Fala que eu discuto

Por lelê teles

O que o brasileiro pensa?
09 de julho de 2020, 22h08

Da negritude: reflexo e reflexão

Leia no blog Fala Que Eu Discuto, de Lelê Teles: "a nossa saudável, necessária, imperativa e urgente luta por espaços de poder e de representatividade, não deve se resumir, apenas, a ter a nossa imagem refletida no espelho da branca de neve"

Foto: Marcelo Casal Jr/Agência Brasil

“cada criatura humana traz duas almas consigo; uma que olha de dentro pra fora, outra que olha de fora pra dentro.” (machado de assis, o espelho.)

a nossa saudável, necessária, imperativa e urgente luta por espaços de poder e de representatividade, não deve se resumir, apenas, a ter a nossa imagem refletida no espelho da branca de neve.

é preciso quebrar esse espelho.

um orixá, refletido na imagem de um santo branco, é uma capitulação e não uma troca; mesmo porque, o cristo deles e todos os anjos continuam alvos e aloirados.

uma troca de mão única é entrega, é rendição; não é kula, não é escambo.

é ok que estejamos ocupando, cada vez mais, os espaços midiáticos da branquitude?

sem dúvida.

e não há dúvida de que é legal que a maju esteja à frente do jornal global, sabemos o que isso significa e o quanto isso nos dignifica, mas…

ainda assim o que fica é a linha editorial abjeta que nos danifica: classista, racista, criminalizadora da pobreza e exaltadora da futilidade.

eu não vou passar a ver o diário eletrônico porque a maju tá lá.

este jornal hoje é o mesmo de ontem.

ocupar a banca antes só ocupada por brancas é uma vitória? sim, é, mas é também uma armadilha.

é preciso ir além e construir o nosso próprio espaço de representação.

o cinema negro está a gritar isso, quem tiver ouvidos para ouvir que ouça.

entenda, cara gente negra, não basta vestir a filha de princesa elsa, é necessário vesti-la de rainha nzinga.

o branco não pode ser o parâmetro, o modelo, o paradigma das nossas conquistas, das nossas vontades, de nossos desejos.

eles construíram um mundo com uma ética e uma estética que não é a nossa.

nós, pardos e pretos (e indígenas) temos que estar atentos a nossos valores, a nossa ética e ao nosso ethos.

se aquele jovem negro, que estava sem máscara em uma aglomeração de brancos num boteco chique no ridjanêro, não estivesse capturado pela ética do grupo no qual ele luta por se inserir, jamais ele se negaria a ser um cidadão.

“cidadão, não, engenheiro”.

preso ao universo perverso da branquitude tóxica, ele se achou um deles e se viu como uma superpessoa, tratando o fiscal como uma não-pessoa, dando uma carteirada na cara do cara.

ora, caminhante de encruzilhadas, se o jactante engenheiro emanasse ubuntu, saberia que ele é porque os outros são, então, ele se veria diluído numa coletividade fraterna e sorora.

mas ele caiu na armadilha individualista do capitalismo branco e burguês, se viu exclusivo e excludente.

como se a sua imagem se refletisse no espelho das brancas de neve da boemia carioca zona sul.

como uma criatura estranha, não tinha o quilombismo arraigado em suas entranhas.

falei, outrora, sobre as pessoas, as não-pessoas e as superpessoas.

percebe a armadilha conceitual?

no entanto, se baixasse a pm naquele recinto, sendo ele o único retinto, só ele seria espancado, e enfiariam a carteira de engenheiro dele no rabo e nenhum cachaceiro branco iria defendê-lo.

lembra do decotelli? “isso é problema dele”, desdenhou o general heleno.

no espelho do branco, o negro é um vampiro, sua imagem simplesmente não aparece.

o que quero dizer com isso, deve estar se perguntando o impaciente leitor.

calma lá que uma reflexão não é como uma flexão de pescoço, não sai assim num passe de mágica.

e você tá em quarentena, não vai a lugar algum, fica na tua e espera um pouco mais.

o que quero dizer é o seguinte, meu bom rapaz: não posso olhar para um mundo construído pela invasão, pelo estupro, pela escravização de seres humanos, pelo etnocídio, pelo ecocídio, pelo silenciamento e pela pilhagem e me ver nele como se tivesse diante de um espelho.

esse modelo de sociedade não foi construído pra mim, ele foi edificado contra mim.

é necessário destruí-lo para que um outro modelo se imponha.

integrar-me é entregar-me.

“ora direis, ouvir estrelas?”

sim.

agora ouça essa: a negritude, essa abstração conceitual que nos une, está agora a ser colocada em xeque novamente, para nos dividir.

outro dia ouvi o brown falar pro dráuzio numa laive que estava em dúvida sobre essa parada: se ele é negro ou se é pardo; porra, se é pardo é negro.

entenda.

na américa hispânica negro é cor, porque não existe a palavra preto como designação de cor, preto em espanhol é negro.

portanto, os pretos são chamados de negros.

mas, ainda assim, existem as outras gradações pigmentares usadas como falsos etnômios; diz-se chamizos, pardos, cambujos, morenos, criollos, zambos, barcinos, castizos, morochos, zambaigos, cholos etc.

essas subcategorias nada mais são que divisões.

nos dividir nessas subcategorias é enfraquecer-nos como uma coletividade, como um grupo.

aqui no brasil já nos definiram como mulatos, cafuzos, mamelucos… lembra dessa?

e assim, presos a essa trampa, achamo-nos diferentes entre nós, mas eles nos veem como iguais, porque a discriminação que sofremos é a mesma.

o pm espanca preto, pardo e índio com a mesma força e o mesmo pedaço de pau.

mata com a mesma bala.

o joelho que nos sufoca a garganta não vai ficando mais leve à medida que vamos ficando “mais claros”.

olha aqui um resumão pro enem: no brasil, todo preto é negro, mas nem todo negro é preto, porque negro, aqui, não é cor, é uma categoria social que engloba todos os não-brancos, os que chamo de deficientes cívicos, porque nos cobram deveres enquanto nos sonegam direitos.

cidadão, não, deficiente cívico.

cidadão é todo aquele sujeito pleno de direitos.

ah, e tem mais, sobre essa de gradações divisionistas: veja que os brancos também não são homogêneos em sua branquitude: há os de olhos azuis, verdes, amendoados.

há os de cabelos loiros, ruivos e negros; bem como lisos, em cachos e ondulados.

os de nariz adunco, afilado ou pinoquesco; de cara quadrada, de rosto redondo ou longilíneo…

de pele alva, alvíssima, avermelhada ou trumpicamente alaranjada, com sardas, levemente bronzeadas…

porém, são todos brancos.

assim se definem, assim se veem, assim os vemos.

o pm da esquina os vê também nessa abstrata uniformidade.

portanto, veja a armadilha conceitual: enquanto eles se unem numa coletividade, eles nos separam nessas fenotípicas gradações desagradáveis.

então, a reflexão é essa: o espelho em que me espelho é o espelho de oxum, é nele que enxergo, em reflexo reflexivo, a divindade que me completa.

o índio, quando se debruça sobre o espelho d’água, não está à procura de um narciso ensimesmado, encontra o ser coletivo que ele é: ele se enxerga!

não caia na armadilha daquele engenheiro irresponsável que começou a andar com morcegos e acabou dormindo de cabeça pra baixo.

sim, aqui mesmo há dois mundos, dois antípodas, e não fomos nós que o fizemos assim.

não somos uma dualidade, somos uma dicotomia.

ocupar o espaço do branco, para se tornar um deles, é uma vitória de pirro.

ocupa-te, primeiro, do teu espaço interior, preencha os teus vazios conceituais, quilombize-se; essa é tua armadura contra as armadilhas que encontrarás pelo caminho.

e, ó, um conselho, não use o mesmo espelho daquele espantalho engenheiro.

vê se te enxerga.

porque você sabe, enquanto uns se encontram, outros se acham.

saravá!


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