Fala que eu discuto

Por lelê teles

O que o brasileiro pensa?
01 de agosto de 2020, 20h14

Colibri

Leia a nova crônica de Lelê Teles, no blog Fala Que Eu Discuto: como nenhum assunto é estranho a um anjo, ele disse: “flagrante deicídio. mataram todos os deuses visíveis, em nome do deus invisível, indizível é indivisível”

a tarde sendo.

em moto perpétuo, segue girando o dimmer celestial.

a luz da tarde, silente, vai caindo lentamente, como uma pluma que se desprega em voo.

as nuvens se revestem de um brilho brando e colorido.

é hora de regar as plantas.

da varanda, vejo um anjo que passa, pássaramente.

eu o saúdo com sorridente cordialidade, acenando com a mão.

a criatura saúda-me de volta, com um elegante menear de asas, como saúdam os anjos.

“como vai?”, perguntei.

“voo voando; respondeu com formalidade angelical, interrompendo o movimento.

“o que houve?”, inquire-me a alada criatura.

“ouço o vento em silvos, a eloquência do silêncio e a música suave dos astros em movimento”, devolvi num haver/ouvir.

ele se aproximou e pairou no terceiro andar, onde estou, num imóvel movimento, girando freneticamente as asas.

prossegui, regador em punho, deitando água em chuva nas flores e ervas.

“marte, júpiter, saturno, vênus, plutão… sabia que todos já foram divindades um dia, na longínqua e antiga grécia? hoje são apenas topônimos a nomear planetas que, embora estejam no firmamento, não estão no céu…”

como nenhum assunto é estranho a um anjo, ele disse: “flagrante deicídio. mataram todos os deuses visíveis, em nome do deus invisível, indizível e indivisível”.

interrompi:

“mas quem mata também morre. já pensou se um dia, pode acontecer, formos invadidos, escravizados, pilhados e estuprados por uma outra civilização e, esta, nos trouxer uma outra divindade e, esta, substituir esse nosso deus vigente.

“aí, então, os descobridores descobrirão um novo planeta e darão a ele o nome de deus, seguindo e exemplo deicida.

“e deus ficará pregado lá em cima, junto aos deuses gregos, planeticamente.

“e deus vagará distante, em órbita previsível e tediosa, na imensidão escura, depois do último planeta do nosso sistema e invisível a olho nu; sem vento, sem gravidade, sem plantas nem animais, sem graça e sem vida.”

só ouvidos, o anjo esticava a língua e lambia o botão das flores.

“até que alguém, metido numa gravata, anunciará no noticiário: “grande dia. cosmonautas russos, à bordo da nave komsomolskaya, acabam de adeuzizar.

“finalmente o homem chegou a deus, o mais longíquo planeta do sistema solar; já enfiaram-lhe uma estaca com uma bandeira e começam a escavar o seu solo, no intuito de colher amostras e trazê-las à terra. ainda não se sabe do que deus é feito”.

o anjo, numa estranha mecânica de asas, fazia lépidos rodopios…

então, deu uma volta pelas plantinhas e acenou-me em despedida.

“tu, como te chamas?”, gritei.

“chamam-me colibri, eu nunca me chamei, nunca foi preciso, porque sempre estou comigo”.

do céu, agora, caem leves gotas de chuva; lágrimas de nuvens.

palavra da salvação.


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