Fala que eu discuto

Lelê Teles Formado pela Universidade de Brasília, Lelê Teles é jornalista, roteirista e publicitário. É roteirista do programa Estação Periferia (TV Brasil) e da série De Quebrada em Quebrada (Prodav 09). Sua novela, Lagoas, foi premiada na Primeira Bienal de Cultura da UNE. Discípulo do Mestre Cafuna, prega o cafunismo, que é um lenitivo para a midiotia e cura para os midiotas.

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06 de dezembro de 2016, 11h37

sobre bardotos, muares e alfafas

estábulos unidos do Brasil, a que ponto chegamos!

farei como no Gênesis, começarei pelo princípio.

domingo de sol, início de tarde.

tomo a minha dose diária de canabidiol, misturando Chopin com chopinho.

até que, da varanda, ouço um tropel se aproximar da orla: pocotó, pocotó, pocotó…

com mil diabos, pensei.

curioso, ergo a cabeça para fora da rede, como um suricato.

alá eles, um bando de fi d’uma égua vestido de verdeamarelo: rezando, cantando o hino e marchando.

tudo com a crina polida e o rabo tosado.

eram os mesmos analfabetos políticos de outrora: o casal com a babá e o bebê, o Batman do Leblon e outros super heróis de araque, os fascistas mirins que organizam raves cívicas e os velhacos idosos cheios de ódio a gritar palavrões.

em um carro de som, um grupo de marmanjos – todos homens – gritava contra o aborto: defendemos o feto, o embrião, a célula, o átomo, a vida…

eu pensei em chamar os amigos e promover um punhetaço na orla, pra ver esses caras chorando pelo esperma derramado.

afinal, o que querem esses celerados? não ouço um rufar de panelas há meses? peguei a luneta que uso para ver estrelas no céu e bundas na praia e fiz um check list nas faixas e cartazes.

huummm.

nada de fora Temer. nem um pio sobre o aumento da pobreza e do desemprego. nenhuma gota de tinta foi gasta como solidariedade às milhares de pessoas que estão voltando a viver na miséria.

famílias endividadas, cortes no bolso família, desvirtuamento do Minha Casa…

os brancos não se dignaram a se indignar contra o estrangulamento dos irmãos pobres e pretos.

huummm.

continuei farejando, como um perdigueiro. agora perscrutava faixas, cartazes, adesivos, implantes e artes em camisetas.

entrega do pré-sal para os gringos? nada.

queda na produção agrícola? nada.

algo sobre a destruição da indústria nacional? nádegas.

não li uma linha sobre depressão econômica, retração do PIB, sucateamento da educação.

limpei a lente, agucei a visão e procurei alguma coisa sobre o que já se ouviu da super delação da Odebrecht: Serra 23 milhões de lascas nas estranjas, o Jaburu recebendo propina no palácio, Gato Angorá pego com a boca na botija, Geddel obrigando o chefe a cometer um crime de responsabilidade, Aécio “o mais chato”, o Santo da opus dei, Padilha e Jucá envolvidos até o pescoço…

nadica de nada sobre nenhuma dessas questões.

troco os olhos pelos ouvidos. ouço relinchos vindo de carros de som. e muitos dos que relincham lincham Renan.

dizem que o projeto contra abuso de autoridade, que visa punir juízes, procuradores e promotores, é para acabar com a lava jato.

o que é um delírio, esse projeto tramita a uns sete anos na Casa do Povo e serve, entre outras coisas, para que um juiz metido a semideus não dê voz de prisão para uma guardete quando esta lhe aplicar uma multa por dirigir embriagado.

num recorte simplório, os equídeos afirmam somente que Renan quer mesmo é punir todos aqueles juízes de fala fina que cometem abusos na lava jato.

mas num é só ele não, amigos.

até o Gilmar Mendes quer botar um cabresto no focinho do Moro.

outro dia no Congresso, entre coices e patadas, Mendes disse que o caipira de toga está se achando “o ó do borogodó”.

disse isso na cara dele, inclusive.

não que o nosso Mendes tivesse tido ali um laivo de sabedoria, como se fora o próprio asno de Balaão.

pra mim aquilo é briga de muar e bardoto, refrega de ególatras da mesma cepa.

uma coisa me ficou clara, a rave cívica parecia dedicar-se à lava jato. fotos de Moro estavam para todos os lados.

Cunha e o Japa da federal dessa vez ficaram de fora, embora tenham sido grandes estrelas outrora.

li em algum lugar que entrevistando os coxas nas ruas, descobriu-se que o ato visava defender as 10 medidas contra a corrupção, mas que nem um único equídeo conseguiu relinchar quais seriam essas dez medidas.

queriam apenas tirar Renan, que se Renan saísse a corrupção acabava e a lava a jato continuava.

tudo indicava que a farra de rua visava jogar ainda mais o judiciário contra o legislativo.

e num é que Marco Aurélio, com aquela fleuma toda, apressou-se a ouvir o relincho das baias e botou Renan para fora da presidência do Senado?

assim, monocraticamente.

nem Cunha havia sido afastado por uma liminar tão vagabunda dessas.

Aurélio disse que ouviu as ruas. mas esse sacana deveria estar escutando o que diz a Constituição.

o diabo é que quando eram os progressistas que gritavam nas ruas – gritavam debaixo de cacete da polícia, inclusive – Aurélio não parecia escutar coisa alguma.

ouvido seletivo desse sujeito.

olha, do jeito que a coisa vai, faltará alfafas no mercado.

palavra da salvação.

 

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