Fala que eu discuto

Lelê Teles Formado pela Universidade de Brasília, Lelê Teles é jornalista, roteirista e publicitário. É roteirista do programa Estação Periferia (TV Brasil) e da série De Quebrada em Quebrada (Prodav 09). Sua novela, Lagoas, foi premiada na Primeira Bienal de Cultura da UNE. Discípulo do Mestre Cafuna, prega o cafunismo, que é um lenitivo para a midiotia e cura para os midiotas.

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04 de novembro de 2016, 12h00

fragmentos de uma rave cívica

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meu vizinho comprou um food truck e deixou na minha garagem, ele teve que viajar para Angola onde dirige um documentário; roteiro meu.

no domingo, eu afinzaço de ver de perto as manifestações e entrevistar alguns revoltados, tive uma ideia inusitada.

preparei uns quitutes com minha esposa e minha filha, botei um avental, um chapéu de osso de cachorro, entrei no truck e fui para a avenida.

esse era o meu disfarce para participar daquela farsa.

minha esposa, que é peruana e chef de cozinha, fez ceviche. eu, que sou oportunista, fiz coxinhas gourmetizadas.

foi um sucesso.

meus primeiros clientes foram dois super heróis: um alucinado travestido de Batman e outro, de verde-amarelo, mas com as vestes do Capitão América.

coxinhas, cara, queremos coxinhas, disse o Homem-Morcego.

com pimenta ou sem pimenta, senhor?, perguntei.

é vermelha, a pimenta é vermelha, indagou-me o Capitão América do Sul, assustado e defendendo-se com seu escudo.

vermelha, não, gritou o Batman; o senhor é comunista?

consumista?, perguntei, fingindo-me de desentendido.

duas Coca-Colas e duas coxinhas, gritou uma senhorinha esticando uma nota de 50 lascas. pegou o produto e foi embora, não perguntou quanto custava e nem se tinha troco.

vi uma porrada de gente tirando selfies com os militares, mulheres se despindo para exibir as cirurgias dos seios, muitos cartazes com erros grosseiros de ortografia, algumas coisas escritas em inglês macarrônico, cachorrinhos de pulôver, crianças mostrando o dedo médio para as câmeras… uma loucura.

nenhum negro.

tem coxinha de quê, senhor?, perguntou um skinhead com uma suástica tatuada na cabeça.

frango com buquê de damasco, bacalhau orvalhado de pitanga, picanha do príncipe com gotículas de sangue azul, e a tradicional coxinha de ossobuco salpicado de tomilho do mediterrâneo, meu caro patriota.

o skin se exaltou: ossobuco, cara. preciso de energia. quero chutar a cabeça de um comunista hoje. esses filhos da puta favelizaram o Brasil, esses vermes conseguiram em 12 anos destruir o que levamos 500 anos para construir; por que não vão morar na União Soviética?

outra voz se fez ouvir a seu lado: os militares não mataram Zé Dirceu, e olha no que deu. aquele sequestrador sequestrou a nação, nos fez de reféns. latiu um velhinho, usando uma máscara do Pequeno Kim.

não mataram Dilma, veja como o país está. retrucou sua consorte – também com a máscara do Kataguiri – deixaram Lula solto e ele assaltou a Petrobras. por isso que eu sou a favor da chacina, bandido bom é bandido morto.

todos pareciam querer falar qualquer coisa, estavam atacados pelo mal da midiotia. outra voz salta da multidão:

a ditadura errou feio, se tivessem fuzilado todos esses comunistas, eles hoje não estariam dando trabalho para a nação. emendou um jovem fantasiado de Harry Potter.

um viking ruivo, barbudo, trazia na camiseta a frase 100% BRANCO e um cartaz contra as cotas nas universidades.

o senhor é contra as cotas, perguntei?

o senhor é a favor?, respondeu-me o pretenso escandinavo com uma pergunta cheia de ódio. tem algum negro aqui? o senhor tá vendo algum negro aqui? os negros são todos comunistas, Cuba é um país de negros, em Angola os negros comunistas tomaram o poder, Mandela é comunista, Obama é um desgraçado comunista…

fiz cara de paisagem.

me diga uma coisa, o viking parecia espumar pela boca, o senhor seria atendido por um médico negro, um médico cubano? aqueles desgraçados comunistas que não tomam banho?

a namorada dele, de cabelos vermelhos, toda tatuada, chamou o viking racista para tirar uma selfie com uma loira jovem fantasiada de Estátua da Liberdade.

pelas barbas de Bin Laden, pensei.

a senhora quer provar o ceviche, Lena perguntou para uma senhorinha de echarpe, ventarola, óculos Prada e cartaz pedindo Morte à Dilma.

coisa chique.

ceviche não é aquele prato da Venezuela, ou de Cuba?

não, senhora. é peruano. disse Lena com seu fenótipo inca. mas o Peru também não é comunista, não é o país daquele índio, Gonzales ou Morales, como é mesmo o nome?

a senhora vai adorar nossa coxinha, cortei a conversa.

tem coxinha?, claro que quero, meu filho; eu sou coxinha. kkkkkkkk; gargalhou smartphonicamente.

o pessoal foi se juntando e seguindo o truck, muitas camisas da CBF, instituição corrupta até a medula.

um jovem com a camiseta do Neymar, o craque metido em maracutaias, trazia um cartaz contra a corrupção.

ao pegar sua coxinha com Coca-Cola pespegou: enquanto aqueles lixos esfomeados marcham por um pão com mortadela, a gente compra o nosso próprio lanche, porque aqui é elite, meu irmão. chupa comunistas.

gritou hashteguicamente.

em certo momento, me empolguei com aquela euforia toda e botei uma música do Lobão pra tocar, Vida Bandida: uma multidão passou a seguir o truck fazendo coreografias. virou uma espécie de food truck elétrico.

em coro, gritavam em volta do caminhão: coxinha, coxinha, coxinha…

eu estava me sentindo uma espécie de Bel Marques dos midiotas.

uma socialite me convidou para fazer o catering de sua festinha particular, um senhor queria saber a receita da coxinha de ossobuco, o outro perguntava se eu queria vender o truck.

vi que tava na hora de sair fora.

essa cínica Rave Cívica é um circo com animais. bem alimentados, bem vestidos, bem empregados, do que essa gente tem ódio? o que perderam, o que deixaram de ganhar?

é tudo um teatro absurdo, uma ópera-bufa: a madame vai à varanda e bate panela, depois senta-se no sofazão retrátil e vai ver a novela.

palavra da salvação.


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