Anarca é a mãe

21 de maio de 2014, 15h53

As casas e as regras

quem manda

”Minha casa, minhas regras”, é o que dizem. E com isso esperam justificar sentirem-se no direito de cobrar, como se lhes fosse devida, a obediência acrítica des filhes.

Discordo. Quem trouxe mes filhes para dentro da minha casa fui eu. Assim, não é mais “minha” casa. É “nossa” casa. Nós todes moramos juntes aqui. Por mais indesejada que possa ser uma gravidez, por maior que seja a pressão social sobre as mulheres para que se tornem mães, ter filhes ainda é muito mais uma escolha do que ser filhe jamais poderia ser.

Por essa razão, entendo que não é justo (aliás, me cheira a chantagem) impor que façam o que digo ou “a porta da rua é a serventia da casa”. Não é por escolha própria que crianças ou adolescentes dependem de seus pais, ou não podem sair de suas casas sem grave prejuízo a sua segurança e desenvolvimento.

Somos uma família. Estamos todes no mesmo barco e nos interessa não só o nosso próprio bem-estar, mas também o das outras pessoas que aqui moram, porque a situação de cada pessoa influencia direta ou indiretamente a das outras. Nada mais fundamental, portanto, do que todas terem voz, sejam adultas, crianças ou adolescentes.

Não é questão de cada cabeça um voto. Não é eu defendo o meu e você o seu, votamos e vemos quem ganha. Isso pode ser fácil, rápido e prático, mas continua dando na mesma: uma vontade abafando a outra, uma palavra silenciando a outra. E com o tempo virão coligações e venda de voto e ditadura da maioria ou qualquer outra coisa, porque o que era para ser democracia virou instrumento de dominação.

O que nós queremos, aqui na nossa casa, é não haver ganhar ou perder. É sempre procurarmos a solução em que todes sairemos minimamente satisfeites. Dá muito mais trabalho, claro, mas vale muito a pena. Porque nos ensina a buscar a composição das vontades e não a sobreposição das vontades. Nos ensina a transigir, flexibilizar, buscar alternativas, dialogar, ceder.

Ao invés de estabelecermos regras fixas, que se tornam fins em si mesmas, só porque são, de novo, o mais fácil, rápido e prático (“isto, logo aquilo”; norma, logo sanção), preferimos ter princípios cuja aplicação pode ser debatida e refletida caso a caso, sempre que possível ou desejável.

Em lugar da preocupação com lícito e ilícito, legal e ilegal, queremos empatia, responsabilidade e boa-fé. Buscamos a motivação intrínseca, o desenvolvimento natural do discernimento dentro da liberdade de pensamento e de escolha.

Eu prefiro lidar com adolescentes e crianças questionadoras sabendo que um dia serão adultes capazes de se virar sozinhos e pensar por si próprios do que lidar com cordeirinhos silenciosamente obedientes que um dia serão massa de manobra para outrem, eternos subalternos e subjugados, beijando a mão que es golpeia.

A verdadeira revolução começa dentro do meu lar, dentro de mim. Para lutar contra a opressão, preciso antes lutar contra a opressora que me habita.

Hoje, a minha casa; amanhã, o mundo.

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