Injeção na Testa

04 de julho de 2017, 19h15

O tal movimento antivacina

Por Mariana Duque

A polêmica

Numa época em que se tornaram rotina os debates acalorados e polarizados em redes sociais, o tema vacinação tem ganhado cada vez mais destaque no Brasil, principalmente após a recente decisão do Ministério da Saúde de prorrogar a campanha contra a influenza, devido à baixa adesão.

Chama atenção o perfil das pessoas que estão optando por não se vacinar ou por não vacinar seus filhos: a maioria tem ensino superior completo, se considera bem informada sobre assuntos relacionados à saúde, e acredita que boas condições sanitárias e alimentares a protege suficientemente das doenças infecciosas.

O Conselho Federal de Medicina (Brasil), o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (EUA), e a Organização Mundial de Saúde são algumas das organizações que emitiram comunicados se posicionando contra movimentos antivacina e alertando sobre potenciais consequências de baixas coberturas vacinais.

#teamvacina versus #foravacina

Quem decide não se vacinar usa como argumento o princípio bioético da autonomia, pelo qual as pessoas têm o direito de decidir (e de terem suas escolhas respeitadas) sobre questões relacionadas a seus corpos e suas vidas. O contraponto dos representantes da área da saúde é o de que uma escolha individual não poderia implicar num dano coletivo, uma vez que a baixa cobertura vacinal compromete o efeito chamado de imunidade de grupo: quando a vacinação em massa de uma comunidade interrompe a cadeia do processo infeccioso, protegendo inclusive quem não foi ou não pode ser vacinado.

É relevante lembrar que nem toda vacina provoca imunidade de grupo, há várias com efeitos apenas individuais, dentre elas a do tétano, coqueluche, difteria, e raiva. Cabe ressaltar também a importância de analisar todos os aspectos envolvidos em cada surto de doença infecciosa imunoprevenível: campanhas vacinais que não contemplam adequadamente populações marginalizadas e vulneráveis, bem como o efeito de vacinas que não se sustenta ao longo dos anos estão relacionados a vários dos surtos recentes.

Ou todas ou nenhuma?

Quando se reforça o discurso onde se coloca todas as vacinas como um grupo homogêneo, isso dificulta a ocorrência de um debate ético e construtivo. Há vacinas excelentes, altamente eficazes e com campanhas bem planejadas, como as que erradicaram a poliomielite nas Américas desde 1994, a rubéola no país desde 2008, e a transmissão autóctone (dentro do Brasil) de sarampo desde 2001.

Há vacinas como a da difteria e a da coqueluche, que estão entre as recomendadas universalmente, mas que perdem seu efeito após alguns anos, e muitas não têm ação contra todos os agentes envolvidos na transmissão das doenças. Isso faz com que ainda tenhamos um percurso de melhoria a percorrer nestes casos: revacinar mais vezes até conseguirmos vacinas com respostas imunológicas mais duradouras e mais eficazes. O que acaba não sendo muito divulgado é como estas limitações das vacinas e de suas campanhas influenciam (e muito) o surgimento de surtos de doenças infecciosas dos últimos anos, costuma-se colocar tudo exclusivamente na conta do movimento antivacinal.

Por fim, apesar de estratégias de marketing e lobby bastante agressivos, existem vacinas sobre as quais necessitamos de pesquisas bem conduzidas que comprovem todos os benefícios propagados, e que então justifiquem uma recomendação de vacinação universal. Dentre elas, podemos citar a da gripe e a do HPV.

Teorias da conspiração

O famoso estudo publicado na revista Science, que concluía que o aumento dos casos de autismo tinha relação com vacinação – e que é exaustivamente citado em sites – não se mostrou verdadeiro. Bem como, até o momento, não há comprovação científica de métodos fitoterápicos ou homeopáticos com resposta imunológica protetora que substitua a vacinal.

Como qualquer intervenção medicamentosa, vacinas não são 100% seguras nem 100% eficazes. Toda ação em saúde deve ser pautada pelos princípios da beneficência e da não maleficência, de modo a maximizar o benefício e minimizar o dano de uma intervenção. É essencial que seja socialmente acordado quando e como serão tolerados os danos objetivando um determinado benefício, e que esses acordos sociais sejam repactuados ao longo dos anos.

Numa conjuntura onde já presenciamos sucessivos exemplos de grandes corporações cometendo crimes motivadas por lucro, bem como de práticas controversas de governos visando o controle de seus cidadãos, é compreensível e até positivo que intervenções populacionais em saúde suscitem questionamentos e sofram de falta de legitimidade.

O que devemos exigir como cidadãos é uma vacinação ética: baseada em pesquisas científicas que não supradimensionem eficácia, fiscalizada por um sistema de vigilância farmacológica que não permita a subnotificação de efeitos adversos, e com transparência na divulgação de políticas sobre autorização, compra e inclusão de vacinas em calendários nacionais.


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