Blog do Mouzar

13 de dezembro de 2018, 11h37

Lembranças do AI-5

No dia dos 50 anos do AI-5, Mouzar Benedito conta sua experiência na noite de 13 de dezembro de 1968, quando foi anunciado o Ato Institucional; o blogueiro era morador do Crusp (Conjunto Residencial da USP), que foi invadido por forças policiais e militares

Reprodução

Lá se vão 50 anos! Reproduzo aqui dois trechos do livro 1968, por aí – Memórias burlescas da ditadura, que publiquei pela Editora Publisher-Brasil em 2008, quando o anúncio do AI-5 fazia 40 anos.

Primeiro, conto, minha experiência na noite de 13 de dezembro de 1968, quando foi anunciado o Ato Institucional. Quatro dias depois, na madrugada de 17 de dezembro, houve a invasão do Crusp (Conjunto Residencial da USP), em que eu morava, por forças policiais e militares. Conto só um pedacinho…

Uma noite inesquecível

 No Crusp – Conjunto Residencial da USP, havia um centro de convivência para os moradores e visitas. Nele havia uma televisão. Tensos, na noite de 13 de dezembro de 1968, esperávamos o noticiário para saber o que o governo faria depois de se sentir desacatado pelo Congresso, que tomou a decisão soberana de não deixar cassar o mandato do deputado Márcio Moreira Alves.

Sabíamos que a coisa ia engrossar, e veio pior. O ministro Gama e Silva apareceu na telinha com a decisão do governo, assinada pelo presidente Costa e Silva e todos os ministros. Entre eles, Delfim Netto e Jarbas Passarinho. Soube-se depois que Gama e Silva queria um ato ainda pior, e que na hora de assinar Jarbas Passarinho soltou um “às favas com os escrúpulos”.

Em São Paulo, os dois principais focos de resistência à ditadura eram a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP e o Crusp, onde, por sinal, moravam muitos desses estudantes. Então, sabíamos que seríamos dos primeiros a sentir o peso do AI-5. Muitos estudantes enterraram ou queimaram livros. Eu não tive coragem de queimar livros, ainda mais que eram livros que eu gostava. Um dos meus colegas de apartamento, o Chico, tinha um Chevrolet 1938 (na época era carro velho, e não antigo) e o usamos para levar nossos livros mais “perigosos” (textos de Marx e Guevara, por exemplo) a casas de pessoas que certamente os militares não prenderiam. Eram pessoas sem nenhuma participação política, mas solidárias. Deixamos um pouco de livros em cada casa, para buscar depois. Mas nunca buscamos, eu mesmo nem me lembrava mais onde eram essas casas. Espero que os livros tenham sido lidos por outras pessoas.

Na madrugada, sentimos que tínhamos razão de fazer isso. Carros cheios de policiais, militares e militantes do CCC (Comando de Caça aos Comunistas – entidade de direita, com sua maior base na Universidade Mackenzie) passaram em alta velocidade pela avenida que margeia o Crusp, metralhando os prédios. Os prédios do Crusp não tinham paredes de alvenaria, eram estruturas de concreto com “paredes” de madeira fina. Muitos apartamentos ficaram cheios de buracos de balas de grosso calibre que, por sorte, não atingiram ninguém, embora tenha passado assobiando no ouvido de alguns.

A partir daí, criamos umas barreiras em toda a área que cercava o Crusp. Dia e noite, ficava um grupo de estudantes em cada barreira, em que era impossível (com tubos de concreto obrigando os carros a andar em zigue-zague) andar a mais de dez por hora, armados de coquetéis molotov e, segundo eu soube, alguns tinham uns revólveres mixurucas. E havia uma sirene para dar alarme no caso de invasão mais pesada. Mas na madrugada em que houve a invasão, quando os estudantes que estavam de sentinela viram a aproximação de cerca de três quilômetros de veículos militares, se mandaram sem nem mesmo tocar a sirene. Depois, disseram que a sirene não funcionou, não sei se é verdade.

O japonês do Vietnã

Quatro dias depois da edição do AI-5, na madrugada de 17 de dezembro, numa operação conjunta de várias polícias e do exército, deram um golpe mortal num dos principais focos de resistência à ditadura, o Crusp. Cerca de 1200 estudantes foram presos.

A invasão, as prisões e todos os abusos possíveis tiveram também seu lado que poderia ser chamado de cômico, não fosse o estrago que fizeram. Algumas coisas foram bobagens, como a apreensão de livros “subversivos” que não tinham nada a ver. Ficou famosa a história de um estudante de engenharia hidráulica que tinha, entre seus livros, um publicado em espanhol pelo Departamento de Línguas Estrangeiras da Universidade de Moscou. Fora sua origem, tinha mais dois fatos comprometedores: sua capa era vermelha, e o título era revelador: Bombas Hidráulicas. Deu uma baita encrenca ao dono. Os estudantes contavam isso gozando, inventando que o mesmo oficial que apreendeu esse livro pegou outro de um estudante de geologia que morava no mesmo apartamento, mostrou-o ao estudante de engenharia e disse: “Por que você não faz como seu colega e lê coisas melhores, mais construtivas, como essa biografia?”. O título do livro, em inglês: General Geology.

Outras coisas que as autoridades exibiram orgulhosas aos meios de comunicação (que em sua maioria endossavam a ação dos policiais e militares) foram camisinhas, pílulas anticoncepcionais e um cartaz escrito com pincel atômico por um estudante imbecil, dizendo que “No Crusp não existem virgens”.

Mas teve coisas mais sérias. Para os policiais e militares, naquele lugar só havia comunistas e libertinos, por isso procuravam arrancar confissões malucas dos estudantes. Mas na verdade havia de tudo. Pra começar, por opção das próprias moradoras, no Bloco A nunca foi permitida a entrada de homens, nem mesmo de pais de moradoras, que eram recebidos no térreo. Nada de libertinagem. E havia gente de direita também. Uma minoria, mas havia. Tinha um grupo de estudantes de origem japonesa em que só conversavam em japonês, para evitar assédio de brasileiros. Eram direitistas e racistas.

Um dos membros desse grupo de direita ultrarradical era daquele tipo que coleciona punhais e outras armas brancas. Toda a parede da sala do seu apartamento era enfeitada com essas armas. Ele veio do Japão na barriga da mãe, num navio que fez escala no Vietnã, e nasceu enquanto a embarcação estava parada no porto de Saigon. Então, seu registro de nascimento era do Vietnã, país que estava em guerra, enfrentando e derrotando os poderosos Estados Unidos.

Na invasão do Crusp pela polícia e pelo exército, quando viram aquele monte de punhais na parede, consideraram o sujeito um perigo. Depois viram seu documento, indicando que havia nascido no Vietnã… Pronto! Um esquerdista pra lá de perigoso! Como não sou politicamente correto, tenho algumas malvadezas, até hoje sorrio ao me lembrar que me contaram que ele apanhou bastante na cadeia.


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