Fala que eu discuto

Lelê Teles Formado pela Universidade de Brasília, Lelê Teles é jornalista, roteirista e publicitário. É roteirista do programa Estação Periferia (TV Brasil) e da série De Quebrada em Quebrada (Prodav 09). Sua novela, Lagoas, foi premiada na Primeira Bienal de Cultura da UNE. Discípulo do Mestre Cafuna, prega o cafunismo, que é um lenitivo para a midiotia e cura para os midiotas.

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02 de outubro de 2016, 20h37

FAMÍLIA É UM PROJETO DE DEUS?

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A FAMÍLIA É UM PROJETO DE DEUS?

acabo de inaugurar um pequeno negócio em uma das centenas de shoppings de Brasília, já patenteei a ideia porque vejo nela sinal de progresso e expansão de franquias.

chama-se Tenda de Cafunagem.

coisa simples, a tenda é um pálio de sedas brancas transparentes, com um belo tapete felpudo no chão, um divã de couro branco e um banquinho de madeira nobre.

o cliente, sempre estressado, tira os sapatos, deita-se com a cabeça levemente erguida e eu, com as unhas grandes, faço-lhe cafunés por 25 minutos.

em seguida, o cliente tem direito a me apresentar um assunto que lhe tem tirado o sono e a concentração.

faço as vezes de um oráculo que absorve os problemas alheios; a ideia é que o cliente saia da tenda leve e que não leve mais com ele aquele problema.

tenho conseguido 100% de satisfação da clientela.

efeito placebo, denunciam os invejosos. sim, digo, Jesus foi o maior vendedor de placebos da história, ele mesmo dizia aos que curava: “tua fé o curou”.

ou seja, Jesus avisava a seus pacientes que aquele remédio feito de saliva e barro não era o que curava a cegueira, o que curava o cego era sua vontade de ser curado.

tanto é que o Mestre nunca abriu uma farmácia.

charlatanismo, acusam outros.

não é, não prometo cura, não uso unguentos e nem faço orações. apenas converso e esfrego minhas unhas no couro cabeludo das pessoas.

pois bem, ontem, após cafunar um jovem arquiteto de 29 anos, ele suspirou fundo, sentou-se e me inquiriu:

Mestre Cafuna – é assim que todos me chamam – os deputados acabam de aprovar um projeto que define a família como sendo a união entre um homem e uma mulher e, segundo estes deputados evangélicos, a família é um projeto de Deus, alegam basear-se na bíblia. é correto isso?

não, pequeno gafanhoto – respondi-lhe de forma calma e serena – não é correto, mas vamos por partes.

dei-lhe uma xícara de chá de flores silvestres, ajeitei na cabeça o meu turbante tuaregue que trouxe do Mali, sentei em lótus à sua frente e discorri:

gafanha, Deus nunca se uniu a mulher alguma, portanto, esse tipo de família que confiam a ele já é, em princípio, uma fraude.

você sabe, pequeno gafanhoto, Adão, o primeiro homem, era filho de pai solteiro.

e pior, um pai ausente e irresponsável.

à minha frente, bebericando o floral na xícara de barro, o mancebo me olhava e seus olhos brilhavam em êxtase jovial.

atentai bem, filho do homem. Deus fez nascer Adão já adulto. e aí reside um grande problema, como diabos uma pessoa que nunca foi criança pode se tornar um homem?

Adão nunca mamou, nunca foi ninado, não limparam-lhe as fraudas, nunca lambeu o próprio catarro e nem levou merenda caseira para a escola.

e esse infeliz ainda pariu a própria esposa – que também não conheceu a infância – e com ela teve filhos homens.

mal criado, filho de pais órfãos que nunca haviam visto uma criança, o irmão matou o outro.

e para completar a desgraça, Deus expulsou o filho, a filha e os netos de casa, só porque abriram a geladeira a noite e comeram uma maçã escondidos.

velho sovina.

seu outro filho, Jesus, se queixou na cruz, na hora da morte, por ter sido abandonado pelo pai em um momento tão doloroso: “Eli, Eli, lama sabactâni.”

portanto, quando se for falar em família, é melhor deixar Deus fora disso, o cara é um péssimo exemplo.

então, esse lance de família composta por UM homem e UMA mulher, não encontra amparo no Black Book, o livro que os homens escreveram como ghost writers de Deus.

ali, o casamento é uma bagunça.

já no livro do Gênesis (16) vemos o velho Abraão, casado, levar uma serva para dentro de sua tenda e fazer-lhe filho na frente da esposa; depois levou outra serva pro barraco, fornicaram e fizeram mais filhos, as duas mulheres olhando.

e o velho patriarca viveu assim, em grande safadezas até a morte.

Jacó também era chegado à poligamia. traçou as filhas de seu tio Labão, Raquel e Lia, e ainda engravidou suas empregadas; tudo no seio do lar, tendo Deus como conivente testemunha.

em verdade, quase todas as famílias apresentadas na Bíblia eram poligâmicas; Abias teve 14 mulheres, Davi teve várias mulheres e Salomão, o rei playboy, tinha nada menos que 300 esposas e setecentas concubinas.

fiz uma pausa, peguei um cachimbo de madeira e soprei nas narinas do jovem arquiteto um rapé feito de cinzas de folhas de plantas amazônicas, dei-lhe mais chá e prossegui:

no livro do Êxodos (21:10) pequeno gafanhoto, Deus – o próprio – confidencia a Moisés ser normal um homem que tenha uma esposa se juntar a outras.

como se vê, na bíblia não há amparo para este tipo de fuleiragem proposta por esses pastores afeminados.

Jesus tinha dois pais, Deus e José, que era seu pai adotivo.

mesmo assim, nos conta Mateus (12:46-50), Jesus demonstra ter o seu próprio conceito de família quando diz:

“(…) quem é minha mãe e quem são meus irmãos? E estendendo a mão para os discípulos, disse: aqui estão minha mãe e meus irmãos. pois todo aquele que fizer a vontade de meu pai que está nos céus, esse é meu irmão, irmã e mãe.”

Ló, o patriarca de Sodoma e Gomorra, ofereceu as filhas virgens para uma turba que ameaçava comer, à força, os cus de uns anjos que caíram do céu.

e depois, habitando uma caverna ao ter sua cidade destruída e sua esposa petrificada – estátua de si mesma – Ló foi estuprado pelas filhas que lhe aplicaram o primeiro boa noite Cinderela da história.

como pode um pai oferecer a virgindade das próprias filhas para salvar as penas de uns querubins? é dessa família que falam os pastores?

meu filho, aqui no mundo real, metade das casas são tocadas por mães solteiras. o casamento é uma mentira, as esposas estão a ser espancadas e humilhadas por seus maridos, buquês voam das mãos das noivas sem que uma mão se levante para apanhá-los.

cada vez querendo menos filhos, os casais não copulam mais para procriação, transam por pura safadeza.

família, é preciso que alguém diga isso a estes energúmenos religiosos, é um núcleo social determinado pela cultura, relativizável portanto e variável no tempo e no espaço.

Bronislaw Malinowski, o seminal antropólogo funcionalista polaco, já havia destruído qualquer teoria de universalização do conceito de família ao analisar a configuração matrilinear dos trobriandeses, destruindo a teoria determinista de Freud no seu famoso e pretensioso arquétipo do Complexo de Édipo.

o espírito do tempo hoje nos diz que família é um núcleo social marcado pela convivência afetiva, por normas claras de responsabilidades, construção de patrimônio conjunto e transferência de herança;

podendo ser formado por um homem e uma mulher ou dois homens e uma mulher; ou pela avó, a mãe e o neto ou o avô, o pai e a neta; um homem e outro homem com seus filhos adotados ou uma mulher e outra mulher, apenas um homem e seu filho, ou uma mulher e seus filhos, vários homens e várias mulheres…

enfim, família é uma unidade social composta por mais de um indivíduo, tendo o amor e a responsabilidade como amálgama.

o resto é mercadoria.

disse isso, recolhi o pagamento das mãos do jovem e deitei-me como um faquir em minha cama de pregos, à espera do próximo cliente.

palavra da salvação.


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