quarta-feira, 28 out 2020
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O DIA DA ÁRVORE, O PAU-BRASIL E O BRASILEIRO

Confira no blog Fala Que Eu Discuto, de Lelê Teles, uma reflexão sobre a data

“a vida é isso, enquanto uns se encontram, outros se acham”; disse-me a amiga, que acabara de chegar da terapia. “e como vai a desconstrução do machista que há em você, esse negócio que você chamou de desmachificar?”

falei que o conceito está se estendendo, cada um tem procurado matar o monstro que habita nas regiões profundas do seu inconsciente: tem o racista esganando seu alter ego nazistóide, abusador dando chicotadas na sua propensão a abusar, lgbtfóficos desmonstrificando-se…

ela mostrou-me a gravura do jequitibá que eu lhe dei de presente e que agora tava emoldurado.

“hoje é dia da árvore, alguma palavra sapiencial sobre as árvores? tenho pensado numa coisa depois de ver esse ecocídio, tanta devastação, tanta queimada… por que diabos não temos pudor nem escrúpulos em desmatar, por que o brasileiro não tem pelas árvores o amor que tem pelos animais?”

olhei para o pé de pau-brasil que ela cultiva num vaso em seu apartamento, ladeado por ervas e begônias e tive um insight: “ora, querida, por isso mesmo, por que somos brasileiros?”

“e o que tem isso a ver?, perguntou-me.

então, eu formulei esse raciocínio, enquanto ela sugava uma capirinha de mangaba:

perfilado em um tronco rubro como brasa, exibindo uma copa frondosa e verdejante que se traveste, vez por outra, por uma exuberante floração amarela, o pau-brasil atraiu a ganância de franceses e portugueses que o extraíram, com uma compulsão predatória, até a sua quase absoluta extinção.

milhões de toneladas foram levadas para as as estranjas no além-mar.

ali, a matéria-prima era convertida mobília, instrumentos musicais e seu sangue seivoso suava em pigmentos para tecidos.

os traficantes, cegos em sua traficância, arrancariam até a última árvore para alimentar o seu vício por dinheiro e a viciante vaidade de seus patrícios e vizinhos.

fizeram como aquele caraíba imaginado por voltaire, o silvícola que vendia seu colchão pela manhã e, à noite, chorava por não ter mais onde dormir.

abundante na mata atlântica, após a chegada dos invasores, o pau-brasil passou de dezenas de milhões de unidades para raríssimos espécimes encontrados em reservas.

um detalhe muito importante, os lenhadores portugueses que aqui chegavam exclusivamente para arrancar a árvore, eram chamados de brasileiros.

perceba que o sufixo -eiro, foi forçadamente convertido num gentílico, mas antes era um sufixo que determinava uma função e não o pertencimento a um lugar.

ou seja, pegaram o brasil, que era o nome da árvore, e usaram como um étimo (a raiz etimológica, o radical da palavra).

ora, se a função era ser um lenhador de pau-brasil, logo o cabra que desempenhava essa função só poderia ser chamado de brasileiro.

não se esqueça de que chamamos de seringueiro os que trabalham no seringal.

todos sabemos que na língua portuguesa o sufixo -eiro determina uma função: o padeiro trabalha com o pão, o cabeleireiro com o cabelo, o ferreiro com o ferro, o marceneiro com a madeira, o barbeiro faz a barba e o taberneiro vende pinga na taberna.

ou seja, brasileiro não é um gentílico, é uma profissão.

atentai bem.

a marca do gentílico em português é -ino, -ano, -ense, -ês, -enho, -ol… nunca -eiro. não chamamos ninguém de -eiro, chamamos de americano, canadense, francês, argentino, espanhol.

e ninguém tem o despudor de nos chamar de -eiro, já que isso não é gentílico em língua nenhuma. em inglês somos brazilianos, em espanhol somos chamados de brasilenhos, e por aí vai.

portanto, carregamos um fardo atávico, que influi em nosso ethos, que se aloja em nosso sistema cognitivo e que talvez se manifeste em nossa tradição cultural modificando comportamento, nos transformando, todos, em lenhadores, despudorados arrancadores de árvore.

o brasileiro é aquele que arranca uma árvore da calçada para plantar cimento, que todos os anos, no mês de junho, faz a festa da queima de árvores; se vamos construir uma praça, abrir uma rua nova, instalar um posto de gasolina, terá sempre uma árvore a nos “atrapalhar”, a solução, desde sempre, é se livrar dela, e gritamos gargalhantes sempre que vemos uma árvore vir abaixo. madeeeeria.

a motosserra parece uma invenção nossa.

no Brasil, uma floresta vem abaixo e vira pasto.

e as aves, e as árvores? quem se importa! às vacas, coitadas, não lhes deixam um único pé de sombra. o gado pasta longos prados com o sol a chicotear-lhe o lombo. arrancamos as árvores da beira de rios, córregos, riachos e ribeirões, e depois choramos quando os leitos secam, quais os caraíbas de voltaire.

as matas ciliares, para o brasileiro, são somente lenha. jogamos os troncos na carvoaria, depois matamos o gado e com os dois fazemos um delicioso churrasco. só que no final, sem matas, não teremos água, nem gado, nem carvão, nem churrasco.

essa força atávica, que trazemos em nossa definição como povo faz com que, até hoje, quase seis séculos depois, seguimos sendo o paraíso dos madeireiros. toneladas de árvores continuam sendo extraídas de nossas matas, o macho branco segue sua traficância pelas florestas: mandam e desmandam; matam e desmatam.

ah, mentira minha, usamos sim o sufixo -eiro como falso gentílico em um outro caso.

mas ele é a confirmação dessa teoria, pois é igualmente a marca de uma função: falo do “mineiro”.

o que diabo é um mineiro senão aquele que, desde há muito, trabalha nas minas gerais a escarafunchar a terra e a extrair dali, até a exaustão, o seu minério?

palavra da salvação.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum

Lelê Teles
Lelê Teles
Formado pela Universidade de Brasília, Lelê Teles é jornalista, roteirista e publicitário. É roteirista do programa Estação Periferia (TV Brasil) e da série De Quebrada em Quebrada (Prodav 09). Sua novela, Lagoas, foi premiada na Primeira Bienal de Cultura da UNE. Discípulo do Mestre Cafuna, prega o cafunismo, que é um lenitivo para a midiotia e cura para os midiotas.