Anarca é a mãe

31 de janeiro de 2016, 14h39

Esperança

io-iôMuita gente tem me dito que perdeu a esperança, ou a fé, na humanidade. Que não acredita que possamos mudar o caminho em que estamos, que somos uma espécie fadada à extinção. Eu não vejo isso.

Eu ofereço escuta para muitas pessoas e muitas delas são mulheres tentando sair de relacionamentos abusivos. E eu vejo um paralelo entre o caminho que costumamos percorrer nesse processo, com suas incidentais recaídas, e o caminho que a humanidade faz em direção à sua libertação da lógica da dominação (base do capitalismo e do Estado).

Sair de um relacionamento abusivo pode, de fora, parecer fácil, óbvio, questão de autopreservação. Mas não é tão simples. Porque há todo um condicionamento, uma armadilha mental, que mantém a gente ali.

Tem a vergonha de estar naquela situação, que por si só muitas vezes nos leva a crer que a merecemos. Tem a ideia de que as coisas são assim mesmo, e a de que a brutalidade é paixão – algo que muitas vezes vem da tendência de tentarmos negar o abuso por conta da necessidade de nos sentirmos amadas: “ele é assim porque ele me ama de verdade”.

Além disso, nos apegamos aos “momentos bons” e costumamos ter a sensação de que é nosso papel cuidar do cara, transformá-lo numa pessoa boa. Que, se ele é violento porque está sofrendo, que não podemos abandoná-lo com esse sofrimento, ainda que ficar faça com que nós próprias soframos física e/ou psiquicamente. E o agressor se aproveita disso, desse condicionamento (ainda que nem sempre conscientemente), nos envenenando e manipulando para que não consigamos nos permitir escapar.

Essas barreiras podem ser invisíveis, mas não são inexistentes. E são muito difíceis de se transpor. Especialmente sem qualquer apoio.

Muitas vezes, ensaiamos partir… mas daí ele corre atrás, faz mil coisas fofas, promete que vai mudar, que vai ser tudo diferente. E a gente desiste. E volta. E normalmente, ao fazê-lo, nos sentimos fracas e tolas. Especialmente por conta da forma como a sociedade costuma dizer que a culpa é nossa, que nós é que nos sujeitamos (“mulher de malandro!”), que nós não merecemos respeito porque não nos damos ao respeito, etc. “Falta de vergonha na cara”, dizem, quando o que mais sentimos é, precisamente, vergonha.

Tudo poderia ser tão mais fácil se entendêssemos e entendessem que esse ir e vir, quando acontece, é parte do nosso processo interno, do nosso tempo.

Para conseguirmos sair sem olhar para trás, precisamos abraçar e desconstruir muita coisa dentro de nós. E isso não se faz da noite para o dia. E fica muito mais difícil sem apoio. Quando não há quem olhe para a gente com carinho, quem nos acolha, é quase impossível a gente conseguir acreditar que é digna de carinho e acolhimento.

Para passar pela porta, precisamos superar o medo. Medo de ficarmos sozinhas. Medo do desconhecido. Medo de que todas as coisas terríveis em que ele nos faz acreditar em relação a nós mesmas sejam verdade.

Havendo escuta e suporte, haverá fortalecimento. Haverá empoderamento. E, com isso, eventualmente vai chegar o ponto em que o medo vai perder. Em que a gente vai conseguir encarar nossos piores temores e falar “foda-se” do fundo do nosso coraçãozinho batido e pisado que até então já não se aventurava mais para fora da cozinha. Porque finalmente enxergamos que, independentemente do que vai ser, como está não dá mais para ficar. E ouvir que ninguém mais vai nos querer não assusta mais – ou pelo menos não tanto, não a ponto de nos manter ali. Porque mesmo que o cara fosse a única outra pessoa no mundo a gente não iria querer ficar com ele.

Similarmente, quando a gente faz que vai sair da merda em que estamos, coletivamente, como sociedade, a direita, o conservadorismo, vem com flores e bombons e bônus de natal. Com promessas de que tudo pode ser melhor sem mudar nada. Com ameaças de que, se a gente for para o outro lado, o céu irá desabar sobre as nossas cabeças.

E daí a gente volta.

Só que não é um relacionamento entre apenas duas pessoas. É um relacionamento de cada pessoa com a visão de mundo baseada na noção de que só há duas opções possíveis: estar por cima ou estar por baixo. Dominar ou ser dominade.

E não estamos sós. Em números crescentes, nos ouvimos e nos acolhemos e nos abraçamos cada vez mais quando falamos de nossa infelicidade dentro deste paradigma. A empatia está se tornando uma palavra corrente nos nossos vocabulários.

Assim, a exemplo do que costuma ocorrer quando mulheres presas num relacionamento abusivo recebem escuta, apoio e acolhimento, cada vez que a gente volta, mesmo voltando, a gente volta mais de saco cheio daquilo. Com menos disposição para nos enganarmos. Com menos vontade de ficar. Com mais e mais certeza de que, por mais doloroso que possa ser o fim, ainda mais dolorosa é a perspectiva daquilo nunca acabar.

Isso me dá esperança de que vá chegar o dia em que não vamos voltar mais.

A questão é: vamos sobreviver ao percurso? Às indas e vindas?

Muitas mulheres, infelizmente, não sobrevivem. Talvez nós, também, como sociedade, pereçamos no caminho antes de chegar num ponto em que pelo menos estejamos fora de perigo.

Espero que não. Seria uma pena.


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