E a palavra do dia é… sororidade!

A primeira vez em que vi esse termo numa discussão feminista, me apaixonei por ele. A ideia de criar um laço entre mulheres, de estimular nossa proteção umas às outras, de desconstruir a competitividade que o patriarcado nos impõe. E agora eu a vejo sendo usada como o zap num jogo de truco. Um zap silenciador. […]

A primeira vez em que vi esse termo numa discussão feminista, me apaixonei por ele. A ideia de criar um laço entre mulheres, de estimular nossa proteção umas às outras, de desconstruir a competitividade que o patriarcado nos impõe.

E agora eu a vejo sendo usada como o zap num jogo de truco. Um zap silenciador. Como você pode criticar outra feminista? Cadê a sua sororidade? Quem critica as irmãs aplaude “uzómi”.

E assim sororidade passou a ser usada para calar qualquer dissenso, qualquer apontamento de transfobia, racismo, elitismo, homofobia, bifobia…

Pô, eu sempre tive uma ideia tão diferente de sororidade.

Daí vi este texto. Concordo com o sentimento – e principalmente com a imagem do cartaz, que diz: “meu protesto será interseccional ou não será nada” – e gostaria de ir mais a fundo em relação a um ponto.

Para mim, não é que temos que colocar de lado a sororidade para apontar os erros no movimento. É que temos que apontar os erros no movimento precisamente por uma questão de sororidade.

A sororidade, para mim, é linda porque ela me mostra que mesmo aquela pessoa com quem eu não me identifico é minha irmã, minha semelhante. E me lembra que a dor que essa pessoa sente, mesmo que diferente da minha, ou até mesmo incompreensível para mim, é legítima, e que ela, tanto quanto eu, precisa de espaço para falar sobre essa dor e ver-se acolhida nela.

Não é concordar ou discordar. É considerar aquele ponto de vista, entrar nele, encontrar a pessoa humana por trás dele. É empatizar.

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Quando uma irmã me diz que minhas palavras ou atos a ferem, é justamente por sororidade, a meu ver, que me cabe ouvi-la e ampará-la. Me cabe buscar entender essa crítica e seus fundamentos e, se for o caso, discutir sua validade não com a violência de quem luta contra um adversário, mas com o cuidado, a atenção, a consideração que eu gostaria que tivessem para comigo.

Porque para mim é essa a essência da sororidade: empatizar. Imaginar-se na outra e permitir que a outra seja você. Mesmo não sendo, mesmo só por um segundo. Tentar sair de si mesma, olhar-se de longe, enxergar seus próprios privilégios e sentimentos e desnudar-se deles para, nessa nudez, encontrar a outra pessoa diante de você com outros olhos, mais humildes, menos armados, menos defensivos.

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É abrir mão de ganhar ou perder, estar certa ou errada. Eu já disse antes e torno a dizer: a empatia é o que fará o patriarcado ruir. E, para mim, a essência da sororidade sempre foi essa. Empatia.

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Letícia Penteado

Reflexões de uma mãe anarquista do século XXI.

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