brasília, Lelê Teles é jornalista, roteirista e publicitário. É roteirista do programa Estação Periferia (TV Brasil) e da série De Quebrada em Quebrada (Prodav 09). Sua novela, Lagoas, foi premiada na Primeira Bienal de Cultura da UNE. Discípulo do Mestre Cafuna, prega o cafunismo, que é um lenitivo para a midiotia e cura para os midiotas.