Fala que eu discuto

Por lelê teles

Fórum Educação
13 de Maio de 2020, 19h26

Reflexões sobre escravizadores e escravizados

Se o lugar de fala fala muito sobre a pessoa que está a falar, o que temos falado a partir do lugar em que estamos falando?

Luiz Gama, nasceu livre, foi vendido pelo pai português para pagar dívida de jogo. Provou sua liberdade, tornou-se rábula e ajudou a libertar outras centenas de escravizados. Figura-chave do movimento abolicionista, só foi reconhecido como advogado 133 anos depois de sua morte.

“o escravo que mata o senhor, seja em que circunstância for, mata sempre em legítima defesa “ Luis Gama

“o descendente de escravizado que esfrega na cara do descendente de escravizador seus privilégios infames e indevidos, o faz, sempre, em legítima ofensa” Lelê Teles

é bom que se diga, os descendentes de escravizadores ainda mandam e desmandam, matam e desmatam.

e é preciso falar sobre isso.

a chamada guerra no campo, que em verdade é um massacre, se dá pela simples razão de que, no Brasil, as terras devem estar nas mãos dos brancos, e somente nas mãos sujas de sangue deles.

para isso eles compram, invadem, grilam ou tomam à força da bala ou da lei.

a cada dia, índios e quilombolas perdem mais e mais glebas, até que os brancos, finalmente, se assenhorem de tudo.

é uma continuidade do regime escravocrata, é ainda a lógica da invasão travestida de descobrimento, segue sendo a herança maldita do ser que se quer superior e dono do mundo.

e não tem como falar em herança sem falar em herdeiros.

é interessante observar que a sociedade sempre aponta, nomeia e conceitua quem são os descendentes de escravizados.

e o fazem para que estes internalizem uma noção deletéria e pejorativa de si mesmos, carregando eternamente um fardo que os reduzem a um certo período da história, prendendo-os a uma armadilha epistemológica que é mais ideológica que histórica, legando a essas pessoas uma espécie de ontologia forçada, um ethos artificial e ajustado às conveniências.

no entanto, se apontamos, sempre, quem são os descendentes de escravizados, nunca nomeamos os descendentes de escravizadores, não com essas palavras, como se estes não existissem, como se tivessem, todos, zarpado nas caravelas de volta à velha metrópole.

é um vergonhoso e desavergonhado simulacro, um mecanismo cínico de acobertamento.

porque sabem, estes silentes dissimulados, que os descendentes de escravizadores, estes sim, carregam um fardo deletério.

porque herdaram de seus ascendentes os privilégios, que encaram, cinicamente, como destino natural ou mérito, atribuindo a si mesmos um determinismo social disfarçado de determinismo biológico.

é por esse motivo, e não por nenhum outro, que os descendentes de escravizadores devem ser colocados em seus devidos lugares.

vivem, acriticamente, a perpetuar os mandos e desmandos de seus ascendentes.

o bolsonarismo, hoje, esfrega isso na cara de todos nós e um bom exemplo é a carreata dos empregadores a forçar seus empregados a voltarem ao trabalho.
as auto conceituadas pessoas e super-pessoas determinando que as não-pessoas voltem a servi-las em tempos pandêmicos, mesmo que para isso essas invisíveis não-pessoas tenham que arriscar a própria vida.

tratados como uma ferramenta de trabalho, a vida desses semoventes de nada importa, deles só se espera trabalho e o lucro que dele deriva.

ora, é preciso desatar esses nós e atarmo-nos a nós. 
a invisibilidade é uma condição imposta, é necessário não aceitá-la, portanto.

se o lugar de fala fala muito sobre a pessoa que está a falar, o que temos falado a partir do lugar em que estamos falando?

estamos no lugar que escolhemos estar? é meu este lugar, ele pertence a mim ou sou eu quem pertenço a ele?
uma comunidade desassistida pelo poder público não é, em síntese, um não-lugar? não querem nele os Deficientes Cívicos, seres alijados de direitos sociais?
qual é o lugar de fala do descendente de escravizador? a casa própria, o carro próprio, a propriedade que a lei protege e defende mais que a vida dos desassistidos! 
e sobre falar? falamos o que desejamos falar ou estamos a falar só o que nos é permitido? podemos falar tudo o que nos engasga sem correr o risco de sermos esbofeteados em praça pública? 

pergunto: quem são os descendentes de escravizadores e o que isso diz sobre eles?

e mais num digo.

palavra da salvação


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