Injeção na Testa

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03 de agosto de 2017, 16h39

A onda da Vitamina D e o que você precisa saber

Afinal, qual é a questão com a Vitamina D? Por que os médicos medem essa vitamina no sangue? Ganhamos mais anos de vida (ou aumentamos a qualidade dela) quando suplementamos?

Por Nathália Cardoso*

“Dra., tenho uns exames aqui para checar, eu já dei uma olhada, tá tudo bem, exceto pela vitamina D, que está baixa”.

Foram (e são) incontáveis as vezes em que ouvi essa frase durante meus encontros com pacientes, a grande maioria deles jovens e saudáveis. Grande parte dessas pessoas tinha sido orientada a tomar algumas gotas dessa vitamina para reposição, mas quase nenhuma delas sabia me responder por que tinha sido orientada a fazê-lo.

Para prevenir câncer?
Para evitar resfriados?
Para manter a saúde?
Para fortalecer os ossos?

Afinal, qual é a questão com a Vitamina D? Por que os médicos medem essa vitamina no sangue? Ganhamos mais anos de vida (ou aumentamos a qualidade dela) quando suplementamos?

A Vitamina D é importante, pois ajuda na absorção de cálcio e fósforo, ou seja, na formação e manutenção dos ossos. Nos seres humanos, apenas uma pequena parcela da Vitamina D pode ser adquirida na dieta, sendo que a fonte principal está em peixes gordurosos de águas frias e profundas (como o atum e o salmão) e em alguns tipos de fungos e alimentos artificialmente enriquecidos. Mas a grande parte, na verdade, é produzida pelo próprio organismo, com ajuda de luz solar, principalmente dos raios UVB.

Ao longo da última década vários estudos observacionais sugeriram uma associação entre baixas doses de Vitamina D (25-hidroxivitamina D) e múltiplos transtornos agudos e crônicos, incluindo câncer, fraturas ósseas, infarto do miocárdio, AVC, esclerose múltipla, depressão e infecções do trato respiratório. Esta evidência promoveu a hipótese de que o aumento da ingestão de Vitamina D poderia tratar e prevenir tais distúrbios.

Com o argumento de que boa parte da população não estaria sintetizando Vitamina D o bastante, devido à pouca exposição à luz solar, iniciou-se a dosagem indiscriminada da 25-hidroxivitamina D e, como consequência, a suplementação diária para aqueles que não apresentavam níveis dentro do valor de referência do laboratório.

Segundo dados do National Health and Nutrition Examination Survey (NHANES), pesquisa norte-americana, a porcentagem da população usando Vitamina D em doses de 1.000 UI ou mais passou de 0,3% em 1999 para 18,2% em 2014. Em 2014, a prevalência de ingesta de 4000UI ou mais foi de 3,2%, valor que era inferior a 0,1% antes de 2005. O número é ainda mais impressionante quando se sabe que a dose diária recomendada é de 600UI para adultos menores de 70 anos. Segundos os especialistas, acredita-se que a ingesta de doses elevadas de Vitamina D pode levar a efeitos colaterais e representar danos à saúde. Os dados são daqui.

Ainda a respeito da reposição de Vitamina D, há quem questione sua prescrição em pessoas com taxas no sangue menor que 20ng/mL (representativos de insuficiência para a maioria dos laboratórios). Elas dizem que, para a maioria das pessoas, níveis entre 16 e 12ng/mL já seriam adequados para as necessidades básicas do corpo.

A verdade, no entanto, é que há pouca (ou quase nenhuma) evidência de que pessoas saudáveis se beneficiem de tal suplementação. Também devemos lembrar que o objetivo de qualquer tratamento não é o de deixar o exame dentro de seu valor de referência ou “bonito”, mas sim prevenir alguma complicação importante para o paciente, aumentar sua qualidade de vida ou o tempo de vida. Vamos elencar aqui alguns estudos recentes acerca dos efeitos da suplementação de vitamina D:

Desfechos clínicos gerais e bem-estar:

Em 2014, saiu um estudo no BMJ, um dos mais influentes e conceituados jornais de publicações médicas no mundo, que teve o objetivo de fazer uma grande revisão avaliando todos os possíveis efeitos, impactos e viéses da suplementação de Vitamina D, para diversos desfechos clínicos.

Buscou-se a relação da Vitamina D com mais de 137 problemas de saúde, incluindo questões ósseas, câncer, doenças autoimunes, infecciosas, metabólicas, entre outros.

Resultado? Não foram encontradas evidências convincentes de um papel claro da Vitamina D para nenhum resultado, ou seja, não há estudos com métodos adequados que comprovem o link direto entre doses elevadas e prevenção de enfermidades.

Um estudo mais recente, de 2016, feito pelo Journal of General Internal Medicine (JAGIM), coloca que a evidência não suporta o uso de suplementos de Vitamina D, em qualquer dose, para a prevenção de câncer, infecções respiratórias, artrite reumatoide, esclerose múltipla ou para melhorar a depressão e o bem-estar mental. Aponta, ainda, que não são necessários testes de rastreio em pessoas saudáveis (famosos check ups) e que doses elevadas podem, inclusive, aumentar os danos. O estudo alerta: a Vitamina D não é uma panaceia.

Prevenção de infarto agudo do miocárdio e acidente vascular cerebral (AVC):

Sobre risco cardiovascular, o Journal of the American Medical Association (JAMA) acabou de publicar, em junho de 2017, um estudo que incluiu mais de 5 mil pacientes e concluiu que a suplementação com Vitamina D não previne eventos como infarto e ou AVC.

Prevenção de Fraturas ósseas:

Uma revisão feita pelo The Lancet concluiu que a reposição da vitamina não apresentou efeito clinicamente significativo em evitar AVCs, infarto e câncer e também risco de fraturas ósseas. A redução destes eventos ósseos ficou abaixo de 15%, o que foi considerado pelo grupo que fez a pesquisa como um resultado sem grande impacto na saúde das pessoas. Além disso, dizem, por mais que surjam novas pesquisas, elas provavelmente não vão alterar estes dados encontrados.

Recomendações quanto a pedidos de exames para dosagem de 25-hidroxivitamina D:

A Força-Tarefa de Serviços Preventivos dos Estados Unidos (USPSTF), um painel independente que analisa evidências sobre ações preventivas em saude, pontua que a evidência atual é insuficiente para dizer se o rastreamento de rotina de deficiência de Vitamina D vale a pena.

Outra organização isenta, a Choosing Wisely, já citada no nosso blog, orienta que os médicos não relizem dosagem rotineira dos níveis de Vitamina D em pessoas saudáveis.

Lembrando que aqui estamos falando sobre pessoas sem doenças, sem sintomas. Existem condições especiais que podem justificar a dosagem e reposição de Vitamina D, como indivíduos de pele negra vivendo em países com muito pouco sol, ou algumas doenças, como problemas do rim em fase avançada.

Tudo isso para colocar, no fim das contas, que mais do que apontar a suplementação como desnecessária na manutenção da saúde, entender os caminhos, riscos e benefícios em torno de qualquer doença ou ação de prevenção evita a medicalização excessiva e o sobrediagnóstico, conceitos já abordados previamente no nosso blog AQUI.

Então, o que fazer em relação a tal da Vitamina D? Pratique uma atividade que dê prazer; tenha uma dieta variada e, de preferência, com bastante comida fresca, in natura e com poucos industrializados; tome sol e seja feliz.

*Nathália Cardoso é médica de Família e Comunidade pela FMUSP e feminista convicta. Defende a teoria de que café preto sem açúcar tem o poder de resolver quase todos os males do mundo.


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