Fogo nos racistas – Por Lelê Teles

Borba Gato era um bandeirante - e como tem homenagem pública a bandeirantes em São Paulo: escolas, avenidas, praças, estátuas! - , e você sabe, os bandeirantes eram um grupo de mercenários escravagistas, racistas, pilhadores, estupradores, matadores de negros e de índios; uma gente que encheu as burras com grana suja de sangue.

Botaram fogo no rabo do Gato.

Borba, a estátua mais feia do mundo, passou a tarde de ontem com os ovos em chamas, o rabo ardendo e uma fumaça negra a lhe escarrar na cara, como se tivesse sido vomitado por um dragão de sete ventas: “dracarys”.

Todo chamuscado e enegrecido, o monstrumento de 13 metros de altura homenageia um assassino sanguinário e isso, por si só, já é um escárnio, uma afronta, uma tremenda fuleiragem.

Borba Gato era um bandeirante – e como tem homenagem pública a bandeirantes em São Paulo: escolas, avenidas, praças, estátuas! – , e você sabe, os bandeirantes eram um grupo de mercenários escravagistas, racistas, pilhadores, estupradores, matadores de negros e de índios; uma gente que encheu as burras com grana suja de sangue.

Lembra da chacina contra o Quilombo dos Palmares? Pois é, os bandeirantes tavam lá, reforçando o exército dos invasores.

Esses tarados gananciosos também andavam em busca de ouro e esmeraldas. 

A estátua, como negá-lo?, legitima essa patifaria. 

Tanto é que Borba Gato está numa pose imponente, visto de baixo pra cima, grandioso, triunfante, destemido. 

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O site da prefeitura de São Paulo descreve assim o sujeito abjeto: “trajando roupas do século XVII, Borba Gato mantém-se em posição ereta, com o olhar perdido no horizonte e segurando um enorme trabuco em posição de descanso”.

Ah, o enorme trabuco!

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A peça foi feita por Júlio Guerra e há quem diga que ela deva ser preservada por seu valor artístico, por se tratar de um Guerra.

Ora, ora, ora.

Fernando Botero, o genial artista colombiano, espalhou esculturas ao redor do mundo, nenhuma delas corre o risco de ser derrubada, todas são respeitadas por seu incontestável valor artístico e nenhuma delas se presta ao papel abjeto de ser uma peça de propaganda, feita por encomenda, para mascarar um passado horrendo e transformar vilões em heróis.

Todos que olham para uma escultura de Botero dizem: “é um Botero”; não há quem olhe para essa estátua de Júlio Guerra e não diga: “é Borba Gato”.

É duro dizer, mas é difícil enxergar arte naquilo.

E mais, a elite endinheirada paulistana, boa parte dela descendente de malandros que fizeram fortuna matando gente, roubando terra, escravizando e explorando, fez um belo trabalho de limpar a imagem de seus antepassados.

Há diversas obras de arte que mostram esses sujeitos limpinhos, grandiosos e triunfantes. 

Mas nem isso Júlio Guerra conseguiu fazer; Guerra foi um pombo a cagar na estátua enquanto a produzia.

Por outro lado há, ainda, quem defenda a estátua por seu valor histórico. 

Bobagem.

Em Campos do Goytacazes, no zona norte do Rio de Janeiro, bem na entrada da cidade, tinha uma estátua de um índio goytacá. 

Há quinze anos o monumento tombou e até hoje está jogado ao relento, esquecido, carcomido pelo tempo.

Ninguém liga para a estátua de um velho índio, todos estão ocupados demais com o que realmente interessa, normalizar o absurdo!

Os índios goytacazes, altos e fortes, foram exterminados pelos invasores portugueses que, de forma covarde e cruel, provocaram uma epidemia de varíola, espalhando a moléstia entre os índios. 

Por que diabos os defensores de estátuas nunca pediram para devolver o goitacá ao seu lugar, senão pelo seu valor artístico, pelo menos pro seu valor histórico?

Aliás, esse tal valor histórico, alegado por alguns defensores do Borba Gato estatuado, revela, em verdade, os valores de quem faz esse tipo de alegação.

A história não precisa heroificar ninguém para que ela seja contada.

Dizem que a estátua pode ficar de pé e, que ao pé dela, se coloque uma plaquinha dizendo quem foi Borba. 

O diabo é que a estátua fica entre duas avenidas movimentadas.

Os nossos brilhantes historiadores creem que os motoristas irão parar, descer dos seus automóveis e dar uma lida na plaquinha explicativa: “Borba Gato, esse cavalheiro portando um enorme trabuco, era genro do bandeirante Fernão Dias Paes Lemes, que serviu ao bandeirante Raposo Tavares, dono de uma fortuna estimada em…”

Com mil diabos!

A verdade dói, mas alguém tem que dizer isso: o papel do historiador não é o de contar histórias em rodapé de estátuas.

A estátua é para ser “lida” enquanto vista, ela existe como uma narrativa em si mesma, isso é da natureza das estátuas; elementar! 

Às vezes é preciso dizer coisas óbvias para pessoas muito sabidas, porque elas estão ocupadas demais pensando em coisas muito complicadas.

E outra, o site da prefeitura de São Paulo descreve assim a festa de inauguração dessa escultura que homenageia um criminoso. “A inauguração do gigante de pedra e concreto integrou os festejos do IV Centenário de Santo Amaro. Além de discursos, Borba Gato foi saudado por um desfile com os tradicionais Romeiros de Pirapora, populares vestidos de bandeirantes, índios e damas antigas, carros de boi e uma canoa como as usadas pelos bandeirantes. Um show com artistas do rádio e da TV encerrou a festa.”

Como se vê, O evento deixa claro que a estátua não está ali para nos ajudar a compreender a História, ela foi erguida com a nítida intenção de distorcer a História:

Abaixo todos os Borbagatos.

À Revolução Periférica, um brinde.

Não haverá trégua aos racistas.

Oremos ao senhor.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum

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Lelê Teles

Formado pela Universidade de Brasília, Lelê Teles é jornalista, roteirista e publicitário. É roteirista do programa Estação Periferia (TV Brasil) e da série De Quebrada em Quebrada (Prodav 09). Sua novela, Lagoas, foi premiada na Primeira Bienal de Cultura da UNE. Discípulo do Mestre Cafuna, prega o cafunismo, que é um lenitivo para a midiotia e cura para os midiotas.

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