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19 de março de 2018, 15h47

Feminismo é amor

O mesmo amor que me faz levantar contra quem age de forma a ferir quem eu amo, hoje me faz levantar por mim mesma, seja com raiva ou não.

Sim. Para mim, feminismo é amor.

É comum que a palavra feminismo seja associada à raiva, à luta. E faz sentido que seja. Mas, para mim, o que o feminismo promove é algo anterior a isso. Mais profundo que isso.

Eu já sentia raiva antes do feminismo. Essa raiva vinha do fato de que muitas necessidades muito básicas minhas – de liberdade, de segurança, de respeito, de cuidado, de justiça – não estavam sendo atendidas em inúmeras das minhas interações. E do medo de que jamais o fossem. E da sensação de impotência diante disso.

Eu sempre fui a “arrogante”, a “briguenta” (leia-se: mulher assertiva). Então eu achava que não tinha raiva represada. Que comigo era bateu-tomou, que eu resolvia as coisas na hora e deu.

Mas daí eu conheci o feminismo. E me dei conta de todas as violências que eu passei uma vida escondendo de mim mesma que havia sofrido.

Quando eu falo das “violências que eu passei uma vida escondendo de mim mesma que havia sofrido”, estou me referindo a todos aqueles atos que eu me senti muito mal de receber; que, na minha percepção, negavam a minha humanidade. E que eu por tanto tempo fingi que tudo bem eles terem acontecido, dizendo para mim que era o jeito que as coisas eram. Que fazia parte. E fiz de conta que nem doeu tanto assim. Eu contava sobre alguns em tom de piada, aliás, rindo aquele riso vazio, oco, que a gente ri sem alegria.

Por quê? Porque eu sentia vergonha de ter sofrido com aquilo. No fundo, eu achava que eu deveria ter algo em mim para merecer ser tratada daquela forma. E, se não era algo que eu tinha feito, então talvez fosse algo em quem eu era. Que aquele era o meu lugar no mundo.

Não passava pela minha cabeça me revoltar contra isso. Eu teria me revoltado, se fosse a história de outra pessoa – como tantas vezes de fato me revoltei por outrem, uma revolta que só ia até o ponto em que eu não me reconhecia na outra pessoa. Porque, se eu olhasse para ela e visse a mim mesma, não conseguia mais empatizar com ela.

E isso, por quê?

Porque eu não me amava. Eu não sei dizer se realmente me odiei, assim, em absoluto, em algum momento. Senti, sim, muito ódio de mim muitas vezes. Ódio do meu corpo, do meu rosto, meu nariz. Ódio do meu jeito de ser. Da minha voz. Eu acho que nunca quis ser outra pessoa, mas eu sei que quis ser uma versão diferente de mim mesma. Uma versão que, na minha cabeça, pudesse receber amor, cuidado, respeito. Porque eu achava que o jeito de receber essas coisas era mudar a mim mesma. Que tinha algo de fundamentalmente errado comigo para eu não tê-las.

O que o feminismo fez foi me mostrar que não.

Pela primeira vez entretive a noção de que eu não era um ser estruturalmente inadequado, que merecesse passar por aquelas coisas, lidar com aquelas coisas e suas tantas outras manifestações no dia a dia. De que, talvez, eu fosse digna de defesa. De cuidado. Por mim mesma.

Por mim mesma.

E, assim, aos poucos, eu comecei a sentir mais amor por mim. Comecei a me aceitar mais como sou, a cada dia em que sou. Comecei a ser capaz de empatizar mais comigo mesma à medida em que me via espelhada nas outras mulheres com quem empatizava. E comecei a (re)conhecer as mulheres ao meu redor, sem a crença interior tóxicas de que fossem minhas inimigas, sem querer me vingar de mim mesma nelas.

E, desse amor, a revolta nasceu. A raiva aflorou. Tanta raiva. E me dei conta de que muita raiva que eu sentia e achava que era de outras coisas, no fundo vinha disso. Porque as coisas que a gente esconde da gente não vão embora. Nada se perde, nada se cria, tudo se transforma – e funciona assim dentro da nossa cabeça também, a meu ver. Toda aquela raiva que estava dentro de mim, contida, guardada, escondida, na verdade estava o tempo todo borbulhando e eclodindo em cada ocasião que tinha oportunidade de fazê-lo.

E, sim, houve momentos em que eu fiquei muito pouco tolerante com o que percebesse como violência – agora que eu finalmente via o meu balde cheio, qualquer gota me fazia transbordar… e eu me permitia transbordar. Mas ver o balde cheio foi o que me ajudou a esvaziá-lo. Ainda tem muita coisa lá dentro, claro. Mas tem bastante que já evaporou.

Ao me permitir sentir a minha raiva, o feminismo me libertou dela. Antes, eu era mais dela; hoje, é ela é mais minha. E eu me sinto mais capaz de escolher a forma como vou lidar com ela.

O mesmo amor que me faz levantar contra quem age de forma a ferir quem eu amo, hoje me faz levantar por mim mesma, seja com raiva ou não.

E amar a mim mesma me permite hoje amar a outras pessoas com muito mais aceitação e entrega, o que me traz muito mais satisfação nas minhas interações.

É por isso que, para mim, feminismo, em seu aspecto mais básico, mais fundamental, é amor.


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