Fala que eu discuto

Lelê Teles Formado pela Universidade de Brasília, Lelê Teles é jornalista, roteirista e publicitário. É roteirista do programa Estação Periferia (TV Brasil) e da série De Quebrada em Quebrada (Prodav 09). Sua novela, Lagoas, foi premiada na Primeira Bienal de Cultura da UNE. Discípulo do Mestre Cafuna, prega o cafunismo, que é um lenitivo para a midiotia e cura para os midiotas.

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26 de outubro de 2016, 13h21

FRAGMENTOS OLÍMPICOS

por deus, disse uma voz à minha nuca, morria e não sabia que cléo pires era cotôca.
não fale assim, cutucou a moça ao lado, constrangida.
o ônibus tava cheio e as duas viam uma notícia pelo celular.
estiquei meu pau de selfie e deixei o celular desligado, para espelhar as fofoqueiras atrás de mim, curioso.
a fã de cléo pires tinha um enorme decote em V, um busto apojado e os cabelos tingidos de amarelo.
a colega, de sorriso amarelo, seguiu com a prosa.
gente, e esse gatinho do vilhena, coitado. deve ser difícil ter que viver com uma perna assim. pelo menos a dele deve ser de marca, né? deve ter custado caro?
o que diabo estão a dizer essas senhoras?, pensei comigo. recolhi o pau de selfie, e consultei pai google: “cléo pires, vilhena…”
bingo.
tava lá a foto. cléo e vilhena fantasiados de atletas paralímpicos. uma sem o braço, outro sem a perna.
com mil diabos, pensei.
então percebi um murmúrio dentro do busão. todos, até o motorista, olhavam no celular e faziam comentários com os estranhos.
por isso ela nunca fez papel de mãe, só faz papel de piriguete, porque como ela ia ninar uma criança?, perguntou a gordinha entalada na roleta.
esse menino quando fez malhação tinha as duas pernas, deve ter sido tubarão, ele é chegado num surf e numa maconha, disse o motorista.
alguém falou em maconha?, perguntou, sobressaltado, um rastafari que cochilava com a cabeça colada na janela do ônibus.
exemplo de superação, minha filha, quem tem fé supera tudo. esses aqui eram atores, ficaram paralíticos e agora são atletas, pra deus nada é impossível, afirmou a moça de vestido longo, cabelo longo e face pálida.
deixe jesus fora disso, minha senhora, atacou o baixinho com uniforme de frentista. jesus nunca curou um amputado.
roberto carlos é amputado, gritou o cobrador.
roberto carlos parou de jogar?, perguntou a gordinha da roleta, espantada.
não, senhora, o perneta é o roberto cantor, ele e o wagnar mondes.
quem é wagner mondes?, perguntou o pré-adolescente vendedor de bala.
oxe, assanhou-se o rasta. agora eu pergunto, se roberto carlos fez música pras baleias, pros meninos, pra jesus cristo, pros caminhoneiros e pros taxistas, fez música pras gordinhas e pras coroas, por que ele nunca homenageou os deficientes como ele?
a pergunta do maluco sacudiu o busão.
todos opinaram.
roberto carlos bem que poderia abrir os jogos paralímpicos, sentenciou o PM, em pé e escorado na porta traseira. já pensou, seguiu o meganha, um rei aleijado e brasileiro, que exemplo pro mundo?
nunca vi roberto carlos de sunga, então é isso, como a tv mente pra gente, meu deus. benzeu-se uma senhora com uniforme das casas bahia.
um sujeito que tentava enfiar os dedos na bolsa de uma senhora aplaudiu o homem da lei: tô com o cara da farda aí, e digo mais, o mascote dos jogos tinha que ser o saci. o saci é o nosso primeiro herói paralímpico.
nesse momento, o ônibus fez uma curva fechada. o malandro caiu no colo do PM, a gordinha se desentalou da roleta, o rastafraude ficou com meio corpo para fora da janela e eu quase engoli meu pau de selfie.
em questão de segundos estavam todos em silêncio e em seus lugares.
transexual é atleta paralímpico, moço, já que eles amputam um membro?, perguntou-me a adolescente ao meu lado que até então ficara em silêncio.
em silêncio, puxei a cordinha, me levantei e saí fora daquele manicômio de midiotas.
as pessoas já não sabem o que é realidade e o que é ficção. o que é verdade e o que é mentira.
o que é maquiagem, o que é photoshop, o que é ruga e o que é botox.
são uns autômatos, descerebrados, marionetes, joguetes do midiotismo.
são tempos trevosos.
é um mundo povoado por zumbis caçadores de pokémons.
desci e fiquei olhando o ônibus partir, por um instante vi que todos estavam vestidos como o espantalho do mágico de oz.
todos sem cérebro.
como cléo e vilhena.
palavras da salvação.images-cms-image-000513747

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