Anarca é a mãe

29 de novembro de 2015, 08h52

Educação ou opressão?

sala de aula

Convido todes a lerem meu trabalho de conclusão do curso de pedagogia, “Educação ou Opressão? O Adultismo no Ensino de Crianças e Adolescentes”.

Segue abaixo uma amostrinha; o trabalho completo pode ser baixado aqui. Peço desculpas por não ter tido coragem de observar a neutralidade de gênero no texto (que aqui mantive conforme o original) e pela linguagem chata e acadêmica. Eu fiz o possível para que não se tornasse algo maçante, mas não poderia deixar que ficasse com cara de coisa que não é “séria”, sabem como é.

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2.3 O impacto do adultismo no desenvolvimento da autonomia

Para os fins deste trabalho, nos baseamos nas definições kantiana e piagetiana da palavra autonomia, isto é: a capacidade de alguém de governar-se por sua vontade própria, agir por si mesmo, através de uma escolha racional e emocional que não leva em conta as consequências externas e imediatas dos atos, ou seja, não é baseada no medo da punição ou da perda da recompensa (CHRISTINO, 1997).

É necessário ressaltar, ainda, para desfazer malentendidos, que a compreensão de autonomia aqui retratada não é a mera internalização das regras postas por outras pessoas, já que o ser humano autônomo a que nos referimos aqui é “aquele que pode dizer ‘não’ enquanto o resto da sociedade, possível refém das tradições, diz ‘sim’, contanto que este ‘não’ [não seja] decorrência de um ingênuo espírito de contradição”. (LA TAILLE et al., 1991, p. 63).

Por não acreditar na capacidade de pessoas não-adultas de viverem sem o controle adulto constante, o adultismo prejudica enormemente o desenvolvimento da autonomia delas, negando-lhes a oportunidade de exercitarem esse autogoverno sem interferências, além de viciá-las na busca das consequências externas (evitar a punição, obter a recompensa) para a motivação de seus atos, como detalharemos a seguir.

2.3.1 O esclarecimento e a menoridade

Segundo KANT (2005. p.64):

Esclarecimento [Aufklarung] é a saída do homem da sua menoridade, da qual ele próprio é culpado. A menoridade é a incapacidade de se servir do entendimento sem a direção de outro indivíduo. O homem é o próprio culpado dessa menoridade se a sua causa não reside na falta de entendimento, mas na falta de decisão e de coragem em se servir de si mesmo sem a direção de outrem. Sapere aude! Tem a coragem de fazer uso de teu próprio entendimento, tal é o lema do esclarecimento [Aufklarung]

Obter o esclarecimento kantiano, portanto, seria sair do conforto da sombra de tutores e autoridades, emergir do estado – menoridade em que se tem o conhecimento e o entendimento, mas não se confia em si mesmo para fazer uso desses recursos.

Esse pensamento flui junto ao de Carl Rogers, que tinha uma concepção de terapia que: “[…] não poderia deixar de suscitar controvérsia, porque ela caminhava no sentido contrário da ideia […] segundo a qual o paciente, ou o cliente, necessita de um especialista para resolver seus problemas.” Esse mesmo pensamento aparecia em seus escritos sobre educação, “nos quais afirma que o aluno tem motivações e entusiasmos que o professor deve liberar e favorecer” (ZIMRING, 2010, p. 11-12).

Não basta que tenhamos as ferramentas e saibamos como utilizá-las, temos que ter a coragem de fazê-lo. Temos que confiar em nossas habilidades e capacidades se pretendemos sair da dependência eterna e cega de “especialistas” e “tutores”.

Curiosamente, é possível interpretar, pelas palavras de Kant, que a menoridade não tem idade. É claro que uma criança dependerá muitas vezes da orientação, experiência e maior conhecimento da pessoa adulta, mas, se ela for capaz de se responsabilizar por si mesma naquilo em que isso é possível, se ela for capaz de fazer uso de seus conhecimentos por si só, por mais parcos que eles sejam, sem depender da validação de uma pessoa adulta para tanto, ou, ainda, sem acomodar-se na responsabilização de outrem, ela não estará no estado de menoridade.

Isso é interessante porque é a tendência natural da criança lutar para fazer por si mesma aquilo que acredita ser capaz de fazer. E tentar e tentar de novo e tentar mais uma vez, muitas vezes em meio a lágrimas de frustração e ira diante de suas dificuldades, como bem sabe quem já teve a oportunidade de observar uma criança em processo de superação de algum de seus limites.

Ou seja, o estado natural da criança – e, logo, do ser humano – portanto, não é o estado de menoridade, mas o de esclarecimento ou, ao menos, a busca enérgica por ele. A menoridade, na verdade, é aprendida, inculcada e mantida por meio do adultismo.

Se crianças forem sempre levadas pela mão e, assim, impedidas de encontrarem seu próprio caminho, elas irão gradualmente parar de fazer descobertas por si próprias.” (MILLER, 1998, p. 184). E não é só uma questão de se acomodarem. É a perda de autoconfiança. A internalização da mensagem de que, sem alguém para guiá-las, elas se perderão.

HOLT (1982a) ilustra essa tendência dentro da pedagogia com a imagem de alguém (professor) que, depois de empurrar um carro enguiçado até ele dar a partida, recusa-se a soltar do para-choque, acreditando piamente que o carro não andará sem que ele o empurre. O motorista do carro (aluno), agora pronto para partir por conta própria, fica então restrito à velocidade da pessoa que o está empurrando, porque passa a acreditar que aquele empurrão é necessário para seu movimento, ou mesmo teme arrancar e largar quem o ajudou caído na rua. Estabelece-se uma relação de dependência.

Em outra passagem do mesmo texto, o autor coloca como “profecia autorrealizadora” a ideia de que crianças não aprendem sem as punições ou recompensas. Ele defende que, se tratarmos crianças por bastante tempo como se isso fosse verdade, isso se tornará verdade, porque elas próprias passarão a ver-se assim – como a maior parte das pessoas que declara que, se não fossem forçadas a fazer algo, não fariam nada (HOLT, 1982a).

É assim que se cria uma menoridade eterna e forçada.

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REFERÊNCIAS (citadas no trecho):

CHRISTINO, Raquel Rosan. Piaget e Kant: uma comparação do conceito de autonomia. Revista Nuances. São Paulo, v. III, p. 73-77, set/1997.
HOLT, John. How children fail.Boston: Da Capo Press, Revised edition, 1982.
KANT, Immanuel. Textos seletos. Tradução de: Raimundo Vier e Floriano de Souza Fernandes. 3ed. Petrópolis: Vozes, 2005.
LA TAILLE, Yves.; DANTAS, Heloysa.; OLIVEIRA, Marta Kohl. Mesa redonda: três perguntas a vygotskianos, wallonianos e piagetianos. Cadernos de pesquisa. n. 76, p. 57-64, fev. 1991.
MILLER, Alice. Thou shalt not be aware. Tradução de Hildegarde and Hunter Hannum. New York: Farrar, Straus & Giroux, 1998.
ZIMRING, Fred. Carl Rogers tradução e organização: Marco Antônio Lorieri. Recife: Fundação Joaquim Nabuco, Ed. Massangana, 2010.

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