Jornalista do Intercept ataca Jones Manoel e sugere que ele não teria capacidade para participar do Roda Viva

Leia no blog Fala Que Eu Discuto, de Lele Teles: Amanda Audi chamou o historiador, que virou inspiração de Caetano Veloso, de "treteiro de redes sociais" e, depois, pediu desculpas

Quando as estátuas de invasores, estupradores, saqueadores e escravocratas – criminosos, em suma -, começaram a ser balançadas mundo afora, pelas mãos negras da multidão, homens e mulheres brancos e burgueses se agarraram aos bonecos, como se defendessem a própria vida.

Não adiantava dizer que essas figuras das estátuas são uma afronta contra o povo escravizado. Os brancos usam a retórica de que são apenas elementos estéticos que retratam a história.

Eles nunca conseguem entender que esses elementos estéticos retratam um lado terrível da história e, por isso mesmo, devem ruir.

Ninguém jamais imaginaria uma estátua de Napoleão, cavalo com patas ao ar, bem no centro de Madri. Mas ali você pode encontrar, facilmente, uma estátua de Pizarro, num gesto bizarro de esmagar a cabeça de um centro-americano.

Quando são eles que contam a história, sob a perspectiva deles, tudo vale. Agora, se alguém tenta rediscutir a história, revisá-la, desmitificá-la e, mesmo, reconstruí-la, aí a porca torce o rabo.

Tem um cara que está a fazer isso, ele é o professor Jones Manoel, que se autodefine como marxista, antiliberal e revolucionário. O mais intrigante é que as pessoas não estão incomodadas com Jones porque ele diz o que diz, mas sim para quem ele está dizendo. Porque ele tá aí na periferia do Youtube há algum tempo, falando para os seus e, por isso mesmo, sem ser incomodado pela “elite branca”.

O fato de um dos maiores símbolos da cultura pop latino-americana, o cantor e compositor Caetano Veloso, ter dito na Rede Globo, na cara do ex-apresentador do BBB, que não é mais um “liberalóide” graças aos ensinamentos aprendidos com um jovem negro e nordestino, mexeu com os brios do andar de cima. Sentiram as estátuas tremerem.

Caetano falava que Jones Manoel lhe apresentou a obra de Domenico Losurdo, crítico ferrenho e bem fundamentado do liberalismo, e mais, Caetano pediu para as pessoas lerem Losurdo e lerem e assistirem Jones Manoel. O que retirou Jones da periferia midiática e o lançou ao centro do debate. Por isso ele está a ser atacado: primeiro pelo Guga Chacra, lá dos Estados Unidos, agora pela jornalista branca do The Intercept Brasil, Amanda Audi.

Os jornais sempre falaram bem, quando falaram, do Chavoso da USP, afirmando que o jovem está popularizando o conhecimento, trazendo autores acadêmicos para a conversa informal da periferia. Ou seja, Chavoso é até charmoso por estar onde está, e continuará sendo até que ele resolva sair da periferia.

Jones Manoel, por ter dado esse salto triplo como um João do Pulo, começa a ser desqualificado pelos defensores de estátuas.

Guga o chamou de stalinista, um apelido, uma aleivosia para tentar jogá-lo aos leões bolsnonaristas. Agora, a jornalista do Intercept, de maneira igualmente covarde, chama Jones de “treteiro de redes sociais”.

O diabo e quem está a criar a treta no Twitter é ela. A grita de Amanda é que o nome de Jones começou a ser cotado por internautas para uma entrevista no Roda Viva, e isso foi demais para a jornalista. O cotovelo doeu, ela duvidou da capacidade do professor para responder perguntas. Frantz Fanon falava que o negro é uma construção do branco, e que não é penas uma construção epidérmica, ela é ética, estética e ontológica, cria-se uma ser quase humano, porém incivilizado e incivilizável. E era disso que Amanda falava.

Jones recebeu um print do tuíte de Amanda e comentou: “Nos últimos minutos, várias pessoas me mandaram esse print. Procurei o comentário e não achei. Tenho dúvidas se ela apagou ou se é montagem de alguém. SE FOR REAL, temos altas doses concentradas de elitismo, soberba, canalhice e outras coisas muito bem trabalhadas por Fanon…”

Esse Fanon é Frantz Fanon (1925-1961), psiquiatra da Martinica que trabalhou os conceitos de descolonização e alienação, tentando libertar o negro das armadilhas conceituais da colônia.

Amanda, como Guga, não falou dos livros lançados pelo professor pernambucano, e nem disse nada sobre as ideias antiliberais que ele anda a ventilar por aí, restringiu-se, como Guga, a colocá-lo um apelido, a tentar desqualificá-lo para o debate. Na verdade, ela estava se debatendo por conta da grandeza das ideias do jovem.

Tal qual Guga Chacra, Amanda foi colocada contra as cordas, e apanhou dos internautas sem piedade. Ela, então, decidiu pedir desculpas:

Mas a internet não perdoa. Muitos viram hipocrisia no pedido de desculpas da jornalista. “Depois que inventaram a desculpa, nunca mais ninguém morreu”, disse um internauta, citando Mano Brown. A socióloga Sabrina Fernandes lembrou a Amanda quem é Jones Manoel:

Amanda, então, decidiu ir mais uma vez ao Twitter, e dessa vez ela pediu desculpas por ter pedido desculpas, e usou isso como mais uma desculpa.

E o fio foi se estendendo:

Por essas e outras, Jones vai continuar incomodando. Ele é o cara que mete o pé na porta, e como ele disse à Fórum, não vai levar o debate para o raso, para o rasteiro.

Mas há quem queira.

*aqui eu falo sobre os defensores de estátuas:
https://revistaforum.com.br/blogs/falaqueeudiscuto/cancela-sim-cancela-geral/

*E aqui sobre a treta com Guga Chacra:
https://revistaforum.com.br/midia/jones-manoel-rebate-guga-chacra-visao-idealista-falsa-mentirosa-e-cinica-sobre-o-que-e-o-mundo/

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum

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Lelê Teles

Formado pela Universidade de Brasília, Lelê Teles é jornalista, roteirista e publicitário. É roteirista do programa Estação Periferia (TV Brasil) e da série De Quebrada em Quebrada (Prodav 09). Sua novela, Lagoas, foi premiada na Primeira Bienal de Cultura da UNE. Discípulo do Mestre Cafuna, prega o cafunismo, que é um lenitivo para a midiotia e cura para os midiotas.