Guerreira coisa nenhuma

Guerreira? Não. Você não vai aliviar a sua consciência pesada dando um tapinha nas minhas costas e me chamando de guerreira. Você não vai me comprar com esse elogio vazio, esse biscoitinho com que se premiam mulheres por se submeterem à exploração dos homens, como se fosse um calvário que nos enobrecesse o espírito e nos […]

sobrecargaGuerreira?

Não.

Você não vai aliviar a sua consciência pesada dando um tapinha nas minhas costas e me chamando de guerreira.

Você não vai me comprar com esse elogio vazio, esse biscoitinho com que se premiam mulheres por se submeterem à exploração dos homens, como se fosse um calvário que nos enobrecesse o espírito e nos tornasse mais e melhores mulheres, como se fosse algo de que devêssemos nos orgulhar.

Não é. É algo de que toda a sociedade deveria se envergonhar.

Por que tratar a sobrecarga de outrem como inevitável se ela só ocorre porque ninguém (incluindo, talvez, você) toma uma atitude a respeito dela? Por que é que, diante dessa sobrecarga, a resposta é dar os parabéns a quem carrega o piano resignadamente ao invés de arregaçar as mangas e entrar na roda?

Esse gracejo passa longe de ser um reconhecimento do esforço alheio. É, na verdade, um gaslighting e uma manipulação para manter a mulherada correndo atrás do próprio rabo sem nunca parar para perguntar “e você? Não vai fazer nada?”

Não é ridiculamente previsível que o único ponto em que se concede que o cérebro feminino seja superior ao masculino seja precisamente na característica que serve de desculpa para que nós, mulheres, sejamos pressionadas a fazer mil coisas ao mesmo tempo? Será mesmo que a mulher é uma deusa multifuncional, ou será que o homem é que é um folgado mal-acostumado?

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Claro, há quem diga que as mulheres são responsáveis por isso, que são as mulheres que acostumam mal aos homens. Como se alguém um dia acordasse dizendo “ah, eu quero tanto viver trabalhando mais e ganhando menos e sendo menos reconhecida e ainda me sentindo culpada e fracassada quando não consigo dar conta de fazer o impossível!”

E daí que haja mulheres que acham que essa é a ordem natural das coisas? Isso torna moral a atitude dos homens que se aproveitam delas?

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Não à toa, entre girarmos em falso tentando bater essas metas inatingíveis e nos sentirmos inferiores e defeituosas quando não conseguimos, não encontramos tempo para questionar a falta de sentido dessa desigualdade e sofremos caladas, temendo expor o que nos parece ser uma inadequação nossa. Não nos sentimos legitimadas sequer a pedir ajuda, que dirá exigir a mínima cooperação de outrem.

Criadas e educadas para competirmos entre nós, não buscamos apoio umas das outras e nos isolamos com nosso desespero. Guerreiras sofrendo estoicamente em silêncio.

Por isso, não me chame de guerreira. Ninguém deveria ter que ser guerreira. Glorificar o sofrimento das mulheres que estão ralando é exortá-las a continuar com esse sacrifício injusto e desnecessário, ao invés de juntar-se a elas na luta pelo fim dele. Se você se importa o bastante para “elogiar”, deveria se importar o bastante para se envolver e participar.

Se não há nada que você possa fazer, então acolha. Reconheça a sobrecarga, legitime o cansaço, valide a frustração. E não apenas “recompense” a mulher por estar lá, se martirizando para que outras pessoas não precisem nem se mexer.

Aliás, caso você seja homem, restringir-se a esse agradinho verbal só reafirmará a ideia de que é isso que as mulheres devem sempre buscar: a aprovação masculina. E, ainda, uma aprovação que vem na forma de um “elogio” essencialmente machista, afinal, guerrear é um papel que estereotipicamente se atribui aos homens. Isso sugere que a mulher assim elogiada é guerreira porque “equiparou-se” a um homem – ela é “forte“. Ironicamente, a gente recebe esse elogio por acumular muitas funções que dificilmente seriam vistas como “coisa de homem” pela sociedade machista.

Dói reconhecer limites, mas dói ainda mais desrespeitá-los. Eu não sou guerreira. Sou uma mulher. Sou um ser humano.

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Letícia Penteado

Reflexões de uma mãe anarquista do século XXI.

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