Blog do Mouzar

21 de janeiro de 2019, 19h00

Leão-de-chácara, testa de ferro, maria-fumaça…

Você já pensou sobre a origem dessas expressões? Leia mais no Blog do Mouzar

De vez em quando vejo em bares, restaurantes e outros locais uns seguranças altos, fortes, mas mais gordos do que fortes, e imagino que se tiverem que correr atrás de alguém não aguentam cinquenta metros. Estão ali mais para marcar presença e intimidar, imagino. Numa situação “de fato”, não resolvem. Atualmente chamam esse tipo de profissional de “armário”, pelo seu porte, mas eu continuo chamando pelo nome antigo: leão-de-chácara.

Pesquisei e fiquei sabendo que, no início, policiais de baixa categoria faziam bico exercendo essa função, e valiam mais pela “estampa” e pela presença, e receberam essa denominação porque eram comparados a leões de louça que antigamente decoravam a entrada de chácaras de ricaços…

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Conforme o tipo de informação que você pede via internet, pode aparecer um pedido de prova que você não é um robô. Bom… Acho que existem robôs de carne e osso por aí, sendo teleguiados via redes sociais. Recebem por elas chavões e notícias falsas e repicam; recebem ordens de fanáticos e obedecem, fazem o que mandam, parecem robôs programados devidamente para isso. .

Mas como surgiu a palavra robô? Ela foi criada pelo escritor tcheco Karel Capek (1890-1938), com base no termo robota, que em sua língua significa trabalho. Ele usou esta palavra na peça “R.U.R” (abreviatura de Rossum’s Universal Robots), que fez grande sucesso em Paris, Londres e Nova York.

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Falando em redes sociais e no comportamento de muita gente que as usa, pensei: “Muitas pessoas se expõem totalmente nessas redes, fazem verdadeiros strip-teases morais, ideológicos etc.”. O verbo inglês to strip significa retirar o invólucro ou a cobertura, e, por extensão, tirar a roupa. To tease significa, entre outras coisas, excitar. Da junção dos dois surgiu a expressão strip-tease.

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Quase não ouço mais a expressão “testa de ferro”, para falar de pessoas que aparecem como donas de um negócio ou empresa, enquanto os verdadeiros nomes ficam na moita, escondidos, dissimulados. Xingava-se de testa-de-ferro, por exemplo, pessoas que representavam interesses de capitalistas gringos. Hoje em dia, há muitos deles, mas acham isso normal.

A origem da expressão é antiga e tem muitas versões. Uma delas é que na Antiguidade, em alguns lugares, a punição para certos crimes era marcar o criminoso a ferro quente, na testa. Criminosos ricos pagavam a certas pessoas para assumirem o crime e serem marcados no lugar deles… Outra versão é que nas batalhas navais os líderes ficavam lá na popa do seu navio, protegidos, mandando para a proa combatentes que deveriam arrebentar os navios inimigos.

Mas havia testas de ferro em situações curiosas. Durante o Império, no Brasil, foi criada uma Lei de Imprensa que punia a prática de calúnia e difamação, sem admitir provas. Daí surgiram testas de ferros profissionais, que assumiam a culpa por esses crimes, em troca de propina. Às vezes eram semianalfabetos, se passando por jornalistas.

Hoje em dia existe o termo “laranja”. Capitalistas usam para driblar o fisco e não pagar impostos pessoas que aparecem como donas de suas empresas mutreteiras sem saberem, e são chamadas de laranjas. Mas tem também “laranjas” que sabem o que fazem, e não só no meio empresarial. Você nunca ouvir falar de algum assessor de político pagando pelos pecados do chefe?

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Não se sabe a origem do termo “laranja”, há muitas versões e nenhuma convence, mas acredita-se que seja porque, como fazem com a fruta, tiram tudo de útil dela e jogam o bagaço fora.

Curiosidade: em alguns países o tipinho que nomeamos testa de ferro é chamado por outro nome, “homem de palha” (homme de paille em francês; uomo di paglia em italiano e straw man em inglês)

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O “toma lá, dá cá” acabou? Há quem acredite Mas há também quem ache que só mudaram as moscas, a podridão é a mesma… Segundo o professor Darcy Damasceno, a expressão “toma lá, dá cá”, que hoje é uma espécie de unanimidade na política brasileira, tem uma origem bem diferente dessa pornopolítica. A expressão teria vindo do casamento, em que há a troca de alianças, diante do altar. O toma lá, dá cá, quer dizer, o ato da troca de anéis aos pés do altar era visto como condição fundamental para união do casal.

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“Maria-isso, Maria-aquilo…”. Usam o nome Maria acompanhado de um adjetivo qualquer sempre que querem qualificar (em geral negativamente) alguma pessoa. Como Maria é o nome feminino mais popular no Brasil, usam esse santo nome em vão com muita frequência.

Cito alguns exemplos.

Começo com maria-sem-vergonha, que é uma flor bonitinha, que tem esse nome porque “dá em qualquer lugar”. E aí vão outras: maria-mijona (mulher que usa saia comprida e larga), maria-vai-com-as-outras (pessoa sem opinião própria), maria-gasolina (que sai com um cara só porque ele tem um carro, de preferência caro), maria-chuteira (que namora tudo quanto é jogador de futebol)…

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Mas não é só para “qualificar” pessoas que as Marias entram na composição de certas expressões – às vezes inofensivas, às vezes não.

Maria-branca é nome de uma ave; maria-chiquinha um tipo de penteado, maria-farinha uma espécie de caranguejo; maria-mole é um doce e também o nome da mistura de vermute com conhaque de alcatrão; maria-isabel é uma comida mato-grossense feita de arroz com carne de sol; maria-preta é um arbusto; maria-fedida é um percevejo; maria-vitória era um dos nomes da cruel palmatória com que se castigava estudantes…

E tem a maria-fumaça, que agora quase só existe na memória de velhos, pois as locomotivas a vapor, movidas a lenha, praticamente não existem mais. Resistem em alguns passeios turísticos, muito poucos. E esse apelido só pegou no século XX. Antes disso, no final do século XIX, importava-se dos Estados Unidos locomotivas a vapor da marca Baldwin, e essa marca vinha escrita nelas. Então esse tipo de locomotiva era chamado de balduína. Por sua popularidade, o nome Maria foi lembrado para ela também. Quando viam uma balduína, muitos diziam: “Lá vem a Maria soltando fumaça”, daí surgiu o nome maria-fumaça.


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