Fala que eu discuto

Lelê Teles Formado pela Universidade de Brasília, Lelê Teles é jornalista, roteirista e publicitário. É roteirista do programa Estação Periferia (TV Brasil) e da série De Quebrada em Quebrada (Prodav 09). Sua novela, Lagoas, foi premiada na Primeira Bienal de Cultura da UNE. Discípulo do Mestre Cafuna, prega o cafunismo, que é um lenitivo para a midiotia e cura para os midiotas.

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13 de janeiro de 2017, 12h35

sobre severinos e mick jaggers

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você sabe, o velho mick trabalha cercado de pessoas que o bajulam.
 
no mundo inteiro formam-se filas de crianças, jovens e idosos para assisti-lo trabalhar.
 
jornais e revistas o cercam, paparazzi se acotovelam para clicá-lo e, por causa do seu trabalho, ele é um dos cabras mais ricos da inglaterra.
 
jagger trabalha até hoje.
 
talvez por esse único detalhe, a revista, que recebe verba grossa do governo federal, o colocou na capa.
 
com uma chamadinha malandra.
 
é pra tentar ludibriar os incautos, dizer que se aposentar é coisa de careta e de preguiçoso.
 
diz que o roqueiro sênior representa uma nova era do trabalho.
 
veja você.
 
receita da felicidade?
 
é só o midiota seguir, à risca, o ritual do bocudo da língua grande que, aos 73 anos, todo santo dia, acorda às cinco da matina, prepara sua marmita, pega três conduções e dá bom dia ao chefe quem nem lhe responde.
 
quem não gostaria de trabalhar assim até o dia da morte?
 
tô vendo um cabra descarregar um caminhão de areia grossa aqui em frente, debaixo de um sol de esfolar o lombo.
 
não há um bebedouro à vista, ele trabalha só e em silêncio.
 
ninguém dá a mínima pra o que ele está a fazer.
 
quando terminar o seu trabalho, ao contrário do cantor longevo, ninguém irá aplaudi-lo ou lhe pedir autógrafos.
 
penso nos milhares de miseráveis que ganham o pão de cada dia cortando cana, construindo casas, asfaltando rodovias debaixo do sol quente.
 
penso nos milhões de brasileiros voltando do trabalho exaustos, em pé, no buzão ou no metrô, sofrendo esfregação de tarados, sendo espremidos em vagões, ficando entalados em roletas cada vez mais estreitas…
 
imagino essas criaturas, aos 73 anos, plenas de vigor, anabolizadas pelo exemplo do roqueiro inglês, a descarregar engradados de cerveja madrugada a dentro, capinando um lote às três da tarde, de joelhos na cerâmica fria a esfregar o piso da madame, carregando dois sacos de cimento nas costas…
 
e tudo isso rebolando e fazendo caras e bocas.
 
não, não vai rolar.
 
a verdade é essa: enquanto uns rebolam, outros dançam.
 
aos 73 anos, os severinos sentem todo o peso do mundo em suas costas.
 
o que a revista exame fez, ao comparar a longevidade laboral de jagger com a a exíguas forças de nossos exangues trabalhadores mal nutridos, é propaganda institucional disfarçada de jornalismo.
 
e um escárnio contra pedreiros, padeiros, porteiros, estivadores e afins.
 
o que tem essa gente a ver com mick jagger, deus dos invernos?
 
nádegas.
 
palavra da salvação.

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